Um país a ruir

O Verão está a gerar um efeito retardante, mas não esconde o essencial: a República de Chipre sente-se desmoronar. "Nós perdemos o futuro. Esse é o maior castigo que nos podiam ter dado"

O marido abre a porta em calções e chinelos. A mulher está no quarto, deitada, numa cama articulada. Tem sombra nos olhos, brilho nos lábios. A enfermeira Barbara Pitsillides traz-lhe uma almofada adequada.

- A náusea já passou? - pergunta.

Não se lembra das náuseas matinais. A memória foge-lhe. Apareceram-lhe metástases no cérebro.

- Estamos a lutar há dez anos. Queremos lutar outros dez anos - diz o marido, olhando-a, silenciosa, a tentar sorrir.

Dedica cada minuto do seu dia a cuidar da mulher com quem se casou há 40 anos. Assusta-o a ideia de cometer algum erro. Dá-lhe segurança a ligação à equipa da Associação de Doentes de Cancro e Amigos. A qualquer altura pode telefonar-lhe a esclarecer uma dúvida, qualquer dúvida. Foi ela que lhe trouxe a cama articulada, a cadeira de rodas, o balão de oxigénio portátil.

Barbara não sabe até quando será possível continuar a levar o hospital a casa de quem tenta fintar um cancro. Não são boas as notícias, como eles vão percebendo através do televisor, pequeno, pousado na cómoda, mesmo ao lado da cama articulada, paralela ao antigo leito conjugal. E a enfermeira não quer criar ansiedade, mas também não quer que ninguém se desleixe.

Os donativos caíram a pique desde que, em Março, o executivo da República de Chipre e a troika - Comissão Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional - negociaram um empréstimo de dez mil milhões de euros que implica a redução do sector bancário: o Banco Popular (Laiki), o segundo maior do país, seria dividido entre "banco mau" e "banco bom"; o "mau" desapareceria; o "bom" seria absorvido pelo Banco de Chipre, o maior; haveria então um corte nos depósitos acima dos 100 mil euros e perdas para accionistas e credores.

A associação tem sempre alguma campanha de recolha de fundos a decorrer. Neste momento, desafia as pessoas a organizarem um chá em memória de um ente levado pelo cancro. "Nunca ficamos com dinheiro", diz a enfermeira, num inglês que tanto remete para a Austrália como para a África do Sul, países onde viveu antes de o marido a desviar para Chipre, a terra dos pais dele. "Mal nos dão dinheiro, devolvemos [em serviços]. Agora, é um problema enorme. Começámos a perder pessoal e quanto mais pessoal perdemos menos pessoas podemos ajudar."

Barbara regressa ao velho carro de serviço, que estacionara em frente à casa do casal. Ainda há uns 20 minutos, estava na sede, um edifício alugado na Rua Photinou Pana, periferia de Nicósia, com Nicolas Philippou, o director-geral da associação. "Está muito difícil", queixara-se ele. "Já cortámos os nossos salários em 20% porque não queremos reduzir os nossos serviços."

Fundada por 22 voluntárias sabedoras do que era viver com cancro, a associação emprega 50 profissionais, incluindo enfermeiros, psicólogos, assistentes sociais, fisioterapeutas. Além de cuidados paliativos ao domicílio, gere um centro de dia, presta apoio psicossocial, faz educação para a saúde, oferece fisioterapia e transporte para tratamentos no Centro de Oncologia.

No ano passado, para apoiar umas cinco mil pessoas, Nicolas geriu um orçamento de 2,4 milhões de euros: 90% oriundo de donativos privados e 10% de comparticipação estatal. "Temos gastos com renda, salários, carros", elucidara. Também gastam muito dinheiro em material. "Normalmente, temos no banco dinheiro para funcionar dois a três meses. Quando o corte aconteceu, tínhamos 170 mil euros no Laiki. Disseram-nos: "Agora têm 100 mil, o resto foi cortado"."

Não houve distinção entre depósitos a prazo e contas correntes. E isso criou falta de liquidez no país.

