Papa foi a Lampedusa denunciar a indiferença pela morte de imigrantes

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Francisco falou aos imigrantes como se fosse um deles: "Fugimos por motivos políticos e económicos" Alessandra Tarantino/Poo/

Francisco fez a primeira visita pastoral à ilha do Mediterrâneo porque tinha um espinho no coração. Pediu perdão. "Habituámo-nos ao sofrimento dos outros. Não nos interessa", disse para toda a Europa

O Papa Francisco usou ontem a cor roxa da penitência para chorar os "mortos esquecidos" de Lampedusa. "Habituámo-nos ao sofrimento dos outros. Não nos incomoda. Não nos interessa. Não é um problema nosso", disse na homilia emocional que fez no porto italiano aonde chegam os imigrantes do Norte de África que querem chegar à Europa.

Estava o avião papal a aterrar na ilha italiana e chegava a Lampedusa mais uma embarcação. Partira da Eritreia com 160 pessoas a bordo e chegaram todos. Desde o início do ano morreram 40 nas viagens que transportaram seis mil pessoas - em 2012 morreram 200.

A visita a Lampedusa foi a primeira missão pastoral do Papa Francisco desde que foi eleito, em Março. Escolheu este destino porque andava com um "espinho cravado no coração" desde que ouvira nas notícias que mais uma mão-cheia de imigrantes tinham morrido no mar. O sofrimento deles, disse, andava para a frente e para trás na sua cabeça e pô-lo a pensar na "globalização da indiferença".

Por isso, esta saída do Vaticano foi cuidadosamente planeada para deixar lastro, para incomodar e emocionar. O Papa Francisco chegou ao porto numa embarcação que já socorreu 30 mil imigrantes. A seguir, passou para uma segunda embarcação - uma que naufragou e há ali nesse "cemitério dos náufragos" um memorial aos mortos - que usou como altar para dizer a missa. O Papa, cujos avós foram imigrantes e partiram de barco da Itália rumo à Argentina, lançou uma coroa de crisântemos brancos e amarelos (as cores do Vaticano) ao mar antes de se recolher em silêncio. Finalmente, saudou a multidão e os barcos de pesca ao largo fizeram ressoar as sirenes em sinal de luto, segundo relatou a AFP. No cais esperava-o uma faixa a dizer "Bem-vindo entre os mais desfavorecidos".

Muitos dos seis mil habitantes da ilha, assim como muitos imigrantes, ouviram-no agradecer a Lampedusa por acolher os imigrantes e criticar quem faz de conta que eles não existem. "Vocês têm a coragem de acolher aqueles que procuram uma vida melhor". Chamou-lhes "exemplo para o mundo".

Despertar de consciências

Francisco apelou a um despertar das consciências para contrariar a "indiferença" relativamente aos imigrantes. "Perdemos o sentido da responsabilidade fraterna e esquecemo-nos de como chorar os mortos no mar". "Ninguém chora estes mortos", disse, criticando também os traficantes, que "exploram a pobreza dos outros", fazendo-se pagar para os transportar ilegalmente e sem condições de segurança de países do Médio Oriente e do Norte de África.

A ilha italiana do Mediterrâneo, entre a Sicília e a costa da Tunísia e da Líbia, é uma das principais portas de entrada para a União Europeia, juntamente com a fronteira entre a Grécia e a Turquia.

Desde Janeiro, quatro mil imigrantes chegaram a Lampedusa, um número três vezes maior do que no ano passado; 2011 foi o ano em que estes canais mais foram utilizados devido ao movimento Primavera Árabe e perto de 50 mil imigrantes e refugiados desembarcaram em Lampedusa, metade dos quais vindos da Líbia e da Tunísia, cuja costa fica a pouco mais de cem quilómetros da ilha italiana. Lampedusa chegou a albergar entre 20 mil e 30 mil imigrantes e refugiados, o que motivou uma crise (nunca solucionada) na União Europeia, onde alguns países (a França foi o primeiro) declararam que iriam barrar a entrada desta massa no seu território, devolvendo-os a Itália.

"Oremos pelos que hoje não estão aqui", disse o Papa ao pequeno grupo de imigrantes acabados de chegar. Falou como se fosse um deles: "Fugimos dos nossos países por motivos políticos e económicos. Pedimos a ajuda de Deus depois dos nossos longos sofrimentos".

A escolha de Lampedusa para a primeira deslocação oficial fora do Vaticano é simbólica para um Papa que colocou os pobres e os excluídos no centro do seu pontificado e lançou um apelo à Igreja para que regresse à sua missão de os servir, nota a Reuters, acrescentando que esta viagem coincide com o início do Verão, quando se intensificam as travessias.

O Papa, que excluiu os políticos locais da sua visita, terminou a visita a Lampedusa pedindo perdão - o primeiro do seu pontificado - aos "irmãos e irmãs" que sofrem com a indiferença.