Letras na Avenida, a "feira possível", já anima os Aliados

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Alguns clientes nem sabiam que ia haver uma alternativa à Feira do Livro do Porto PAULO PIMENTA

Primeiros dois dias do certame, que substitui este ano a Feira do Livro do Porto, satisfazem livreiros e leitores

Humberto Rodrigues ficou "surpreendido" quando, chegado à Avenida dos Aliados, deu de caras com um conjunto de "barracas". "Estava convencido de que não ia haver feira", conta este pintor de 46 anos, de Rio Tinto. Não há Feira do Livro do Porto, tradicionalmente organizada pela Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL), mas há uma outra: há Letras na Avenida, uma feira do livro que dá destaque às livrarias da cidade.

Ontem, no primeiro sábado do evento, que se prolonga até dia 28, muitos reagiam como Humberto Rodrigues, que ficou "aborrecido" com a suspensão da feira do livro da APEL. "Tinha lido que não ia haver feira do livro. Sempre dá para consolar a vistinha", diz. A trabalhar em França há ano e meio, este "tripeiro de gema", de férias em Portugal, procurava o livro Ser Espiritual, de Luís Portela. "Quero ver se levo algum livro na bagagem", conta. "Há sempre coisas interessantes - é procurar."

O livro do chairman da Bial é uma edição da Gradiva, pelo que Humberto Rodrigues poderá ter encontrado o título nos stands da Bisturi, uma rede de livrarias técnicas. A presença de editoras, como a Gradiva, mas também o Clube do Livro, Livros do Brasil e Relógio d"Água, no Letras na Avenida é feita desta forma, através de parcerias com livrarias. Está também presente uma editora com livrarias próprias, a Europa-América, com um amplo stand, mas não estão presentes outras selos com loja própria, como a gigante Porto Editora.

Raquel Martins, da Bisturi, não esquece o descontentamento com a não realização da Feira do Livro do Porto, suspensa pela APEL por falta de apoios financeiros da Câmara do Porto. Foi uma "vergonha", considera. A afluência registada desde o dia inaugural, sexta-feira, mostra-lhe que "há espaço para as duas" feiras, mesmo que sinta que "as pessoas não estavam devidamente informadas" de que haveria uma "alternativa" ao certame da APEL.

Segundo a agência Lusa, a Câmara do Porto, que organiza o evento com a produtora cultural CulturePrint, arrecadará cerca de 16 mil euros pela cedência dos expositores aos livreiros presentes no certame. Desconhecem-se, porém, os valores investidos pela autarquia na montagem da feira - o PÚBLICO procura, repetidamente, esclarecimentos junto da autarquia desde dia 27 de Junho, sem sucesso.

Para a Bisturi, que tem livrarias dentro de hospitais ou em pólos académicos, estar nos Aliados "é uma campanha de marketing". E uma oportunidade de "escoar stocks", reconhece o colega Pedro Monteiro: há livros novos a partir de um euro. Monteiro participa também na feira com o documentário que realizou sobre a UNICEPE - Cooperativa Livreira de Estudantes do Porto, O Medo Vai Ter Tudo, que será exibido na noite de quinta-feira.

Uma aposta na "divulgação" da livraria foi também o que levou António Duarte a levar a Homem dos Livros, com dois anos de vida, para os Aliados. Vende clássicos de Jorge de Sena e Umberto Eco a cinco euros, "um quarto do preço" dos mesmos livros por estrear.

Ao segundo dia de feira, o negócio de António Duarte estava "em aceleração". "As pessoas só agora começam a aperceber--se que há feira", diz. Está feliz por ver uma "feira dos livreiros da cidade" (na feira da APEL os valores exigidos para ter um stand eram muito superiores aos agora praticados, que começam nos 300 euros), mas aponta algumas críticas à organização: "as bancadas tinham que ser mais baixas" e há "falta de segurança". "A chave do meu stand abre todos. Como é que vou trazer para aqui livros caros?"

"Foi a feira possível, mas tem toda a dignidade", defende Manuel Monteiro, da editora Caleidoscópio, um veterano destas andanças ("Já faço feiras desde os 15, tenho 65").

Opinião idêntica tem António Ventinhas, 41 anos, magistrado do Ministério Público, residente em Faro. "É uma versão mais reduzida, mas ainda assim deve-se fazer", refere. "Vale sempre a pena, não pelas promoções, mas pelas novidades. E há livros que só aparecem nestas feiras", diz, depois de espreitar a banca da Livraria Jurídica.

"Acho triste não terem arranjado fundos para a Feira do Livro. Esta tem muito menos", lamenta Hamilton Pereira, de 30 anos. "Uma pessoa passava uma tarde inteira na Feira do Livro", reforça. Ainda assim, ficou satisfeito por encontrar os livros de arte da Taschen com preços de outlet. Ver alfarrabistas é também uma "coisa boa" para este dentista, habituado a comprar livros pela Internet.

Uma ideia parece unânime: o Letras na Avenida é, sobretudo, uma montra dos livreiros da cidade, da clássica Moreira da Costa, fundada em 1902, a projectos especializados, como a Poetria. "As pessoas não fazem ideia da riqueza de livrarias que têm aqui [na Baixa]", diz Rui Vasconcelos, da livraria religiosa bracarense Fundamentos. A feira "está a começar muito bem", diz. "Tenho vendido. Vai dar lucro."

"Espaçando no calendário", a feira da APEL e esta "podem coexistir", acredita o livreiro. "Na leitura, o concorrente não é o colega: é a ignorância, a falta de hábitos de leitura."