Só a meio de Abril, Nicolas pôde dar ordem de pagamento de salários. "Decidiram abrir uma excepção para associações sem fins lucrativos. Cortam 30% do montante acima dos 100 mil euros e não o total. Devolveram-nos essa parte do dinheiro em Maio e conseguimos pagar os salários."

Outra incerteza preocupa o gestor alto, de cabelo ralo. Naqueles dois bancos estava grande parte do fundo de providência dos empregados. Em Chipre, onde o subsídio de desemprego dura seis meses, muitas entidades incitam os empregados a descontarem para um fundo comum. Quando saem, recebem o montante que lhes corresponde. É uma espécie de indemnização. "Não sabemos ainda o que acontecerá ao fundo", comenta. "Imagine-se o que é mandar as pessoas embora e nem sequer lhes pagar o que estiveram a poupar este tempo todo."

É um drama em múltiplas empresas, como se percebe, por exemplo, indo ao Sindicato de Trabalhadores Bancários de Chipre (ETYK), na rua Prevezis, parte nova de Nicósia. O fundo providencial era a poupança de Constantinos Hadjimavros, que trabalhava há 13 anos no Laiki. Está assustado. Planeara a sua existência inteira no pressuposto de que tinha emprego para a vida. Sairia do banco aos 60 anos, como mandavam as regras da instituição, receberia a sua quota parte do fundo, pagaria o resto dos seus empréstimos e ainda ficaria com um pé-de-meia para viver até aos 65, a idade da reforma. "Era o sistema."

Os 2600 funcionários foram transferidos para o Banco de Chipre, que já tinha 3600 e tem agora de fechar dependências, reduzir pessoal. Antes de avançar para o despedimento colectivo, está a negociar reformas antecipadas. Só que isso, para Hadjimavros, não é opção: "Os meus empréstimos são muito mais altos do que o dinheiro que receberia. Digamos que tenho 300 mil euros em empréstimos e recebo 100 mil. Fico com 200 mil para pagar, sem trabalho, aos 39 anos, com duas crianças. O que faço? Não há maneira de encontrar emprego agora em Chipre. Se o perdes, tens de emigrar."

A estatística reflecte a dificuldade. A taxa de desemprego passou de 14,5% em Março para 15,60% em Abril.

Barbara conduz pela cidade, a expor irritação com o que vê acontecer. Vai ao Centro de Oncologia, na Avenida Acropoleos, ao pé do Hospital Makarios. Tem de entregar no laboratório de análises uma amostra de sangue recolhida horas antes em casa de um doente.

"Estão a cortar nos serviços públicos", protesta. "Os hospitais têm mais 20% de utentes do que era costume. Muitas pessoas deixaram de poder pagar clínicas privadas. Perante a falta de camas, os serviços despacham-nas para casa mal podem. Antes, as pessoas depressa tiravam tempo para cuidar de um familiar. Hoje, estão apavoradas com a possibilidade de perderem o emprego."

A vida está a mudar em Chipre. E isso nota-se ao andar pela capital, debaixo de um calor intenso.

Muitas portas estão fechadas na Avenida Makarios. Perderam vitalidade aqueles dois quilómetros de escritórios, boutiques de moda, lojas de grandes marcas internacionais, espelho de um sucesso que Chipre ambicionava e acreditava ter. As lojas fecham-se e abrem-se bares e cafés na parte antiga, onde cipriotas e estrangeiros se sentam a saborear café frappé ou iogurte gelado.

Numa esquina da Rua Solonos, na zona pedonal, a que chamam Laiki Geitonia, está Pavlos Pamburides. Ao final do dia, o ortodontista, um charme de barba grisalha apesar dos seus 38 anos, senta-se a conversar com Constantinos Savva, o amigo, sete anos mais novo, que lhe fornece material para fazer próteses dentárias.

A crise domina conversas, força mudança de hábitos. Antes de comprar algo, Pavlos questiona-se: "Será que preciso mesmo disto? Haverá mais barato?" Há minutos entrou num sítio, viu que o café estava a 2,9 euros, saiu e veio sentar-se aqui, onde custa 1,5. "Não vou pagar três euros por um expresso!"

