Crítica

Para acordar os sentidos

Um fluxo de sonho encaminhado para o espectador.

No princípio é o princípio do medo, uma abertura tão incandescente como a de Luz Silenciosa, o filme anterior de Carlos Reygadas em que uma manhã acordava. Porque logo mostra o afastamento irreversível da natureza. Uma criança (filha do realizador, que também é dono dos cães, dos burros e das vacas que atravessam os planos) começa a aprender os nomes e a iniciar-se ao mundo: “vacas!”, “burros!” - como o “toys! toys!” nos Encontros Imediatos do Terceiro Grau, de Spielberg. Só que não há ascensão extraterrestre. E a noite cai. “Mamã”, “Papá”, fala já o medo...


Não é certo o que se passa a seguir em Post Tenebras Lux. Não faz sentido fixar a narrativa, seria tentativa e erro. Mas é justo o sentimento de que tudo o que se segue fala da noite a cair, do afastamento da comunhão que ensopou as sequências iniciais: Post Tenebras Lux é o futuro dessa menina que no princípio (como diz Reygadas em entrevista neste suplemento) pode ser ainda um charco. Mas o filme é já o presente de Juan e de Sete, um ex-patrão e o seu ex-empregado, agora amigos, que vão cumprir uma sangria mexicana: o paternalismo impotente do primeiro, burguês mal sossegado pela new age, a autodestruição do segundo, camponês despojado dos elos com a sua história. Sem reconciliação, sem mistura, cumprindo um desígnio de predação e autofagia.

Os filmes de Reygadas, Japón, Batalha no Céu, Luz Silenciosa, são feitos a partir desta impossibilidade, social, cultural, de comunhão. São filmes de batalhas. O cineasta fala de ausência de um desígnio comum entre mexicanos como legado que a História lhes deixou. Era isso que mostrava já no seu episódio, Este es mi Reino, do filme-mosaico (sobre o falhanço da) Revolucion. Japón, Batalha no Céu colocaram-no sob “suspeita” de exibicionismo choc e de rapina. Depois do silêncio do hermeticamente selado Stellet Licht, a sua obra mais pessoal, arrisca agora uma espantosa libertação da narrativa. Determinante parece ter sido Este es mi Reino, cujos procedimentos se prolongam: não prescindindo da antropologia, da sociologia, da História, da psicanálise - crueldade do mecanismo social, fantasias da sexualidade conjugal, guerras de poder (as misteriosas sequências do râguebi) -, Reygadas parece desviar cenas que pertencem a um fluxo de sonho e pesadelo que se perpetua. E encaminha-as para o espectador. Que as pode receber como manifestação de caos - é possível recusar, e este deve ter sido o seu filme que mais deixa sem palavras rituais de vassalagem. Mas é daqueles filmes que arriscam outra(s) forma(s) de participação, trabalhando os sentidos, a empatia. Râguebi: um dos mistérios (e para alguns fonte de enervamento) do filme - que história essas cenas querem contar? -, a sua inclusão é explicitada por Reygadas (ver entrevista neste suplemento) como exemplo de uma ofensiva das sociedades patriarcais, de jogos de conquista. Não é essa explicação que torna a inclusão justa - porque apenas se conforma a um formato reconhecido. Mas essa explicação apenas acorda o que nós, espectadores, deixámos adormecer por falta de uso. E que hoje coxeia à frente de um ecrã, apoiando-se na “narrativa”. Filmes assim são um exercício para desenvolver a musculatura dos sentidos. Em vez de, como quase todos os outros, os gastar.