E fez-se medo

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Carlos Reygadas filmou os filhos, os cães e a sua paisagem no campo; mas não é um home movie, diz

Esta menina da foto podia ser um charco de água, mas quando começa a chamar as coisas pelo seu nome... Iniciação ao mundo e ao medo, Post Tenebras Lux, de Carlos Reygadas.

Há dois mundos em choque em Post Tenebras Lux, o da cidade, de onde uma família saiu, e o do campo, onde se instalou. É batalha na terra: Júan e El Siete, ex-patrão e ex-empregado, agora amigos, vão ser instrumentos do devir de aniquilação da sociedade mexicana. Contar assim, é procurar um filme que não se encontra em Post Tenebras Lux. Porque, como outros, de cineastas como Apichatpong Weerasethakul ou Michelangelo Frammartino, também este, que são encontros imediatos com as profundezas e pesadelos do país de Reygadas, exercita a musculatura dos sentidos no espectador. Que é como quem diz que a experiência do caos se vai revelando uma comunhão sensorial com uma alegoria sobre a perda de inocência e a iniciação ao mundo. Conversa em Pigalle, em Paris, com o realizador de Japón, Batalha no Céu e Luz Silenciosa.

É a sua filha na abertura de Post Tenebras Lux, é ela que corre entre os cães e as vacas e que, invadida pelo medo, começa a chamar pela "mamã" e pelo "papá". Há um pedaço de home movie aqui?

Não o vi assim. Nem como autobiografia. Há elementos exteriores que me são próximos - é a minha casa, são os meus cães, são os meus filhos e também vivo no campo. Foi um filme feito com coisas da minha vida. Mas nada do que acontece às personagens me aconteceu. Na verdade, os valores das personagens, a forma como elas vivem e lidam com os conflitos, não me são assim tão próximos. Nesse sentido, se calhar Japòn (2002) e Luz Silenciosa (2007) apesar de mostrarem situações específicas e distintas, são filmes mais autobiográficos - no caso de Luz Silenciosa, a intimidade, a forma como vemos a vida...

É surpreendente isso: Luz Silenciosa fala de mundo(s) fechado(s), fechamento que traz consigo violência. Ou seja, como mundo não partilhável.

Percebo o que diz. Mas mesmo essa violência: cada um de nós a transporta em si, por isso até aí pode ser coisa partilhável. E temos também em nós coisas abertas e fechadas. Luz Silenciosa é o meu filme mais pessoal: tudo o que é exterior é longínquo mas o conflito interior das personagens rasga aquilo que penso que é a versão burguesa e hipócrita dos sentimentos e da vida. Pensamos sempre, quando vemos um filme, que os valores estão espelhados no material. Mas a questão conjugal e a intimidade são valores mais ocultos. Por isso continuo a achar que os meus filmes mais autobiográficos são Japòn e Luz Silenciosa.

Post Tenebras Lux obedece a uma estrutura que não terá nada de aleatório. Mas existe a sensação de que algo escapa ao espectador que quer seguir uma narrativa em vez de experimentar o que acontece - o caos. Isso é mais vincado neste filme do que em anteriores. Talvez com excepção de Este es mi Reino, o seu episódio para o filme-mosaico Revolución (2010), que parece estar reiterado em Post Tenebras Lux - as sequências de festa nos dois filmes, por exemplo.

Nunca quis fazer cinema abertamente sociológico. Aliás, sempre vi o cinema como algo mais próximo da música, por oposição ao que é a narrativa tradicional: não se trata de contar histórias - é que mesmo as canções tendo letras, o que interessa nelas é o que sentimos quando as ouvimos.

Mas é claro que vivo num mundo exterior, observo-o e acabo por falar dele. O que se vê em Revolución ou em Post Tenebras Lux deve algo a uma dimensão social e antropológica de como é o meu país. O México é um país de um universo dual, porque nele existem uma visão ocidental e não ocidental do mundo. Não há mestiçagem cultural. Quer dizer: há mestiçagem étnica, mas as diferentes visões do mundo não se fundem. Isso determina tudo o que nos acontece em qualquer acto do quotidiano, desde a compra de uma casa até à escola dos miúdos: temos de nos confrontar com o facto de não haver uma visão hegemónica de comunidade. Não existe em nós, e isso é um legado da nossa História, essa coisa de um objectivo ou ideia comum do que queremos enquanto grupo, há mais cumplicidades do que sociedade homogénea. Essa dualidade orgânica enriquece-nos - e prejudica-nos, porque ao mesmo tempo essa diversidade não é produtiva porque o México se acomodou a essa cultura dual.