Constantinos até travou o seu plano de vida. Casou-se há oito meses. Estava a começar a procurar terreno para construir casa, quando o crédito secou. "Temos de esperar. A construção está parada. Está bom para comprar. Uma casa pode custar menos 30% do que custava em Janeiro."

Não está a falar de cor. A edição do dia do The Cyprus Daily afiança que as vendas caíram em todos os distritos, incluindo Paphos, que resistia melhor graças ao interesse dos investidores chineses. A quebra, a avaliar pelo registo de propriedade, fora de 52% em Maio, comparando com o igual mês em 2012.

Ainda se lembra de, não há muitos anos, a então namorada obter um empréstimo para comprar carro mesmo estando desempregada. Agora, ela trabalha no município, ele está à frente de uma empresa e pediu ao senhorio para lhes baixar o valor da renda. Em vez de 560 euros, pagam 470.

- Muita gente está a fazer isto - comenta Constantinos, suscitando logo a aprovação do amigo.

- Sim. Estive a falar com um amigo que possui propriedades e tem algumas arrendadas a uma empresa. Informaram-no de que iam fechar. Ele disse-lhes que podiam ficar lá até Setembro sem pagar, a ver se conseguem recuperar. Ele pensa: se vão, não vou conseguir arrendar aquilo tão cedo; se ficam, estou a ajudá-los a sobreviver; se sobreviverem, continuarão a arrendar o meu espaço. E isso é uma coisa que me faz ficar optimista. Acho que muitos cipriotas têm capacidade de dar a volta - responde-lhe Pavlos.

- O meu senhorio é responsável pela psiquiatria no sector público. Quando lhe fui pedir para reduzir a renda, perguntei-lhe como estava o negócio. Ele disse-me que há mais pessoas com melancolia, depressão. Ele falou-me num homem que tinha 400 mil euros no Laiki. Como o corte, 300 mil desapareceram-lhe da conta. Ficou com 100 mil, mas tem empréstimos, negócio, família. Fechou a empresa. Empregava muita gente da família. A família levou-o lá porque ele queria suicidar-se - volta Constantinos.

- Por que é que eu não perdi nada e esse homem perdeu tudo? O primeiro plano [de resgate] era mais justo. Todos os depositantes perdiam um bocadinho. Pensaram que a garantia dos depósitos abaixo de 100 mil euros era o mais importante no mundo. As empresas estão a fechar e as pessoas estão a perder o emprego - diz Pavlos.

Não tinham 100 mil euros em depósitos, mas não se livram da quebra na procura, nem da dificuldade de cobrar a clientes e pagar a fornecedores. Um dos fornecedores de Pavlos é Damantinos, que já negociou com os cinco empregados uma redução salarial de 20%.

Visto daqui, das ruas estreitas do centro histórico, morada de idosos e estrangeiros sobretudo, Chipre é um choque em cadeia. Se formos para a zona industrial, para lá da muralha construída no século XVI, a sensação não se altera, pode mesmo acentuar-se se nos atrevermos a cruzar alguma porta.

O técnico oficial de contas Costas Hadjiconstantinou está à volta de papéis na empresa da mulher. "É um negócio de família", frisa. "Abriu em 1961. Eles importam papel e vendem a outras empresas. São muito conservadores. Não tinham empréstimos. Quando os problemas começaram, os fornecedores estrangeiros começaram a dizer: não podemos fornecer papel a crédito, têm de pagar adiantado."

O grande desafio é evitar a falência. "Tinham 30 empregados: dois reformaram-se, cinco foram despedidos, ficaram 23. Da forma que o negócio está a evoluir, estimo que no final do ano, se a empresa sobreviver - e isso é um grande se -, haja menos de 15 pessoas. Os clientes não têm dinheiro para pagar. Têm dívidas enormes. Como eles não pagam, a empresa não pode pagar aos fornecedores."

Reduzir custos, reduzir custos, reduzir custos. É nisto que pensa. E é para aí que canaliza parte da energia. Pagavam 108 mil euros de renda por ano. Em Março, conseguiram renegociar o contrato para 60 mil. E estão agora a renegociar para 40 mil. "O senhorio percebe que toda a gente tem de ajudar toda a gente. Estamos numa fase em que é muito importante ajudar outros a sobreviver."

