O amor contra o declínio da civilização ocidental

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O protagonista, João Jesus, que interpreta a personagem de Jó (à esquerda). António Pedro- Vasconcelos na cena em que dirige o escritor João Tordo Jose Sarmento Matos

Os Gatos Não Têm Vertigens, com Maria do Céu Guerra e João Jesus, é o novo projecto de António Pedro Vasconcelos. Viagem ao último dia de filmagens de uma história de miúdos e velhos de Lisboa.

O que separa Maria do Céu Guerra da câmara de António-Pedro Vasconcelos? Uma fita métrica. O que dá ao assistente de realização a capacidade de antecipar quase ao segundo a passagem de um avião que inutilizaria um take? Uma aplicação de telemóvel. O que vem mesmo a calhar no Verão do nosso descontentamento? Um filme de amor, daquele abnegado, altruísta, imune a altas ou baixas tecnologias.

All you need is love, então, e só precisamos de mais um take, ou de quatro ou cinco, para acertar com a cena na livraria Ler Devagar na LX Factory, em Lisboa, na perfeição - afinal, é o final do mais recente filme de António-Pedro Vasconcelos, Os Gatos Não Têm Vertigens, que ali se desenrola. Quando a fita métrica se aproximou dela nos escritórios da editora Civilização, palco das cenas vespertinas, Céu Guerra não sabia como iria sentir a sua Rosa. "Para mim, a Rosa morreu ontem. Nunca tinha filmado a morte da minha personagem. E é o Jó que a encontra morta e ele deu-me a minha morte, eu morri com o desgosto do Jó, no pranto daquele menino eu morri."

Rosa tem o amor de mãe por Jó e são os protagonistas desta história de amores. Vasconcelos e Tiago Santos, o argumentista, contam a história de um rapaz de rua que acaba no telhado de uma idosa, aqui um jovem actor e uma senhora actriz. Tiago soube "a história de uma senhora que encontrou um puto marginal a viver no telhado, e que em vez de chamar a polícia começou a levar-lhe comida". O realizador conheceu uma história parecida e sentiu que assim poderia dar ao público algo de que ele precisava. Há-de explicar isso ao almoço, mas ainda é de manhã.

João Jesus é Jó e um par de olhos verdes que se fixam bem perto quando falamos entre cenas, cabos e tubos de metal a viajar para fazer travellings e contracampos. Descreve ao PÚBLICO os traços gerais da sua personagem: "Jovem de 18 anos, vive no Alvito, perto do Casal Ventoso, tem uma família desequilibrada, só vive com o pai, alcoólico e que não o respeita, sai de casa e é quase forçado a ser marginal, e encontra a Rosa" que o encaminha para os livros.

E depois desarma: "Nasci na Quinta da Lage, na Brandoa, eram barracas, acabei por ser também um bocado miúdo da rua, a minha família é completamente desequilibrada, o meu pai..." João teve depois também "uma Rosa" que lhe mostrou que havia o teatro, que o levou a estudar com Carlos Avillez e ao Teatro Experimental de Cascais e à série da RTP Depois do Adeus. Para ser, aos 23 anos, um Jó de 18, acabou "por usar essas memórias afectivas".

"É engraçado estar a fazer este filme", explica na rua principal da LX Factory, último dia de filmagem a meio e Alcântara a buzinar lá fora. Não só porque é o primeiro - "estou a descobrir o cinema, fascinado, é só uma câmara e cada plano é aquele plano, cada cena é a tal, é a estreia [do teatro], é a única" -, mas também porque "um actor às vezes pede a oportunidade de fazer alguém próximo de si. E não vai haver mais nenhuma destas, tão perto". Depois desarma novamente, quando fala do que é trabalhar as suas memórias para as verter nesta personagem: "Ultrapassei tudo muito bem", explica, mas aqui "é cinema, é diferente. Acaba por ser mais bonito".

Tiago Santos escreveu, António-Pedro Vasconcelos filmou, tal como em Call Girl (2007) e A Bela e o Paparazzo (2010), dois filmes que representaram perto de 1,5 milhões de euros de receita de bilheteira e mais de 330 mil espectadores. Os dois figuram no top dez dos filmes portugueses mais vistos da última década, rodeados por Balas e Bolinhos, Filme da Treta, Amália ou O Crime do Padre Amaro.

