A profecia de Belline

O mago previra que Jacques Anquetil iria perder a vida numa queda mortal na 14.ª etapa, a 6 de Julho de 1964.

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A 5 de Julho de 1964 vivia-se o dia de descanso da 51.ª edição da Volta à França. Para trás tinham ficado 13 dias de um intenso duelo entre Jacques Anquetil e Raymond Poulidor. O primeiro, quádruplo vencedor da prova e camisola amarela das últimas três edições, era mais do que nunca favorito, depois de ter conquistado o Giro. O segundo era o vencedor em título da Vuelta. A dez dias da chegada, os dois estavam praticamente empatados, com 31 segundos a separá-los. A camisola amarela repousava no corpo de Georges Groussard, mas todos sabiam que a vitória não escaparia a um dos dois.

Antes do ataque final aos Pirenéus, Anquetil não estava psicologicamente no seu melhor. A culpa era de uma profecia. Antes do Tour, o mago Belline previra, nas páginas do France-Soir, que "Maître Jacques" iria perder a vida numa queda mortal na 14.ª etapa, a 6 de Julho. A funesta predição mina a confiança do ciclista da Normandia. Para animá-lo, Raphaël Geminiani, o seu director desportivo, decide responder ao convite da Rádio Andorra, que assava um porco no espeto nesse dia.

Apanhados de surpresa, os restantes ciclistas da equipa, alheios às previsões do mago, indignaram-se. Mas Geminiani, com a cumplicidade da mulher do campeão francês, sabia o que fazia. A imagem de Anquetil a comer e a beber um copo de vinho antes de uma etapa decisiva escandalizou a França e espantou os adversários, incrédulos diante de tão grave atentado à dieta desportiva.

No dia seguinte, o quádruplo vencedor do Tour iria pagar o seu porco no espeto, pelo menos num primeiro momento. Nas primeiras rampas do port d"Envalira, Jimenez e Esteban atacam. Mais grave, Bahamontes e Poulidor seguem-nos. A luta está lançada. De longe, Anquetil está em dificuldades, parece prestes a enfrentar a maior derrota da carreira. A refeição da véspera pesa-lhe no estômago. A profecia pesa-lhe na cabeça.

"Desde o início da subida, senti-me desconfortável. Estava a viver um pesadelo. Quando percebi que as coisas não estavam a correr bem, disse-me que o mago tinha razão", contou na noite a seguir à etapa. Ao seu lado, mantém-se o seu colega Louis Rostollan, que tenta levantar-lhe o moral, sem sucesso. A 6km do alto, Anquetil está preparado para desistir. "Estou exausto, vou parar", confessa a Rostollan. "Mas tu chamas-te Anquetil, em nome de Deus", sopra-lhe o seu fiel seguidor.

Nesse momento, o director desportivo passa-lhe um bidon de água, cheio de champanhe. "Ou isso o faz descolar ou é a sua morte", afirma Geminiani. O primeiro francês a ganhar o Giro anima-se, mas no alto está a quatro minutos do grupo de Poulidor. "Perdido por 100, perdido por 1000", deve ter pensado antes de se lançar como um louco na descida. Rostolla, que uns anos antes tinha visto Roger Rivière terminar a carreira no fundo de uma ravina, teme o pior até por causa da neblina. "É verdade, vi a morte", confessaria.

O grupo de Poulidor, que tem tudo a perder, desce com cuidado, enquanto Anquetil continua, frenético, em busca do grupo perseguidor, onde está o camisola amarela. Feita a junção, no fim da descida, parte em busca dos líderes. À entrada de Tarascon, a 75km da chegada a Toulouse, apanha Poulidor e Bahamontes.

O impensável acontece, mas a história não fica por aqui. A 25km da meta, Poulidor, o eterno segundo, parte os raios da roda traseira. Assistido pelo mecânico, parte, mas cai. De novo na bicicleta, perde-se entre os carros das equipas e, quando corta a linha de chegada, já o seu grande rival o tinha feito 2m36s antes. A profecia estava errada. O grande derrotado do dia era "Poupou".

Inconformado, atacou na etapa seguinte, chegando isolado a Luchon, mas nunca pôs em causa a amarela de Anquetil. Geminiani respirava de alívio. O Tour era do seu pupilo. Acabada a prova, o director desportivo prometeu ajustar contas com Belline. "Há uma coisa que não conseguiu prever: a minha visita. Vou enfiar-lhe uma cadeira pela goela. Talvez isso mude o seu prenúncio."
 

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