Costas está sentado à secretária, num gabinete reservado, arejado. Custa-lhe falar. A voz sai-lhe esganiçada. Foi operado há pouco. Não quer, mesmo assim, deixar de o fazer. Tem muita coisa entalada.

Estudou no Reino Unido. Trabalhou lá dez anos antes de regressar a Chipre, onde ingressou nos quadros de uma empresa internacional de técnicos oficiais de contas. Desde 2010, isto é, desde os seus 60 anos, está reformado, o que não o impede de manter-se na direcção de diversas empresas com negócios na ilha e fora dela. Sente ter uma palavra a dizer sobre o que aconteceu nos últimos 36 anos.

Quando foi estudar, o domínio britânico terminara. Nem Chipre fora anexado pela Grécia, como era vontade de tantos gregos cipriotas, nem dividido, como desejavam tantos turcos cipriotas. A NATO pressionara um compromisso entre Reino Unido, Grécia e Turquia: proclamar a República de Chipre, que seria uma democracia com partilha de poder entre os dois grupos étnicos ou religiosos.

Sem uma identidade nacional, a braços com uma complexa divisão de poderes, o conflito não tardara a estourar. No Verão de 1974, em defesa da união com a Grécia, a Junta Militar de Atenas, auxiliada por cipriotas gregos, protagonizara um golpe. E a Turquia invadira Chipre, alegando estar a defender a ordem constitucional, que salvaguardava os interesses dos cipriotas turcos.

Quando Costas regressou, em 1977, "Chipre era um país muito pobre". Os golpistas tinham sido afastados, mas a Turquia ocupara 36,2% da ilha. Falava-se em milhares de mortos, perto de 200 mil pessoas forçadas a abandonar as suas casas ou isoladas em enclaves, cerca de 70% do potencial produtivo perdido, desemprego nos 30%. "Todos pensavam em formas de reactivar a economia", recorda. "Muitos foram para fora - Estados Unidos, Canadá, Austrália, Inglaterra, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos." Alguns voltavam com dinheiro, com saber, com vontade de fazer vida. "Viu-se, aqui, uma oportunidade de criar um centro de negócios."

Chipre tinha vantagens competitivas. Muita gente estudara fora. Com verões cálidos e invernos suaves, é uma das mais orientais ilhas do Mediterrâneo - perto do Médio Oriente, da costa africana, do continente europeu. Primeiro, vieram negócios libaneses, a fugir à guerra. Depois, ingleses, a aproveitar mão-de-obra a custo reduzido, formada no Reino Unido. Com o colapso da União Soviética, russos.

Multiplicaram-se os serviços de contabilidade, fiscalidade, auditoria, consultadoria, negócios offshore. "Com os bons negócios, vieram os maus", reconhece. Houve um forte impulso com a entrada na União Europeia, em 2004, e "o pior começou com a entrada no euro, em 2008".

Havia muito dinheiro a entrar. "Demasiado", explicara-nos já Sofronis Clerides, professor da Faculdade de Economia da Universidade de Chipre. Ninguém queria ouvir falar no preço do excesso de liquidez. Com o aumento dos fluxos de capital e a diminuição dos prémios de risco, as taxas de juro tinham caído para valores inimagináveis. "Os bancos davam empréstimos a toda a gente", sublinhara.

Não foi só o elevado endividamento de famílias e empresas - "o sector público não estava tão mal como o de outros países europeus, porque a bolha gerava muitos impostos", salientara o professor. Os bancos expandiram-se "demasiado depressa" para lá das fronteiras nacionais. Numa deriva patriótica, compraram dívida grega. Sofreram perdas avultadas com o perdão concedido a esses títulos. "Acabámos neste grande buraco", sintetizara Clerides.

Chipre andou meses a negociar a intervenção externa. Em Novembro, 17 mil milhões era o valor desejado. Era, analisara o professor, cada vez mais claro que a troika não o concederia todo. "Os europeus, sobretudo os alemães, não estavam dispostos a salvar uma banca com fama de máquina de lavar dinheiro sujo. A ideia de usar depósitos começou a ganhar forma." Na madrugada de 16 de Março, decidiu-se que o empréstimo, que seria de 10 mil milhões, implicaria um corte nos depósitos e perdas a credores e accionistas.

