Hoje a etapa, amanhã o Tour

Depois da II Guerra Mundial, uma fuga perfeita da realidade.

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Coppi e Bartali, uma rivalidade que entrou na mitologia do Tour Arquivo

A II Guerra Mundial tinha acabado e a Europa, em reconstrução, procurava distracções para sarar as feridas. A expiar os "pecados" de um período negro, a Itália encontrou no ciclismo, mais concretamente em dois homens, uma fuga perfeita da realidade. Nunca uma rivalidade foi tão emblemática. De um lado, Gino Bartali, vencedor do Tour em 1938 e dez anos depois. Do outro, a promessa Fausto Coppi, camisola rosa do Giro de 1949, protagonista em todas as corridas importantes, menos na prova francesa.

"Bartali é um homem no sentido antigo, clássico, metafísico, de palavra. Levanta a cabeça apenas para olhar o céu. Fausto Coppi, pelo contrário, é um mecânico. Acredita apenas no motor que lhe confiaram, ou seja, no seu corpo". As palavras de Curzio Malaparte, jornalista, cronista e novelista italiano, foram o prenúncio do que seria a Volta à França de 1949: um embate antagónico entre gigantes do ciclismo.

"Inimigos" circunstanciais, os dois recusam repetidamente a presença do outro na selecção nacional, deixando o seleccionador Alfredo Binda em permanente dilema. Um acordo tácito parecia impossível. Mas o perseverante Binda não desiste. Nos bastidores fala com os dois, sensibiliza-os. No último momento, consegue um acordo de cavalheiros entre ambos para que representassem a Itália no Tour. Duas estrelas unidas sob a mesma bandeira, sem equipas, sem agressões declaradas.

As primeiras etapas não são bondosas com Coppi. O jovem cai, enfrenta avarias e perde preciosos lugares e minutos na classificação geral. Na quinta jornada, uma ligação entre Rouen e San Malo, a frágil coligação alcançada por Binda está ameaçada. O irreverente Coppi, cansado de tantos azares, salta do pelotão na companhia do primeiro líder, o francês Jacques Marinelli. A fuga ganha contornos preocupantes. Mas o azar preparava-se, outra vez, para atacar. Marinelli cai e arrasta o italiano consigo. Os dois levantam-se rapidamente, mas a bicicleta do vencedor do Giro está danificada. É necessário mudar de máquina.

Procura o carro da equipa, nem sinal. Onde estava Binda? No pelotão. Enquanto espera, vê os líderes passar. Quando finalmente o vê, já o desejo de lutar desapareceu. Termina a etapa num grupo a mais de 18 minutos da fuga e 13 minutos atrás de Bartali. Coppi quer abandonar o Tour, insatisfeito por não ter o mesmo tratamento que o seu rival. Binda convence-o de que, com os Pirenéus e os Alpes para atravessar, ainda nada está perdido.

Na sétima etapa, um contra-relógio de 92km, "Il Campionissimo" recupera. Ganha 4m13s ao rival, um tempo insuficiente para a geral, mas determinante para o moral. Quatro dias depois, ainda está a 30 minutos do primeiro classificado. Olha para o mapa e encara com entusiasmo o temível percurso entre Pau e Luchon, que propõe as subidas de Aspin, Soulor, Tourmalet, Aubisque e Peyresoude. Foge com os trepadores Jean Robic e Lucien Lazarides, ganhando uma vantagem de quatro minutos que lhe permite sonhar com o triunfo. Ataca e fura. Mudança rápida de roda e o dia está salvo. Recupera o tempo perdido e termina a 57s de Robic. Quando o Tour ruma aos Alpes, já só está a 14m46s do líder.

Na primeira etapa alpina, que inclui a ascensão ao temível Izoard, Bartali foge. A ligação entre Cannes e Briancon é a mesma que dominou em 1938 e 1948 para vencer a Volta à França. O seu arqui-rival segue-o. No início da subida, Coppi "fura" e "Il Pio" espera. Um pouco mais acima, Bartali "fura". O gesto de companheirismo inverte-se. Ali, naquele momento, forja-se o destino: "Vamos acabar juntos. Deixa-me ganhar a etapa, amanhã ganharás o Tour", diz Bartali.

Os dois cortam juntos a meta, com 20m de vantagem sobre o anterior líder, Magni. O mais velho ganha e veste a amarela, o mais novo sobe a segundo, a 1m22s do colega.

O duelo continua no dia seguinte, entre Briançon e Aosta. As duas estrelas italianas fogem do pelotão quando a corrida entra em Itália. Bartali tem um furo e Coppi espera pacientemente. Quilómetros mais à frente, a descer, o primeiro cai. A queda, aparatosa, deixa marcas. O companheiro de fuga aguarda mais uma vez. Enquanto os segundos passam, a ordem chega pela voz de Binda. "Deixa o Coppi correr em solitário". Imediatamente, Coppi parte. Quando atravessa a meta, Bartali repara que o cronómetro denuncia um atraso de cinco minutos para o outro italiano. A promessa assume o primeiro lugar, com dez minutos de vantagem para todos os outros. Restava um momento decisivo entre Aosta e Paris.

Coppi é magnânimo no contra-relógio. Bate Bartali por 7m02s. A vitória na Grande Boucle era sua. Depois de quase abandonar na quinta etapa, a estrela italiana entra em Paris de amarelo vestido, tornando-se o primeiro ciclista a ganhar o Giro e o Tour no mesmo ano.

 
 

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