Vasconcelos e Tiago Santos juntam-se novamente, com apoio de 840 mil euros do Instituto do Cinema e do Audiovisual, embora o filme produzido por Tino Navarro estivesse previsto para estrear em Outubro de 2012. O financiamento público não chegou, agora está-se a meio do caminho até uma estreia em sala.

Este é um filme de primeiras vezes, ou de regresso a elas - Céu Guerra nunca tinha filmado com António-Pedro Vasconcelos, Fernanda Serrano (Luísa) estreou-se no cinema com ele, em Jaime, e agora volta ao seu plateau; João Jesus faz o seu debute e Vasconcelos filma pela primeira vez o fantástico. É que aqui há fantasmas. Mais precisamente o de Nicolau Breyner, aliás Joaquim, amor de 50 anos de Rosa que passa a espectro no início do filme.

Tiago Santos está na Ler Devagar na cálida sexta-feira de manhã em que o PÚBLICO esteve na rodagem porque, qual Hitchcock, já tinha passeado pelos filmes que escreveu, mas desta vez deu-se o privilégio de uma fala: na ficha técnica é o "alguém #2" que faz uma pergunta na apresentação do livro de Jó. "É mais fácil escrever, em casa, mas assim não estava com os meus amigos."

Entra em cena João Tordo, visto pela primeira vez pelos repórteres, às 8h, envolto por uma luz branca no meio de centenas de livros - são assim os escritores no seu habitat natural? Era só a iluminação da cena e os livros, bom, esses já lá viviam antes de o jovem romancista fazer o seu cameo silencioso na mesma cena num piscar de olho de fim de rodagem às relações do realizador.

Ele revê cenas com a neta ao colo enquanto os escritos na t-shirt do seu ex-aluno e assistente de realização João Sales garantem, de peito cheio e costas largas: "O chefe tem sempre razão" e "A culpa é minha". António-Pedro Vasconcelos disse no início da rodagem que este projecto nasce pressionado pela crise. Sentiu-se obrigado a questionar-se sobre para que serve o cinema. "Eu sei para que serve o cinema. Para contar histórias às pessoas", esclarece. Está sim interessado em perceber de que histórias precisa o público a dada altura, como Dickens, Homero ou Tolstoi souberam nas suas eras - ajudando a defini-las. "O cineasta não pode deixar as pessoas desesperadas, nem dar-lhes falsas esperanças."

"Truffaut disse-me que não se pode fazer filmes ingratos", que desrespeitem a vida que filmam. "Não podemos dizer às pessoas ao sair do cinema que este mundo é uma merda. Mas hoje não há horizontes." Fala de Frank Capra, Roberto Rossellini ou Vittorio De Sica para exemplificar filmes em tempos críticos "que têm um horizonte de esperança".

Já se almoça e o realizador salta de Woody Allen e da sopa de cenoura para o leitão e para a Carta de São Paulo aos Coríntios. Porque só precisamos de amor, além de fé e esperança, "e percebi que nunca tinha falado do amor assim nos meus filmes. Era isto ou a revolta."

António-Pedro Vasconcelos, 74 anos, diz que não espera "fazer muito mais filmes", mas o próximo será "mais virado para a revolta, mais directamente político, para ajudar as pessoas a perceber como são enganadas". Porque acredita que estamos "no período mais difícil da história do Ocidente", o que Fernanda Serrano descreve como "o limiar, o fio da navalha".

A conversa entre as cenas em que tanto é realizador quanto actor (é o editor literário que lança o livro de Jó) passa pelo estado da arte do sector. A nova e ainda incompleta Lei do Cinema ("um desastre") e, claro, 2012 - ano zero do cinema português devido ao congelamento dos concursos de apoio. Para o realizador, o ano em que esteve parado serviu para ler e reler todo o Dickens. E descobriu que Os Gatos Não Têm Vertigens, afinal, "é a história de David Copperfield".