Sim, Costas Hadjiconstantinou perdeu muito dinheiro. Em 1977, "o Banco de Chipre era sólido". Decidiu investir em acções. Fê-lo anos a fio. Muitas vezes, a mulher perguntava-lhe: "Porquê investir tanto nesse banco?" "Na velhice, talvez estejas sozinha, quero que tenhas uma vida confortável"", respondia-lhe. "Atendendo a valores de 2010, investi mais de um milhão de euros. Esse investimento foi-se."

Também lá tinha depósitos. Nem diz quanto. Dá por perdido tudo o que lá tinha acima de 100 mil euros, apesar de ter ficado decidido que 37,5% desses depósitos acima de 100 mil euros serão convertidos em acções do Banco de Chipre, 40% continuarão a acumular juros, que serão pagos se a instituição conseguir recuperar, e 22,5% nada. "Receberei acções dessas, mas não acredito que o Banco de Chipre sobreviva."

Não perdeu qualidade de vida, apesar de tudo. "O meu maior problema não é ter perdido o meu dinheiro", diz. "O meu maior problema é que os jovens de Chipre perderam a esperança em Chipre e estão todos a ir para fora. O meu filho estudou Direito no Reino Unido. Fez uma especialização em Direito Fiscal Internacional na Holanda. Foi para Londres trabalhar. Tornou-se técnico oficial de contas. Se tivesse ficado lá, tinha um salário anual de 100 mil euros. Há um ano, veio morar para Chipre. Já lhe cortaram o salário duas vezes e o mais provável é despedirem-no."

Isto não lhe parece Chipre-1974, como tantas vezes ouve dizer. "Em 74, éramos um país muito pobre. Era fácil ir para fora fazer trabalho braçal, ganhar dinheiro e trazer. Em 2013, somos mais educados, mais exigentes. Em 74, muita gente tinha pena de nós e queria ajudar-nos. Em 2013, ninguém quer saber de nós. Em 74, tínhamos uma liderança política forte - Makarios III. Em 2013, os políticos estão sempre a brigar, não se põem de acordo, são uns aldrabões. As pessoas perdem a casa, o emprego e, mais importante do que isso, o futuro. Nós perdemos o futuro. Para mim, esse é o maior castigo que nos podiam ter dado. A União Europeia está a castigar Chipre pelas razões erradas. Os russos estão aqui, mas também estão na Holanda, no Reino Unido, noutros sítios..."

A "linha verde" - a zona tampão que se tornou intransponível em 1974 - ainda atravessa a ilha. Nicósia é uma cidade dividida: de um lado, a República de Chipre; do outro, a República Turca de Chipre do Norte, só reconhecida pela Turquia. A primeira passagem entre uma e outra foi aberta em 2003, do lado de fora da muralha, como um passo em direcção à reunificação.

A barricada, que durante anos simbolizou a ocupação turca, desapareceu em 2008 de Ledra, a mais tradicional rua de comércio da cidade velha. Caminhando o mais possível junto à "linha verde", avistam-se muros, bidões azuis e brancos, dispostos uns sobre os outros, a fazer barreira, sucessivos prédios vazios, ou semivazios, a pedir cuidados urgentes. De repente, o singular café do poeta Stavros Lambrakis.

Abriu este espaço depois de uma temporada a estudar na New School University, em Nova Iorque. Idealizou um lugar onde qualquer um pudesse sentar-se e sentir-se bem-vindo. "Acho que consegui isso." As prostitutas que trabalham numa casa uns metros adiante vêm ali tomar café. "E vêm padres, sem-abrigo, actores, jornalistas, arquitectos... É um sítio único em Chipre."

