Oposição laica do Egipto rejeita plano do Presidente interino

Depois da Irmandade Muçulmana e do movimento que apelou às grandes manifestações anti-Morsi, também a Frente de Salvação Nacional recusa a declaração constitucional. Situação continua volátil.

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Opositores de Mohamed Morsi durante as gigantescas manifestações da semana passada GIANLUIGI GUERCIA/afp

A principal coligação da oposição laica no Egipto, que apoiou o afastamento do Presidente islamista Mohamed Morsi pelo Exército, declarou-se contra a declaração constitucional que dá poderes alargados ao chefe de Estado interino, Adly al-Mansour, e define um calendário eleitoral.

"A Frente de Salvação Nacional anuncia a sua recusa da declaração constitucional", indica um comunicado divulgado na noite de terça-feira. Esta coligação quer mudanças mais vastas do que as anunciadas pelo Presidente interino e uma consulta mais alargada sobre um documento que considera vital para o futuro do país.

A coligação laica – que era liderada pelo Prémio Nobel da Paz Mohamed ElBaradei até à sua nomeação para vice-chefe do Governo e ministro dos Negócios Estrangeiros – disse não ter sido consultada sobre o documento, divulgado na segunda-feira à noite.

A declaração constitucional tinha já sido rejeitada pela Irmandade Muçulmana, de Morsi, e pelo movimento Tamarod (rebelião), que liderou a contestação a Morsi.

Issam el-Erian, vice-presidente do braço político da Irmandade, o Partido da Liberdade e da Justiça, denunciou "o decreto constitucional escrito por um homem nomeado pelos golpistas" como um "retrocesso para o país". O Tamarod lamentou não ter sido consultado e criticou a declaração constitucional: "É impossível aceitá-la porque prepara uma nova ditadura", declarou um dos seus líderes. Manifestou, no entanto, disponibilidade para ajudar a "corrigi-la".

A declaração prevê que seja nomeado um comité constitucional no prazo de 15 dias, que terá dois meses para apresentar ao Presidente interino propostas de revisão da Constituição, suspensa na semana passada, após o afastamento de Morsi pelo Exército.

Adly al-Mansour deverá depois submeter as propostas de alteração a referendo, no prazo de um mês. Após a consulta popular deverão ser organizadas eleições legislativas no prazo de dois meses.  Se o calendário fosse aceite e cumprido, as legislativas e presidenciais poderiam realizar-se até Janeiro de 2014.

Irmandade Muçulmana rejeita convite para entrar no Governo
Na terça-feira, o Presidente interino do Egipto nomeou um primeiro-ministro – Hazem El-Beblawi, um economista de 76 anos, que foi ministro das Finanças em 2012 e é considerado politicamente liberal. A sua primeira escolha, Mohamed ElBaradei, será vice-chefe do governo.

Hazem El-Beblawi anunciara na noite de sexta-feira, segundo a agência Mena, que iria oferecer cargos no Governo à Irmandade Muçulmana. "Algumas pastas do Governo serão propostas ao Partido da Liberdade e da Justiça", disse o seu porta-voz, Ahmed al-Muslimani.

Como era previsível, já esta quarta-feira de manhã, a Irmandade Muçulmana rejeitou a proposta. "Não pactuamos com golpistas. Rejeitamos tudo o que venha deste golpe", disse à AFP Tareq al-Morsi.

Na terça-feira, o general Abdel-Fattah al-Sissi, chefe das Forças Armadas e homem forte da acção que levou ao afastamento de Morsi, lançou através da televisão estatal uma mensagem contra qualquer "perturbação ou bloqueio no delicado e complexo" processo de transição. "O futuro da nação é demasiado importante e sagrado para manobras de impedimento sejam quais forem as justificações."

O Egipto voltou a estar em convulsão desde há mais de uma semana. Na sequência de gigantescas manifestações contra Morsi, motivadas por acusações de deriva islamista, o Exército afastou o Presidente eleito no ano passado. A violência continuou e na madrugada de segunda-feira 55 islamistas e um soldado foram mortos.