Hospitais da Colina de Santana dão lugar a hotéis, habitação e comércio

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Em São José só ficará o edifício principal. O resto serão prédios novos (a branco na imagem do projecto)

A Estrutura Consultiva da Carta Municipal do Património critica algumas das demolições previstas no Hospital de São José e o impacto que os oito edifícios a construir no terreno terão na paisagem

Os hospitais de Santa Marta, Capuchos, São José e Miguel Bombarda, localizados na Colina de Santana, em Lisboa, vão ser reconvertidos, dando lugar a um total de 640 fogos, dois hotéis, áreas comerciais e de serviços, equipamentos e um parque de estacionamento subterrâneo com mais de 300 lugares. Os projectos de loteamento, que vão ser apresentados amanhã na sede da Ordem dos Arquitectos, estão em consulta pública até sexta-feira.

Os pedidos de informação prévia sobre a viabilidade da realização dessas operações de loteamento foram submetidos à apreciação da Câmara de Lisboa pela Estamo, a imobiliária de capitais exclusivamente públicos que é proprietária dos imóveis e terrenos em causa. Dos quatro hospitais apenas o Miguel Bombarda foi já desactivado, aguardando os restantes pela construção de um nova unidade hospitalar na zona de Chelas.

Na informação relativa ao Hospital dos Capuchos, Inês Lobo, que também desenvolveu para a Estamo um documento intitulado "Estudo Urbano para a Colina de Santana", explica que aquilo que se ambiciona fazer nesta zona da cidade é uma "operação global" que promova a sua "reconversão funcional", "introduzindo novos modos de habitar este território". A arquitecta acrescenta que com as operações previstas se conseguirá "converter as áreas públicas de acesso condicionado em espaços públicos" e "abrir à cidade" os antigos conventos entretanto transformados em hospitais.

No caso dos Capuchos, propõe-se a construção de cinco blocos, com um total de 14 edifícios, cuja altura máxima será de seis pisos acima do solo. Além de um total de 126 fogos haverá áreas comerciais e "um silo automóvel completamente enterrado" com cinco pisos e 309 lugares. A igreja e o Convento dos Capuchos serão "cedidos para o domínio público, para a instalação de equipamentos de uso colectivo de programa a definir em fase posterior". Um terceiro equipamento, privado, deverá nascer no Palácio Mello (um dos edifícios do hospital), que vai ser ampliado.

A arquitecta propõe a "demolição integral" de dois elementos identificados na Carta Municipal do Património: um pavilhão do hospital e três edifícios onde funcionava uma escola de enfermagem. A Estrutura Consultiva Residente da Carta Municipal do Património, formada por técnicos da autarquia, já manifestou reservas quanto a essa intenção, lembrando que a "recuperabilidade" desses bens "foi verificada em 2011 em mais do que uma visita ao local", pelo que a demolição, sublinha, "só pode ser aceite se considerada de relevante interesse urbanístico em plano de urbanização ou de pormenor ou em unidade de execução", como estipula o Plano Director Municipal.

No caso do Hospital de São José, a referida estrutura consultiva foi mais longe e defendeu a manutenção de vários edifícios, "com algum interesse para o entendimento da evolução arquitectónica e urbanística do hospital", cuja demolição se prevê no estudo da arquitecta Teresa Nunes da Ponte. Em causa estão o edifício do Instituto de Medicina Legal, uma construção dos anos 20 do século XX (o edifício de anatomia patológica) e um conjunto de edificações de carácter industrial.

A Estrutura Consultiva Residente da Carta Municipal do Património fez outros reparos ao projecto. "Crê-se que o monolitismo das bandas edificadas que se projectam, extensas e morfologicamente homogéneas, seja contraproducente na imagem de uma encosta caracterizada pela diversidade e fragmentação do edificado", dizem os técnicos municipais, acrescentando que isso terá "impacto na paisagem, sobretudo quando a colina é observada a partir do Castelo, da Graça ou da Senhora do Monte".

O projecto para São José prevê a construção de oito edifícios, com um máximo de 6,5 pisos acima do solo, com 232 fogos. Haverá também áreas de comércio e serviços, admitindo-se, diz-se no pedido de informação prévia, que o edifício do antigo Convento de Santo Antão-o-Novo (principal edifício do hospital) seja cedido à autarquia. O pedido de informação prévia menciona ainda a criação de três elevadores para fazer a ligação da Colina de Santana a diferentes pontos da envolvente.

Para o Hospital de Santa Marta, João Favila Menezes propõe a construção de 90 fogos, de áreas comerciais e de um hotel. Sobre este último equipamento, o arquitecto defende que a sua instalação nos edifícios que outrora compuseram o Convento de Santa Marta irá torná-los "privados mas de usufruto público, permitindo às populações o desfrutar do património". Prevê-se ainda a criação de um novo espaço verde público no "antigo horto e pomar da antiga cerca", para o qual se sugere o nome Jardim Egas Moniz.

Por fim, para o Hospital Miguel Bombarda, que fechou as portas no Verão de 2011, o arquitecto Belém Lima projectou seis edifícios de habitação (num total de 192 fogos), comércio e serviços e um edifício com a valência de hotel. Este projecto tem gerado alguma contestação, nomeadamente por prever a demolição de vários edifícios, considerados pela Estamo como "de relevância menor como arquitectura", "incompatíveis com o traçado viário desejável e amável" e "contraditórios, na sua implantação disseminada, com a desejável reconstituição de uma maioria de solo livre e/ou verde".

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