"Temos estado muito distraídos com os turcos", comenta o rapaz, com um aspecto negligé, sintoma do seu desprendimento. "Criou-se um álibi. Todos faziam o que queriam. Agora, as pessoas percebem que os verdadeiros inimigos estão nos bancos. O bom desta crise é as pessoas perceberem o que se passa. O mau é estarem a sofrer." O medo está entranhado no país. O poeta quase consegue cheirá-lo mesmo aqui, neste café repleto de velharias que nada têm que ver umas com as outras mas que assim dispostas formam um cenário harmonioso. "Ninguém sabe o que vai acontecer, mas há uma sensação geral de que tudo ficará pior. Não há esperança e isto é triste. Se as pessoas perdem a esperança, como é que seguem em frente?"

O poeta gosta de silêncio. Até dissertou sobre a importância do silêncio na poesia. Por isso, por vezes custa-lhe estar ali, dentro da personagem que criou, a ouvir um e outro, a demolir muros entre eles, a construir pontes. Há muitas histórias a pairar nas mesas. Cada um traz as suas e qualquer um se senta com qualquer um.

Atrás de Stavros está um arquitecto com cinco meses de salário em atraso. "A construção está parada. Não há trabalho para eles. Alguns estão a emigrar." Pelas várias mesas circula um jornalista freelance, que trabalha para o canal de notícias Al-Jazira, para o jornal Politis e para o site cyprusnews.eu.

Os tempos não vão bons para os jornalistas, apesar da necessidade informativa. Recua o número de peças pedidas e o montante pago por elas a Ioannis Sotirioa. Para se orientar, o rapaz, baixo, magro, de cabelo rapado, óculos de massa, levanta-se a cada madrugada de sábado e vai vender legumes e frutas frescas ao mercado.

Ioannis cresceu na Grécia, para aonde a família se mudou há muito. O amor por uma rapariga fê-lo aterrar aqui há dois anos. "Não consegues trabalho se ninguém falar por ti", resmunga. "Precisas sempre de recomendações. É uma terra pequena. Toda a gente se conhece. São todos compadres."

Ainda tem muita família aqui. Ao final do dia, o tio Themis Themistoklis senta-se a beber cerveja e a comer fruta, em frente à mesquita Omeriye. O polícia está zangado com o Governo. Ia reformar-se em 2012. Aconselharam-no a esperar até Fevereiro de 2013 para completar 56 anos. Uma nova lei das pensões foi aprovada a 28 de Dezembro e entrou em vigor logo a 1 de Janeiro. "Eu ia ganhar 1620 euros e ganho 1469. São 151 euros 12 meses por ano. Processei o Estado. Estou a perguntar ao Supremo Tribunal por que votaram esta merda desta lei três dias antes do Ano Novo!"

O país está a ruir. Themis ouve isso - a menos que esteja entretido com uma das suas namoradas. "Este é o último Verão feliz dos cipriotas. Até Setembro, há dinheiro extra." Fala no emprego sazonal da indústria turística, no subsídio de desemprego, nas poupanças de pais e avós. "Depois do Verão, os europeus vão ver a fúria cipriota. Algo diferente vai aparecer no Euronews."

Sofronis Clerides também mencionara isso na manhã em que nos recebera, no calor do seu gabinete, na Faculdade de Economia, no moderno campus da Universidade de Chipre: "As pessoas não vão muito para as ruas protestar agora. Será interessante observar como reagirão no Inverno."

O ar condicionado desligado já remetia para a austeridade. Os professores, como os outros funcionários públicos, sofreram cortes salariais. Há menos fundos para contratar assistentes, desenvolver projectos de investigação científica. "O orçamento da biblioteca foi cortado num terço", exemplificara.

E agora? Como é que se evita tantas previsões negativas? O Presidente da República, Nicos Anastasiades, disse à Euronews: "Há muitas coisas que o FMI não teve em conta. Por exemplo, não considerou a exploração das nossas riquezas naturais, inclusive quando ainda estava em discussão a tentativa de evitar a solução bancária. Acredito no potencial do gás natural, na cooperação com Israel, no fortalecimento das relações e na exploração conjunta de outros sectores importantes."

Tudo isso vai tardar. "Para já, há que recuperar a confiança no sistema bancário", aconselhara Clerides. "Sem confiança no sistema bancário, não se pode operar numa economia aberta. Precisamos disso para manter o centro de negócios. Sei que a Alemanha nem quer ouvir falar nisso, mas podemos manter o centro de negócios. O que temos de mudar é o modo como o sector bancário interage."

