Imprensa internacional: Cavaco, o "agente silencioso", e o nervosismo da Europa

Jornais europeus sublinham recusa do Presidente da República em convocar eleições antecipadas, bem como o pedido feito aos principais partidos para que se unam em torno de um "compromisso patrótico". Na sua maioria, entendem que Cavaco continua a apoiar a coligação PSD/CDS.

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Imagem do site do El País DR

O diário espanhol El País começa por descrever Cavaco Silva como “um agente activo embora silencioso na crise política que o país tem vivido e na sua solução”. Sobre o discurso de cerca de 20 minutos transmitido na televisão, destaca que o Presidente não considera “oportuno” a realização de eleições antecipadas como pediram os partidos da oposição. Lembrando que Cavaco Silva pode dissolver o Parlamento – mas preferiu não o fazer, pelo menos para já –, sublinha que este deixou claro que a única forma de garantir a estabilidade de que o país necessita é “alcançar um compromisso de salvação nacional” de médio prazo entre os partidos no Governo, PSD e CDS, e o maior partido da oposição, PS.

O jornal espanhol titula que “O Presidente português pede um ‘compromisso de salvação nacional’”, mas antevê que este “será difícil de alcançar” tendo em conta a resposta dos socialistas, que recusam participar no Governo sem que haja primeiro eleições. “Aparentemente, as pontes estão cortadas”, observa o diário na sua edição online, onde a notícia não tem grande destaque.

Também o El Mundo sublinha que Cavaco Silva “pôs um prazo ao actual Governo de coligação conservadora” até Junho de 2014, data em que está prevista a saída da troika de Portugal. O diário espanhol interpreta a proposta de “compromisso de salvação nacional” feita por Cavaco Silva como um pedido aos sociais-democratas, centristas e socialistas que “deixem os seus interesses partidários de lado e assumam um ‘compromisso patriótico’ para cumprir os compromissos assumidos por Portugal e permitir o regresso aos mercados”.

O jornal considera que Cavaco “deu a sua aprovação a esta solução política mas deixou claro que o actual Governo continua porque realizar eleições antecipadas seria mais prejudicial” para o país. Isto porque, como explicou Cavaco Silva, se houvesse eleições em Setembro o orçamento para 2014 não entraria em vigor antes de Março do próximo ano, o que seria insustentável perante a actual conjuntura económica.

Europa "nervosa" com a crise política portuguesa
Em França, o Le Monde destaca na sua edição online o apoio dado por Cavaco Silva à coligação “para pôr fim à grave crise política que destabilizou o Governo e inquietou os parceiros europeus” de Portugal. O diário relembra os episódios que levaram a essa crise: a demissão de Portas, que “destabilizou o Governo e suscitou receios na Europa de que Portugal siga um caminho semelhante ao da Grécia”. Portas “bateu com a porta”, escreve o Le Monde, em desacordo com a nomeação de Maria Luís Albuquerque para substituir Vitor Gaspar, “o grande arquitecto do rigor”, no Ministério das Finanças.

A revista alemã Der Spiegel também não deixou passar em branco o discurso do Presidente da República português. Diz, em título, que Cavaco “apela aos partidos para a unidade”. E escreve, logo no início da notícia, que “a crise do Governo em Portugal está a deixar a Europa nervosa”. Na sua edição online, nota ainda que Cavaco Silva rejeitou convocar eleições antecipadas porque estas poderiam enfraquecer a confiança no país e comprometer os progressos conseguidos ao longo do programa de ajustamento.

No site da BBC, o discurso de Cavaco não merece destaque de primeira página mas é a segunda notícia mais importante relativa à Europa – a seguir à demissão do primeiro-ministro do Luxemburgo, Jean-Claude Juncker. Com o título “Presidente de Portugal Cavaco Silva rejeita eleições antecipadas”, a cadeia televisiva britância escreve que Cavaco “aprovou uma remodelação da coligação”, citando o discurso do Presidente. “O actual Governo tem toda a autoridade para exercer as suas funções”, disse Cavaco.

Relembrando que Portugal “mergulhou na crise política quando os ministros das Finanças e dos Negócios Estrangeiros se demitiram na semana passada”, a BBC observa que Cavaco Silva pediu aos principais partidos que cheguem a um compromisso para evitar que o país seja submetido a um segundo resgate internacional.

A cadeia britânica salienta que Cavaco instou os partidos da coligação a “porem de lado as suas diferenças e a chegarem a um acordo alargado com a oposição socialista” para a realização de eleições apenas após a saída da troika. E lembra os números que espelham a crise portuguesa: o do desemprego, que está nos 17,5%, com “milhares de licenciados a procurar trabalho no estrangeiro”, e a contracção da economia em 2,3% estimada para este ano.

Silêncio de Cavaco sobre remodelação gera dúvidas
Na imprensa económica, o Financial Times sublinha que o Presidente português pediu um acordo de “salvação nacional” entre a coligação e o principal partido da oposição até à realização de eleições antecipadas em Junho de 2014. “O apelo de Aníbal Cavaco Silva a um compromisso patriótico para um acordo entre os partidos destina-se a garantir a estabilidade após uma crise do governo desencadeada pela demissão de dois ministros. Mas os analistas avisam que isso [o acordo] pode causar grande incerteza”, escreve o jornal.

Segundo o Financial Times, esperava-se de Cavaco Silva uma aprovação da remodelação proposta pelo primeiro-ministro Passos Coelho, numa tentativa de evitar eleições antecipadas e “curar” a ferida aberta entre os dois partidos da coligação. “Em vez disso, pediu aos dois partidos no Governo e aos socialistas de centro-esquerda (PS), o maior partido da oposição, que elaborem um ‘acordo de médio prazo’ para garantir ‘a governabilidade do país, a sustentabilidade da dívida pública e o controlo das contas externas’”, escreve o económico. Sublinha ainda que embora tenha recusado convocar eleições antecipadas, deixou claro que estas vão realizar-se em Junho de 2014, um ano antes do previsto.

O jornal nota que apesar de Cavaco Silva ter dito que o Governo de Passos Coelho e Paulo Portas continua com plenos poderes, os comentadores políticos acreditam que o silêncio do Presidente sobre a proposta de remodelação apresentada pelo primeiro-ministro foi um sinal de aprovação, e não o contrário.