"Se o bom escritor é o que reescreve, não cheguei a essa fase. Ainda só escrevo"

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DANIEL ROCHA

Ter a liberdade da forma e da linguagem que o jornalismo não dá num livro sobre desencontros e imperfeições. É assim que Ana Margarida de Carvalho fala da sua estreia literária, Que Importa a Fúria do Mar, onde confessa ter sentido a vertigem da liberdade total.

No princípio houve um convite e o medo de aceitar. A jornalista com a facilidade da escrita não garantia uma boa escritora e ela sabia e não queira cair no cliché da jornalista que também escreve ficção. Mas Ana Margarida de Carvalho, 20 anos de jornalismo, aceitou e escreveu um romance sobre "imperfeições" a partir das memórias de um sobrevivente do Tarrafal. Ficção, sublinhe-se, com factos reais e uma geografia precisa num registo que se assume experimental.

É uma pergunta recorrente a um jornalista que se inicia na ficção: o que procurou fazer com a literatura?

Queria ter o que nunca tive no jornalismo. Uma imensa liberdade na forma. Este livro está cheio de imperfeições, mas cheio de experiências também. Dei-me a essa imensa liberdade de poder experimentar uma linguagem por vezes mais rural, outras mais beckettiana, umas vezes mais despojada, outras mais lírica, ou mais absurda. Isso deu-me muito prazer. Escrever à minha vontade, com as palavras que quisesse. Daí o livro ser um bocadinho desigual. Houve um romance que me serviu um pouco de modelo, A Amante do Tenente Francês, de John Fowles (1969), adaptado ao cinema por Harold Pinter (realizado por Karel Reisz em 1981, com Meryl Streep e Jeremy Irons)

É um dos livros do pós-modernismo. Porquê esse em especial?

É muito inovador na forma da escrita. Há uma voz do século XX sobre a Inglaterra vitoriana. Isso sem nunca perder o olhar do século XX. Há um narrador influente, que se mete com o leitor, que se quiser pode inverter a marcha das coisas, e pode dar-se ao luxo de usar a linguagem que quer. Achei fantástico nos anos 80 ter havido a tal adaptação do Pinter e pensei no extraordinário que se fez com essas duas vozes, poder arranjar dois tempos e um narrador livre que intervinha e poderia comentar a narrativa.

No seu livro essas duas vozes, cada uma no seu tempo, são as de Joaquim, o sobrevivente do Tarrafal, e Eugénia, a jornalista que o vai entrevistar. A forma veio antes das personagens?

Talvez em simultâneo. Eu tinha uma ideia muito cinematográfica já há muitos anos. Um homem atirava umas cartas de amor de um comboio em andamento e essas cartas eram encontradas por um mensageiro que as iria entregar à pessoa a quem elas eram destinadas. Essa pessoa acaba por amar o mensageiro e não o autor das cartas que se afasta. Era a minha ideia. A partir daí pensei: não vou fazer isto num país irreal, num tempo irreal. E comecei à procura de resposta para perguntas. Como é que uma pessoa poderia estar incomunicável durante, por exemplo, dez anos? Estando presa. Qual é a fase da história em que alguém pode estar preso e distante sem qualquer contacto? Durante a ditadura, no Tarrafal. Como é que uma pessoa ia lá parar? Cheguei à revolta de operários vidreiros na Marinha Grande, a 18 de Janeiro de 1934.

O real a intrometer-se... Fez muita investigação?

Na Visão sempre que era preciso fazer trabalhos sobre antigos resistentes era quase sempre eu a escolhida e fazia-os com todo o gosto. Tinha já um armazenamento de histórias. Conheci ex-tarrafalistas, conheci senhores que tiveram na revolta da Marinha Grande, muitas histórias de resistentes, pessoas torturadas, ambientes de prisão.

O Joaquim nasceu dessa vivência enquanto jornalista?

Não pretendi com este Joaquim fazer uma homenagem a essas pessoas e se calhar isto não é muito justo. Queria fazer um livro sobre pessoas imperfeitas e este Joaquim é extremamente imperfeito, insatisfeito, contrariado por estar ali e que agia por reacção. Só reage por contradição, nega tudo. Só que depois queria que as personagens mudassem.

É assim que aparece a história de amor?

Ou de desamor. A história do boy meets girl, neste caso boy doesn"t meet girl, porque eles não se encontram. Não há hipótese.

Fala de Joaquim e Luísa. Mas há outra história, Joaquim e Eugénia. Outra impossibilidade.

Sim, são dois seres de séculos diferentes. Há ali uma pequena sugestão de qualquer coisa que os aproxima, um entrelaçamento que talvez tenha acontecido, mas que não pode continuar, porque é um amor verdadeiramente impossível. Literariamente são os mais estimulantes. É uma história muito mais de obstinação e de platonismo do que de proximidade física e de sexo. Eu não queria ir por aí.

E porque não?

Espera-se que as mulheres escrevam sobre coisas íntimas. Não queria fazer isso. Talvez a pensar um pouco no que Bergman diz, que nunca filmaria alguém a fazer amor ou a rezar. Não me sinto capaz de escrever uma cena dessas, íntima, sem cair no cliché. E não me queria nada expor... Acho que já há muitas coisas minhas aí.

Na Eugénia, a jornalista?

