Regresso aos mercados já em 2014 passou de difícil para quase impossível

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A Bolsa de Lisboa teve ontem uma queda de 5,31% devido à crise política no país. O sector da banca foi o que mais caiu SPENCER PLATT/afp

Juros da dívida a dez anos chegaram a ultrapassar ontem a barreira dos 8%, com investidores, analistas e agências de rating a apostarem cada vez mais num novo pedido de resgate

Há menos de dois meses, numa conferência de imprensa no Ministério das Finanças, a então secretária de Estado do Tesouro, Maria Luís Albuquerque, não escondia o optimismo: "Portugal regressou aos mercados" e "está confirmado que o programa de assistência acaba em Junho de 2014", afirmou então.

Agora, poucas horas depois da sua tomada de posse como ministra das Finanças, a generalidade das apostas de analistas e investidores vai no sentido precisamente contrário: o regresso de Portugal aos mercados está comprometido e, por isso, o país poderá ter de pedir, em meados do próximo ano, mais um empréstimo aos seus parceiros europeus, dizem.

Foi a crise política criada nos últimos dias que fez com que este cenário mais pessimista se tornasse, de uma forma repentina, muito mais evidente. Mas, dizem os analistas contactados pelo PÚBLICO, já não será uma resolução dos diferendos políticos dentro do Governo que conseguirá assegurar por si só o objectivo de regresso aos mercados.

Ontem, nos mercados da dívida pública, o ambiente voltou a ser de venda das obrigações portuguesas. As taxas de juro dos títulos de dívida pública portuguesas subiram para o valor mais alto deste ano e voltaram a colocar-se num terreno considerado insustentável para um país que pretende garantir todo o seu financiamento recorrendo aos mercados.

Nas obrigações a dez anos, o dia começou com uma taxa de 6,798%, mas muito rapidamente disparou chegando a ultrapassar a barreira dos 8%, algo que já não acontecia desde Novembro de 2012. Durante a tarde, registou-se uma correcção, com as taxas de juro a fixarem-se nos 7,449%.

Nos prazos mais curtos, a subida das taxas de juro ainda foi mais acentuada, o que mostra que as preocupações dos investidores está relacionada com o aumento da probabilidade de um incumprimento do Tesouro português na amortização da sua dívida no curto prazo.

Portugal destacou-se claramente dos seus parceiros da periferia da zona euro. As suas taxas de juro aproximaram-se ontem das da Grécia (11,8% nos títulos a dez anos) e afastaram-se das da Irlanda (4,1%). E ficaram mais longe dos 5,65% a que foi emitida a última série de obrigações a dez anos.

Analistas de bancos de investimento e agências de rating nacionais e internacionais concordavam ontem que a capacidade de Portugal poder vir a assegurar o seu financiamento exclusivamente nos mercados nos próximos meses ficou ainda mais diminuída e apontavam para a necessidade de um segundo resgate. A responsável pela análise de Portugal na agência de rating Moody"s, citada pelo Jornal de Negócios, dizia, por exemplo, que "a capacidade de Portugal regressar aos mercados de dívida, como planeado, é mais incerta neste contexto".

No entanto, uma ideia comum aos diversos analistas é a que as dificuldades portuguesas em conseguir aceder aos mercados não estão apenas relacionadas com a crise política. "Sempre assumimos que existia uma probabilidade significativa de que Portugal poderia vir a precisar de apoio externo além do final do actual programa", explicou a analista da Moody"s, que mantém, tal como as outras agências, um rating de nível "lixo" à dívida pública portuguesa.

Em declarações ao PÚBLICO, Nicholas Spiro, especialista nos mercados de dívida soberana internacionais, explica que "o que os mercados estão a ver em Portugal e nos outros países periféricos é que não há capacidade nem consenso político suficiente para continuar com as reformas". "Qualquer que seja o Governo que saia da actual crise vai ter dificuldades em cumprir o que está definido", afirma, defendendo que "o programa português está a colapsar e apenas a flexibilidade da troika tem permitido que não tivesse já sido rompido. Mas essa flexibilidade tem limites". "As vendas a que assistimos nos últimos dias têm muito poucas semelhanças com o pânico que se verificava no início do ano passado. Agora não estamos, como estávamos nessa altura, perante um risco de colapso da zona euro."

Já Gareth Issac, responsável pela estratégia da Schroders para o mercado da dívida, explica porque é que já tinha vendido, há poucas semanas, muito antes de se adivinhar a crise política, os títulos obrigacionistas portugueses que tinha comprado nas emissões realizadas no início do ano. "Vendemos toda a nossa dívida portuguesa há algumas semanas. A diferença em relação às taxas do centro da Europa tinha baixado para um nível que não nos parecia justificado pelos fundamentais [da economia]", afirma.

As principais preocupações em relação a Portugal, afirma ainda, são que "a inflação baixa e o crescimento real fraco tornem a dinâmica da dívida pública potencialmente insustentável, se não houver uma melhoria significativa da procura interna, não só em Portugal, mas também nos outros países".