ICOM e ICOMOS condenam projectos imobiliários para hospitais de Lisboa

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O Hospital de São José é um dos que deverá desaparecer ana ramalho

Organizações de defesa do património dizem que a história da Colina de Santana, em Lisboa, está em risco de ser "amputada"

As direcções nacionais do Conselho Internacional dos Museus (ICOM) e do Conselho Internacional dos Monumentos e Sítios (ICOMOS) consideram que os projectos de loteamento para a Colina de Santana, em Lisboa, vão "amputar" a história dos hospitais ali existentes, "limitando-se a isolar alguns elementos patrimoniais, destruindo a coerência e o sentido para a cidade deste importante conjunto".

A Estamo, uma imobiliária de capitais exclusivamente públicos, submeteu à apreciação da Câmara de Lisboa pedidos de informação prévia sobre a viabilidade da realização de operações de loteamento para os terrenos dos hospitais de Santa Marta, Capuchos, São José e Miguel Bombarda. No conjunto, prevê-se a criação, naqueles espaços, de 640 fogos de habitação, dois hotéis, áreas comerciais e de serviços e equipamentos públicos não especificados.

"Os projectos agora sob discussão colocam em causa não só a estrutura conventual que a partir do século XVI marcou esta zona da cidade, como, e sobretudo, o legado da história da medicina e da saúde da Colina de Sant"Ana", afirmam os presidentes do ICOM-Portugal, Luís Raposo, e do ICOMOS-Portugal, Ana Paula Amendoeira. Num comunicado conjunto, acrescenta-se que a sua concretização representará "a repetição de um erro urbanístico recorrente: o de se retirar emprego e serviços de zonas carenciadas, para oferecer ainda mais habitações de luxo em bairros onde abundam excepcionais edifícios habitacionais antigos e degradados à espera de reabilitação".

Luís Raposo e Ana Paula Amendoeira repudiam aquilo que consideram ser "o apagar da memória da Colina de Sant"Ana", lamentando que vá ser "destruído o maior e mais importante conjunto de património integrado da medicina e saúde do nosso país". O arqueólogo e a historiadora expressam ainda a sua preocupação com o "destino previsto para o património edificado, conventual, da medicina e saúde, bem como as suas vastas colecções de instrumentos científicos, ceras anatómicas e equipamento hospitalar histórico, arquivos e bibliotecas" existente naqueles hospitais.

Também o Fórum Cidadania Lisboa faz vários reparos aos projectos da Estamo - que contam com o apoio de princípio da Câmara de Lisboa -, nomeadamente pelo facto de eles restringirem a protecção e salvaguarda do património "aos edifícios classificados" existentes nos recintos hospitalares.

Nos casos de São José e Capuchos, o movimento de cidadãos condena aquilo que diz ser "a obstinada aposta da câmara na promoção de uma construção nova "à la" Expo"98". As maiores críticas vão para o projecto do Miguel Bombarda, que é classificado como "atentatório do Património e da memória colectiva", enquanto o de Santa Marta é globalmente elogiado.