O hara-kiri de uma coligação

O Presidente não tem alternativa à convocação de eleições antecipadas. O país também não

Mais do que trágica, a crise política em que o Governo está mergulhado desde segunda-feira é patética. E não tem saída. À demissão dos dois ministros mais importantes do seu Governo, num intervalo de 24 horas, Passos Coelho reagiu ontem, numa declaração ao país na qual ignorou que Vítor Gaspar tenha existido e fez de conta que Paulo Portas não se tinha demitido. O Presidente, pouco antes de dar posse aos novos membros de um Governo que era já coxo, fez profissão de fé de nunca o demitir por iniciativa sua, remetendo esse papel para o Parlamento. O ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros decidiu anunciar a sua demissão com estrondo cinematográfico, declarando ter avisado o primeiro-ministro de que não aceitaria Maria Luís Albuquerque nas Finanças, posição que o primeiro-ministro disse ter acolhido com surpresa.

O Governo morreu, implodido pelas suas contradições internas e pela incompetência de um primeiro-ministro incapaz de o manter coeso. E o Presidente, que deu o seu aval à escolha de Maria Luís Albuquerque quando esta já havia precipitado a saída de Portas, perdeu a face e a pouca capacidade de manobra que lhe restava. Cavaco Silva está a ser arrastado para o fundo por esta crise política. Tal como o país, que pagará um preço enorme pela irresponsabilidade dos líderes do PSD e do CDS, que decidiram suicidar-se politicamente no meio desta crise. Sim, porque não vale a pena ter dúvidas: aquilo a que estamos a assistir é ao hara-kiri de uma coligação. Portas tenta evitar a débâcle e, pelo caminho, procura posicionar-se para um futuro, quem sabe, ao lado do PS. Passos não parece saber o suficiente de política para saber o que fazer.

Mas não vale a pena ter ilusões. O Governo desmoronou-se por ter sido incapaz de se pôr de acordo quanto às reformas estruturais de que o país precisa. Se Passos ainda sonha continuar, é apenas uma questão de tempo até se aperceber da loucura da sua ilusão. Só que o país não pode pagar esse preço. A crise e os desafios que esta impõe tornam a clarificação inevitável. O Presidente terá que voltar com a palavra atrás e convocar eleições, a menos que queira ficar na história associado ao espectáculo ignaro que este Governo está a oferecer. Sendo que não há qualquer margem de manobra para um governo presidencial.

A Europa em pânico com a autodestruição do bom aluno da austeridade terá de aceitar que o caminho das eleições é o único possível. A crise portuguesa terá repercussões pesadas no debate europeu sobre os planos de resgate e reforçará a posição dos que querem deixar os países periféricos entregues a si próprios. A irresponsabilidade de Passos e Portas vai agravar a crise europeia.

O Governo que já tinha entrado em choque com o país destruiu-se a si próprio. Já não tem capacidade nem legitimidade para liderar. Mantê-lo em estado de semivida é agravar o estado de deterioração a que chegou ou deixar que seja a rua a demiti-lo. O Presidente não tem escolha. Nem o país.

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