Bill Morrison, a luz dos velhos filmes

In Focus apresenta uma obra dedicada ao trabalho com found footage deste cineasta americano, quase um género no cinema "experimental

O americano Bill Morrison tem uma obra inteiramente dedicada ao trabalho com found footage, algo que hoje é quase um género, ou subgénero, dentro do universo do cinema dito "experimental". Nascido em 1965 em Chicago, mas baseado em Nova Iorque, Morrison, antigo aluno de Robert Breer, foi o nome escolhido pela edição deste ano do Festival Internacional de Curtas de Vila do Conde para protagonizar a secção retrospectiva, In Focus, com a apresentação de vários dos seus filmes, cobrindo um período de cerca de dez anos (1996-2007).

O trabalho de Morrison, claro, associa-se intimamente a um dos temas do festival deste ano, essa "celebração" do fim da era da película que é o mote da exposição Film, que durante as próximas semanas está patente em dois espaços de Vila do Conde. Dois dos filmes exibidos na sessão de quarta-feira à noite, em presença de Morrison, também são visíveis, em loop, na exposição.

Túnel hipnótico

Um deles, Outerborough, é uma perolazinha. Pega num filme de 1899, feito por um operador da American Mutoscope & Biograph (uma espécie de equivalente americano dos operadores que, na Europa, trabalhavam para os irmãos Lumière), com a câmara montada no lugar do condutor de um eléctrico que atravessa a ponte de Brooklyn a caminho de Manhattan. Só por si, é um "documento" espantoso.

Morrison faz dele uma "experiência" perceptiva, duplicando a imagem e espelhando-a (física e temporalmente), para dois movimentos em sentido contrário a coexistirem no espaço de um ecrã com as dimensões do scope; os planos são repetidos várias vezes, progressivamente acelerados, até que nada fique senão uma espécie de "pasta" visual, um "túnel" a que só faltam as cores para ser psicadélico (mas não deixa de lembrar a trip do astronauta de 2001-Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick). O efeito hipnótico é garantido, e não por acaso a produtora que Morrison fundou para fazer os seus filmes levou como nome Hypnotic Pictures... Efeito intensificado pela associação com a música, que acaba por ser, na verdadeira acepção da palavra, a "pauta" que estrutura os ritmos e os movimentos da montagem (Bill Frisell, Steve Reich, Gavin Bryars, Gorecki, entre vários outros).

Do figurativo ao abstracto

Morrison também gosta de trabalhar os efeitos do tempo sobre a película, e em vários filmes, como Light is Calling ou The Mesmerist, a degradação (as célebres "manchas do nitrato") de uma cópia ou de um negativo antigo é um dado essencial - como se a química tivesse vindo transformar o que era "figurativo" em "abstracto". Noutras vezes, como em The Film of Her, a questão patrimonial tem um enfoque histórico quase documental: The Film of Her ouve (em off) o funcionário da Library of Congress (cujo sector de cinema é o mais parecido que na América há com uma cinemateca estatal) que nos anos 40 encontrou e identificou a vasta colecção de paperprints (filmes reproduzidos em papel, fotograma a fotograma, como um scanner artesanal) que permitiu reconstituir um lote imenso de filmes dos primórdios americanos (inclusive muitos Griffiths curtos). Com um rosebud: o tal funcionário estava ansioso por encontrar um filme erótico que tinha visto em criança e de que nunca mais tinha encontrado rasto.

Hoje, sexta-feira, às 21.45, tem lugar a segunda sessão com os filmes de Morrison. Entre outros, vamos poder ver aquele que é apontado com a sua obra-prima, Decasia, construído também com imagens de arquivo degradadas. Errol Morris, o documentarista americano, não poupou palavras: "Este talvez seja o maior filme alguma vez feito". Se isto não espicaça a curiosidade...

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