Também há quem aposte na reunificação da ilha. Notam-se movimentações diplomáticas. E há uma base a partir da qual Nicos Anastasiades diz estar disposto a trabalhar: uma "federação bicomunitária e bi-regional com equidade política", o que "não significa igualdade numérica ou quantitativa quanto à participação na exploração das riquezas naturais".

Desde os acordos de 1977 e 1979 que as negociações têm por base uma federação bi-regional e bicomunitária, ou seja, um país em que cada comunidade tem a sua zona para administrar. "O mais próximo que estivemos de lá chegar foi em 2004", recorda Ahmet Sözen, professor do departamento de Ciência Política e Relações Internacionais da Universidade do Mediterrâneo Oriental.

O professor estacionara do outro lado da "linha verde". Encontramo-lo de manhã cedo, no checkpoint montado junto ao Palácio de Ledra, a primeira passagem a abrir, para lá das muralhas. E ele conduz agora para dentro das muralhas da velha Nicósia. Vamos tomar um café turco nas arcadas de Buyuk Han, uma hospedaria construída no século XVI pelo primeiro governador Otomano, prisão no tempo do domínio britânico, hoje selecto centro de lojas, galerias e cafés.

Está a falar no Plano Annan, proposto pelas Nações Unidas. Nicos Anastasiades era um dos seus apoiantes. Foi referendado uma semana antes da entrada de Chipre na União Europeia. Disseram "sim" 64,9% dos eleitores cipriotas turcos. "Na faixa etária 18/35, eram 85%. As gerações mais jovens estavam mais entusiastas", interpreta Sözen. Estavam em desacordo 75,8% dos cipriotas gregos. Nesse lado, entre os mais jovens o "não" obteve mais de 85% dos votos.

O professor culpa os sistemas de educação, de uns e de outros, "muito nacionalistas". Enfatiza as feridas que ficaram por sarar. Diz que muito do desacordo actual tem que ver com o destino a dar aos colonos turcos e com os direitos de propriedade dos cipriotas que, num lado e noutro, perderam as suas casas na altura em que a ilha foi dividida.

Há gente que nunca cruzou um dos seis pontos de passagem da linha de cessar-fogo, onde se mantém um contingente das Nações Unidas. O bancário Constantinos Hadjimavros só a cruzou uma vez. "Eu sou um refugiado." Fora assim que se definira, dias antes, no sindicato, apesar de ter nascido em 1974. "A nossa casa fica a um quilómetro. Podemos vê-la e não podemos ir para lá. Agora podemos ir ao outro lado, mas só fui uma vez. Fui ver a aldeia da minha mãe e a aldeia do meu pai. Não quero ir ao outro lado. Sinto-me inseguro. Passamos dois anos da nossa vida a olhar para a "linha verde" - o serviço militar é 26 meses."

Muitos atravessam a "linha verde", mas pouco se misturam. Há um "elevado nível" daquilo a que o professor chama "civilidade" e isso fá-lo defender a "belgização de Chipre". Em vez de duas zonas, três: uma para cada grupo e outra comum, bilingue, com os serviços da república, mais confortável para quem se quiser misturar. A ideia, já tantas vezes defendida em público, não conquistou muitos adeptos, mas não sai da sua cabeça. "Tal como na Bélgica, não esperem que as coisas sejam cor-de-rosa. Cipriotas gregos e cipriotas turcos não vão dar beijos e abraços e dançar nas ruas."

Aquela divisória obriga cada um a assumir-se. Hadjimavros, por exemplo, admitira ser o conflito o que faz dele um acérrimo defensor da União Europeia, apesar de toda a desilusão com a solução encontrada: "Se saímos da UE, a Turquia pode ocupar a ilha inteira." É um sentimento comum no lado sul. No lado norte, ser pela União Europeia, afiança Sözen, tem mais que ver com aspirar aos níveis de desenvolvimento comunitário. E isso também não desapareceu, apesar do desastre.