Sim, algumas. É inevitável se calhar. A começar pelo pronome (risos), um "eu" que me desmascara (risos). Aquela não sou eu, mas podia ter-me ocultado melhor. Ela também é jornalista, embora de televisão. No início era suposto ser apenas uma jornalista frívola que não se interessa nada pelo que está a fazer, mas a personagem acaba por crescer e ganhar uma dimensão quase paralela à de Joaquim.

O tal cliché do escritor que diz que a personagem lhe escapou?

Se calhar os escritores gostam de tornar o processo mais misterioso, mais romantizado. Mas não posso dizer isso. Acho que tive sempre bastante controlo sobre ela.

O livro está cheio de contágios da música, do cinema, de outros livros...

Deixei-as estar. Não fugi deles. Assumi-os. Temi que as pessoas achassem pretensioso. Lá está está, é um risco.

Como foge à auto-censura?

Agradecendo poder escapar à standartização da escrita que é cada vez mais igual, sobretudo no jornalismo. Posso fazer aquilo que posso e isso é uma liberdade assustadora, uma sensação de abismo. Dá vertigens. Estive cheia de inseguranças até à última hora. Cheguei a pensar que se calhar era melhor usar um pseudónimo e não assumir, mas era esquisito, uma ideia estapafúrdia. Não mostrei o livro a ninguém. Foi um acto que mantive secreto.

Nem disse que estava a escrever?

Não. Mostrei um capítulo ao meu filho mais velho. Mostrei uma parte inicial à Maria do Rosário [editora] que me disse "avança" e me deu logo uma segurança.

Não mostrou ao seu pai [o escritor Mário de Carvalho]?

Mostrei as primeiras páginas. E depois o final para ver se havia algum erro grosseiro.

Qual foi a reacção?

Ele não se coíbe de fazer críticas severas. Quando não gosta fica bastante feroz. Se calhar é um tique familiar. Não somos muito exuberantes na manifestação das nossas emoções. Disse: "gosto". Foi um alívio. Deu-me alguma segurança.

Sente-se de alguma forma uma herdeira dele?

Não me atrevo a fazer comparações. O meu pai está noutra galáxia. Não tem nada a ver com este meu livro. Mas o que me inspira, na verdade, são as palavras. Gosto de ver a genealogia das palavras e de encontrar palavras novas.

Também escreve com dicionário por perto?

Ah, sim. Gosto imenso de dicionários. A ideia de encontrar a palavra exacta é muito importante e vou atrás dela. É talvez onde me empenho mais. Outra coisa que acho muito importante é escrever debaixo de uma emoção. Não digo que seja preciso viver as emoções sobre as quais estou a escrever porque seria dar em maluco. Acho que não se deve escrever de forma neutral. Para mim a forma mais rápida de ter ou de me provocar uma emoção é ouvir música ou ler poesia. Desencadeia qualquer coisa.

Quando estava a escrever criou uma imagem de quem a poderia ler?

Não. Uma vez o Lobo Antunes disse-me uma coisa numa entrevista que achei muito interessante. Ele disse-me que há livros que falam e livros que ouvem. Que os livros que falam são os maus e os que ouvem são os bons.

Se perguntar em que categoria coloca o seu...

Gostava que o meu fosse um livro que ouvisse.

Este é um livro ditado pela memória.

Sim, queria que fosse. Por isso é um livro quase sem diálogo. A ideia era essa, contar uma história como se fosse em pensamento. Derivar. Pensamos de uma forma caótica e por associação de ideias.

Conhece o Tarrafal?

Não. Não achei que fosse fundamental. Documentei-me, conheci muita gente que passou por lá. Tive o meu pai preso político. A minha normalidade era ter um pai preso. Eu ia escrever um romance, não um documento jornalístico. O jornalista que escreve é um estigma terrível, quase sempre associado a coisas de que não gosto nada. Já disse que neste livro não ha códigos, não há segredos nem há sombras. Nem sequer tentei fazer um romance histórico. O Carlos Drummond de Andrade disse que há livros que são feitos para preencher um espaço na estante. Obviamante não é o meu. Sinto-me um ser insignificante.

Mas a partir de agora, por exemplo, vai ser provável estar nas estantes ao lado do seu pai. Partilham o mesmo apelido literário.

Se eu os arrumasse por ordem alfabética... As minhas arrumações são loucas. Fiz um livro. Fico contente se as pessoas gostam, mas acho que está cheio de imperfeições.

Relê?

Evito, porque fico muito angustiada. Vejo coisas que acho que não devia ter feito, com erros de principiante.

Quer dizer quais?

Não, a ver se ninguém repara. (Risos). Tem muito do deslumbramento da liberdade. Há a ideia de que o bom livro é aquele que se reescreve. Não reescrevi nada. Talvez tenha retirado uma parte ou outra, mas não tive esse trabalho de depuramento. Escrevi o primeiro capítulo e fui por ali afora. Se o bom escritor é aquele que reescreve, então ainda não cheguei a essa fase. Ainda só escrevo. E essa coisa de usar várias linguagens, acho que é de principiante. Como um miúdo que de repente tem um espaço grande para brincar e quer experimentar tudo. Não fiz um daqueles livros que admiro, que quando se sacodem não sai de lá nada porque não há nada de acessório. Há aqui coisas que se abanasse podiam cair.

Ver crítica de livro págs. 32 e segs.