Numa sequência de Post Tenebras Lux fala-se de Dostoievsky e Tolstoi. Cita-se Guerra e Paz, a passagem sobre Pierre e a sua condição de pária, alguém que aprendeu o prazer do abandono, deixando riqueza, poderes. Batalla en el Cielo (2005) e a personagem Marcos são dostoievskianos, como uma reescrita de Crime e Castigo. Já Post Tenebras Lux, com aquela família que se abandona no campo - e a personagem de Júan -, estará do lado de Tolstói. Concorda?

É verdade, Batalla en el Cielo podia ser uma adaptação de Crime e Castigo. O conflito fundamental é esse. Mas com uma adenda, uma diferença: o conceito de crime e castigo de livro pressupõe um conceito de culpa racional. No caso de Marcos em Batalla en el Cielo, a culpa racional não existe. Há uma crise natural neste ser, como se fosse um atentado ao princípio aristotélico que diz que o homem faz o Bem e evita o Mal. Marcos começa a apodrecer por dentro. Em Post Tenebras Lux há uma ideia tolstoiana, a ideia de um príncipe que tem tudo, que gosta da mulher mas está insatisfeito. Essa é a visão ocidental do mundo. Num determinado momento, o príncipe vê a luz, antes de morrer - é a ideia para a personagem de Júan. A luz tem de vir depois das trevas. A luz só se pode ver na obscuridade.

Há sentimento de culpa social em Júan, perante o antigo empregado e depois amigo, El Siete?

A insatisfação de Júan é um tema típico europeu. Não é um problema de classe social, é um problema de insatisfação - é como um comité suíço para ajudar o Rwanda. Não é um complexo de classe, é uma visão paternalista, eivada de superioridade. Ver a personagem do ponto de vista da culpa social é uma visão ocidental.

Mas, então, que batalhas se travam entre Júan e El Siete?

Fundamentalmente, questões filosóficas. Do lado ocidental, a violência da separação, o fim da inocência, quando deixamos de ser meninos. Por outro lado, há outra cultura, que não é ocidental, que sofre, que está em desequilíbrio: é uma cultura que foi violada, e que continua a sê-lo; que perdeu a sua conexão com os valores antigos. Por isso tratam mal os animais, cortam as árvores, não tratam das suas casas. Não há uma visão única, não há um desenvolvimento no mesmo sentido. Isso seria uma forma de pensar europeia. É com essas tensões que vivem os meus filmes.

Retomando o fluxo: Post Tenebras Lux é construído para o espectador se perder. Há blocos - o rugby - que são experimentados com um misto de incredulidade mas finalmente de justeza: despertamos para uma comunhão de sentidos.

Sim, não é um filme irracional. Nem pós-moderno. Apenas não é uma narrativa do presente consciente. Mas é tão racional como um filme de Kubrick - não tão frio, espero. Há vários níveis de percepção da existência, os sonhos, a memória, o presente, o onírico, a visualização do futuro. Sobre o rugby: Einstein dizia que todos somos parte do Universo. Mas por uma estranha razão percebemos o Universo de forma individual. O objectivo, por isso, devia ser romper com essa ideia de existência individualizada. O filme faz uma observação crítica sobre o sistema patriarcal, sobre os jogos dos homens, jogos de conquista - o lado ocidental implica o domínio violento do mundo. No México, ninguém diz que quer dominar os indígenas, mas há esse paradigma também: a guerra, o dinheiro, o colonialismo. Ora, o rugby é o jogo do país da democracia e dos direitos dos homens, a Inglaterra - mas que foi também um país imperialista.

As crianças permanecem incólumes. A sequência inicial fala de um mundo antes da violência mas que começa a ser ameaçado. A menina que está entre cães e vacas chama pela "mamã" e pelo "papá", a noite cai, avizinha-se o que é isso de se tornar adulto...

O princípio foi simplesmente andar com os meus filhos e os meus animais, gosto de os filmar. Sim, as crianças são as únicas em paz no filme. Elas, as plantas e os animais. Mas sabemos que vão perder a inocência. Essa menina podia ser um charco de água. Mas quando começa a chamar as coisas pelo seu nome...

... está a iniciar-se ao mundo - já agora, um delírio: quando ela começa a chamar pelas "vacas" e pelos "burros", lembrei-me do "toys! toys!" dos Encontros Imediatos do Terceiro Grau, de Spielberg, o que deve ser absurdo...

... sei que filme é, não pensei nele, mas todas as associações são possíveis...

Dizia então que a menina começa a tomar consciência, começa a descobrir o medo. E começa aí a separação.

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