Cientistas dizem que há mais e maiores peixes no Parque Marinho da Arrábida

Entre outros registos, os especialistas tentaram contar os peixes
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Entre outros registos, os especialistas tentaram contar os peixes EMANUEL GONÇALVES/ISPA

Estudos revelam primeiras tendências da área protegida criada em 1998 e totalmente regulamentada em 2009

Uma equipa de especialistas do ISPA - Instituto Universitário de Ciências Psicológicas, Sociais e da Vida está a chegar às primeiras evidências de que a criação do Parque Marinho Luiz Saldanha, na Arrábida, está a dar resultados positivos. São conclusões preliminares, ainda com grande incerteza. Mas nas áreas onde a pesca foi proibida há mais peixes, e são sobretudo maiores.

O cenário promissor é traçado em vários estudos realizados pelos especialistas do ISPA. Num deles, publicado em Maio na revista Marine Ecology Progress Series, os cientistas utilizam diferentes tipos de informação: contaram os peixes, compararam com dados preexistentes e verificaram o resultado concreto da pesca.

Contar animais debaixo da água não é fácil. Para evitar que o mesmo peixe não apareça duas vezes nos registos, só se consideram aqueles que estão à frente da vista quando se começa a tarefa. "Se vêm de trás, não contamos", afirma a bióloga Bárbara Horta e Costa, autora principal do estudo. "Também é preciso ver os cardumes que dão voltas".

Embora tenha sido criado legalmente em 1998, só em 2005 é que o parque teve o seu plano de ordenamento aprovado. Os seus 53 quilómetros quadrados, mais ou menos entre o Cabo Espichel e o Portinho da Arrábida, foram divididos em áreas de protecção total, onde a pesca é proibida, de protecção parcial, onde só se pode pescar a mais de 200 metros da costa, e complementares, onde não há restrições a não ser para algumas artes de pesca.

O estudo conclui que há uma diferença entre o que se encontra mais junto à costa nas áreas onde a pesca é proibida e nas áreas complementares. "Há mais indivíduos e mais biomassa", afirma Emanuel Gonçalves, professor do ISPA e co-autor do estudo. Mergulhadores desportivos da zona têm notado a diferença.

O efeito é mais notório em peixes comerciais, em particular o polvo (Octopus vulgaris) e uma das espécies de sargo (Diplodus sargus). Em ambos os casos, há aproximadamente o dobro de biomassa por metro quadrado nas áreas mais protegidas. "Hoje observei os maiores sargos que já vi desde que mergulho aqui", disse Bárbara Costa ao PÚBLICO, depois de uma jornada no mar.

Isto poderia nada ter a ver com o parque marinho, reflectindo apenas que determinadas zonas da costa têm naturalmente mais fauna. Mas os investigadores dizem que o habitat entre as diferentes áreas do parque é muito semelhante. Além disso, a comparação com dados de campanhas de caracterização realizadas em 1998 e 1999 revela que, para as mesmas zonas, a densidade de peixes comerciais aumentou desde que entraram em vigor em pleno as normas do parque marinho, em 2009. A diferença não é estatisticamente significativa, mas é um sinal, dizem os cientistas.

Os dados da pesca mostram resultados mistos. As capturas de polvo, o principal rendimento dos pescadores da região, teve uma subida acentuada até 2005, antes da entrada em vigor do plano de ordenamento. Depois caíram ligeiramente mas voltaram a subir, atingindo um nível recorde em 2009. Os sargos também registaram uma subida depois do plano de ordenamento, embora tivessem caído entre 2003 e 2005. "Nas capturas, não parece ter havido efeito negativo", afirma Emanuel Gonçalves.

As proibições no parque marinho foram no princípio fortemente contestadas por pescadores profissionais e desportivos. Mas a pesca adaptou-se, conforme revela outro estudo de investigadores do ISPA, publicado em Junho na revista PLOS One.

Na pesca com armadilhas - sobretudo para o polvo - houve uma migração da área mais junto ao Cabo Espichel, onde já não se pode pescar a menos de 200 metros da costa, para a área complementar que tem o porto de Sesimbra como centro. Para a pesca com redes, a variação não foi muito significativa, pois a actividade já estava fora de áreas onde agora há proibições.

Os pescadores ainda não sentem, porém, os efeitos do parque. "Para as capturas que fazemos, não está nada melhor", afirma António Pila, presidente da Associação de Armadores de Pesca Artesanal Local do Centro e Sul.

Efeitos sobre as pescas em si poderão ocorrer se de facto houver sobretudo peixes maiores na zona protegida. Um robalo com 80 centímetros produz 14 vezes mais juvenis do que um com 40 centímetros.

Os estudos até agora realizados sugerem que apenas começa a haver um "efeito de reserva" sobre os peixes. Mas ainda é cedo para lançar foguetes. "O resultado não é espectacular", diz Emanuel Gonçalves. Os trabalhos de monitorização vão continuar pelo menos até 2015. "Temos de esperar mais tempo."