Um filme a rodar dentro de uma torre que é uma rua vertical no Porto

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Sandra Salomé interpreta Maria, mulher que tem o marido desempregado e que ganha a vida a lavar roupa para fora. O escritor Valter Hugo Mãe (sentado à mesa, na foto) inspirou-se no filme Ladrões de Bicicletas nelson d"aires/Kameraphoto

Com argumento de Valter Hugo Mãe e realização de Luís Vieira Campos, Bicicleta tem estado a ser filmado no Aleixo, um bairro portuense estigmatizado

Silêncio. Maria Rosa Machado não pode ligar o televisor da sala. O televisor é muitas vezes a única companhia desta mulher de 88 anos - "Pode pôr 22? Gostava de ter 22 e de saber o que sei hoje." A casa encheu-se de gente. Estão a rodar um filme, agora mesmo, lá dentro, no quarto dela.

António (Jorge Loureiro) está sentado na beira da cama, uma cama de casal com um crucifixo por cima da cabeceira. Maria (Sandra Salomé) está de pé, à janela, no quarto andar da terceira torre do Aleixo, bairro que o presidente da Câmara do Porto decidiu apagar da paisagem da cidade.

- Eu vou trabalhar, Maria, já estive a pensar. Falo com o homem e digo-lhe que faço as entregas numa corrida. Só para começar, depois, com o primeiro dinheiro, compro uma bicicleta e já descanso.

- Numa corrida?

- Vou a pé, Maria, com estas escadas todas, cima e baixo, tenho pernas de atleta olímpico.

O realizador Luís Vieira Campos, fundador da Filmes Liberdade, propôs ao escritor Valter Hugo Mãe que se inspirasse no Ladrões de Bicicletas, realizado por Vittorio de Sica nos anos 1940, para escrever uma história que se passasse nos dias que correm no Aleixo. E explicou-lhe que queria fazer dos moradores actores.

Houve um casting no rés-do-chão da quinta torre. Os papéis mais exigentes seriam interpretados por profissionais e os outros por moradores. Isso foi em Fevereiro de 2009. Entretanto, a quinta e a quarta torre foram abaixo e os seus moradores transferidos, incluindo alguns dos escolhidos, o que obrigou a relocalizar e a substituir.

Ao longo destes anos, imagens foram sendo captadas - da torre, do bairro, da sua mutação. O financiamento tardou. Só em Junho começaram a rodar as cenas que se desenrolam dentro da torre. Luís escolheu-a por ser "a que tem melhor relação com o rio e com o mar". A relação que se percebe pelas janelas, entre o interior, o espaço da intimidade, e o exterior, a cidade, era algo que lhes interessava.

Bicicleta - co-produção da Filmes Liberdade e Cimbalino Filmes - pretende ficar como memória de um lugar que está a desaparecer. Um pouco como o Aniki-Bóbó, de Manoel de Oliveira, com quem Luís estagiou, é da Ribeira dos anos 1940. Foi de lá, da Ribeira e do Barredo, que saiu quem veio habitar o Aleixo, após o 25 de Abril de 1974. "Muitos querem participar porque querem fazer parte dessa memória colectiva", nota o realizador.

O tráfico de droga não entra nesta história. Os moradores, entende Valter Hugo Mãe, "precisam de ser vistos para lá dessa cortina". "Dá-me a sensação que estas pessoas vivem em crise desde sempre, nunca tiveram um tempo de graça, quanto mais não seja pelo preconceito", diz.

O que se deseja registar é a dignidade de quem, com maior ou menor dificuldade, ali construiu vida, como Maria Rosa, que andou "a servir" enquanto pôde, foi até empregada do avô do cantor Rui Veloso. "A gente tem de ganhar a vida honradamente", comenta ela, sem sair da sua cadeira. "Isto tudo que andam aí a fazer também é trabalhar."

Nas últimas três semanas, a equipa tem andado em três apartamentos e nos espaços comuns da torre, surpreendida com a generosidade de quem ali mora. Maria João Silva é das residentes mais activas: abriu as portas e deu o corpo ao manifesto. Faz de vizinha. "Há um morto e nós estamos ali", revela, a caminho de casa, sem deixar de segurar os sacos com os sumos que fora comprar para os filhos.

O actor Jorge Loureiro está deliciado: "Nós ajudamos os actores não profissionais a interpretar e eles fornecem a sua maneira de estar para nós nos inspirarmos." A actriz Sandra Salomé também está encantada: "Às vezes tem de haver um recuo do nosso trabalho para haver um espaço de naturalidade, mas estou a gostar muito." E Maria João Silva está confiante: "Acho que vai ser uma coisa muito bonita."

A empregada doméstica, de 45 anos, está há muito sem trabalho. Não podia identificar-se mais com o drama retratado no filme. Valter pensou o tolhimento dos gestos que é o desemprego, o desfavorecimento. Os desempregados parecem-lhe remetidos ao esquecimento e o Aleixo "um lugar de arrumar pessoas que o resto da sociedade quer esquecer".

António está desempregado há muito. De súbito, abre-se a possibilidade de trabalhar. "Ele precisa de uma bicicleta", aponta Luís. "Como é que uma coisa que é tão pouco para uns pode ser tanto para outros? Essa é a pergunta que está na base deste filme."

Silêncio. A equipa de filmagens saiu do quarto de Maria Rosa e instalou-se à porta. Maria, a personagem, pausa a bacia no chão e estende a roupa que lava para fora. As cordas cruzam o vão da torre. António está de braços cruzados sobre o muro que protege o patamar do vão do prédio.

- Tu sabes que é tudo o que mais quero, ver-te a trabalhar. Que eu, às vezes, sinto as mãos morrerem como se fossem bichos com falta de ar, mas não as posso tirar de dentro da água. Se pudesses ajudar, se ao menos tivesses esse salário.

- Esses bichos ainda hão-de ferrar em coisas boas, Maria. Ainda havemos de lhes dar outra vida. Banquetes de coisas boas.

A cena repete-se inúmeras vezes, como acontecera com as anteriores. De repente, pára tudo. Primeiro, o som dos motores de água. Depois, música no andar de baixo. Por fim, nomes que se gritam.

A vida complica-se após as 18h. Estão de regresso muitos dos que passam o dia no trabalho ou noutro sítio qualquer e os ruídos tornaram-se insuportáveis. É o preço a pagar pelo uso de cenários naturais. São 13 andares. Em cada um, cinco famílias. "É impossível parar a torre", encolhe-se Luís.

A torre é uma rua vertical. Com frequência, os elevadores estão avariados. "Se o vizinho do 12.º andar descer ao 6.º já fez um percurso de rua", sugere Valter. "Eventualmente vai abdicar de vir cá fora, vai ficar bastado ao corpo do edifício, e isto tem tanto de fantasia como de dramático." Mas sobre isso nada mais contamos.

É quinta-feira, 4 de Julho, a equipa deixa o Aleixo. Haverá filme antes de o bairro ir todo abaixo. Lá para Novembro, Luís acrescentará Bicicleta à sua filmografia: aDeus (2000), Quando Eu Morrer (2006), Dia de Visita (2011).