Invenção portuguesa pode ajudar as cimenteiras a lançar menos CO2

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Na fábrica em Alhandra, a Cimpor já tentou reduzir as emissões de várias formas pedro cunha/arquivo

Cimpor e Instituto Superior Técnico são os dois parceiros num projecto que está a ser patenteado e que pode ser a "solução mágica" capaz de reduzir 35% das pesadas emissões deste sector

Produzir cimento e lançar CO2 para a atmosfera constituem uma dupla inseparável. É por isso que o anúncio recente de uma possível invenção portuguesa que promete reduzir até 35% as emissões das cimenteiras tem suscitado tanto interesse nos últimos dias.

Ninguém sabe exactamente o que é a invenção, a não ser a Cimpor e o Instituto Superior Técnico, que estão a trabalhar nela há um ano e meio. A patente internacional está em fase final de registo em uma centena e meia de países. Só quando este processo estiver concluído é que os pormenores serão divulgados.

Sabe-se apenas que o segredo está no clínquer, o material produzido nos fornos rotativos das cimenteiras e que, com a adição de outros produtos, resulta no cimento final. "Estamos a desenvolver uma família de clínquer com menor incorporação de carbono", afirma a engenheira Sandra Lebreiro, responsável pela área de tecnologia e processo na Cimpor.

Um clínquer com menos carbono é tudo o que as cimenteiras mais desejam. Este material é produzido a partir do calcário extraído das pedreiras. Quando o calcário é submetido às altas temperaturas nos fornos, a primeira reacção que ocorre é a sua descarbonatação. O carbonato de cálcio transforma-se em óxido de cálcio - que é o que interessa no processo - e o carbono é eliminado sob a forma de CO2 pela chaminé. É um processo obrigatório para a fabricação do clínquer, daí que cimento e CO2 sempre andem de mãos dadas.

Cerca de 60% das emissões das cimenteiras vêm daí. Mas, por ora, muito pouco se pode fazer para reduzir as emissões nesta fase do fabricação do cimento. As cimenteiras tem tradicionalmente procurado cortar as emissões de outras formas. Uma delas é fazer um cimento com menos clínquer e mais adições, mas esta opção está sujeita ao que permitem as normas técnicas. "Estamos praticamente no limite", diz Sandra Lebreiro.

Outra forma é a utilização de combustíveis alternativos para o forno, onde a temperatura tem de chegar aos 1500 graus Celsius. A Cimpor já o faz, queimando por exemplo farinhas de animais na sua fábrica de Alhandra. Mas aqui não só também há limites, sobretudo o da disponibilidade de biocombustíveis, como a transição implica investir em modificações tecnológicas.

A invenção vai um passo atrás, centrando-se na produção de clínquer com menos óxido de cálcio, ou seja, com menos necessidade de calcário como matéria-prima, que é onde está o carbono.

Para o fabrico do novo clínquer, a temperatura dos fornos pode ser um pouco mais baixa, e aí também poupa-se em emissões. O resultado final são 20% a 35% menos CO2 no processo.

O Instituto Superior Técnico e a Cimpor conseguiram chegar a um resultado positivo em laboratório, com uma pequena quantidade do novo material a comportar-se como qualquer cimento. A próxima etapa é passar da escala laboratorial para a industrial, uma transição que não se faz da noite para o dia.

A Cimpor não é a única que está a procurar uma solução mágica. Outras grandes cimenteiras já têm patentes registadas com a mesma finalidade. "A maior parte destas inovações implica, porém, alterações profundas na tecnologia de produção do cimento", afirma Rogério Colaço, investigador do Centro de Química Estrutural do IST. "Esta patente, o que permite é produzir um material com menor teor de cálcio, mas mantendo o mesmo tipo de produção industrial", completa. Ou seja, não é preciso fazer grandes adaptações às fábricas.

Este é um atributo de peso, dado que o sector do cimento está a ser particularmente afectado pela crise e pelo seu impacto na construção civil. A produção tem caído, e com ela as receitas.

Mas também têm diminuído as emissões de CO2. O conjunto de todas as cimenteiras do país lançou cerca de 7,1 milhões de toneladas em 2007, segundo dados do Comércio Europeu de Licenças de Emissões. Em 2012, foram apenas 4,4 milhões - uma queda de 38%.

Além disso, o preço do CO2 no mercado europeu de licenças de emissões está tão baixo que desestimula grandes investimentos nas unidades industriais. É mais fácil comprar licenças do que investir em novas tecnologias.

E mesmo a compra de licenças não se aplica às cimenteiras, que até 2012 continuaram a recebê-las de graça como se estivessem a produzir aos níveis de 2007.

Mas a maré de preços baixos do carbono pode reverter, com medidas estruturais que a Comissão Europeia está a estudar para salvar o mercado do CO2 do colapso. E num cenário onde o CO2 de facto conta, as cimenteiras europeias são particularmente vulneráveis à concorrência de empresas de outros países, onde não há normas para as emissões.

"A altura da crise é a altura de investir em inovação", resume o investigador Rogério Colaço.

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