O primeiro herói caído

A primeira morte da Grande Boucle é um imenso tabu, oculto nas mais diversas obras que contam a história da Volta à França.

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AFP

Olhar profundo, traços latinos, rosto comprido e sorriso desarmante. Assim era Francisco Cepeda, corredor modesto, cujo principal feito desportivo foi chegar na frente ao Galibier, em 1930, atrás do seu compatriota Trueba. Desde esse ano, em três participações - em 1931, foi o único espanhol no pelotão da Volta à França -, nunca chegou a ver o Parque dos Príncipes, ponto de chegada do Tour nesses tempos.

Oriundo da região de Bilbau, era, ao contrário da maior parte dos ciclistas dessa época, proveniente de uma família rica. O pai, industrial, pertencia à "burguesia" basca. Ele, juiz municipal, alimentava a paixão pelo ciclismo, sem esperar qualquer tipo de retorno, fosse monetário ou pessoal. Como dizia o seu pai, "não precisava disso". O "isso" era a modalidade que acabaria por matá-lo.

Estávamos a 11 de Julho de 1935, dia em que se subia e descia o Galibier. Aquela era a Grande Boucle da revolução das jantes de duralumínio. A liga composta de alumínio, cobre, magnésio e manganésio equipava as "máquinas" dos corredores. Substituía as tradicionais jantes em madeira, mais pesadas. Dias antes, durante a segunda etapa, entre Lille e Charleville, os observadores constatam um número inusitado de rebentamentos de rodas. Sob um calor sufocante, os corredores desesperam. Martano, um dos favoritos, cai e abandona.

"Houve rebentamentos, rebentamentos em quantidade incrível, desesperante, desconcertante (...). Rebentavam, sobretudo, nos passeios cicláveis, onde a horrível escória que os cobria dissimulava os inúmeros fragmentos metálicos", descreveu o famoso cronista Raymond Huttier no n.º 833 do Miroir des Sports, de 9 de Julho. A má aderência do adesivo nas jantes de duralumínio sobreaquecidas fazia as suas primeiras vítimas.

O problema agrava-se. Na sexta etapa, o italiano Gestri abandona, vítima de uma queda grave. Um dia depois, Cepeda perde um pneu. Repara prontamente a avaria e junta-se a um pequeno grupo que se encontrava mais à frente. No alto do Galibier, seguia atrasado para a frente da corrida. Juntou-se a Vignoli, um hábil italiano, especialista em descidas. Numa das famosas curvas de um dos pontos míticos do Tour, o espanhol saiu em frente. Sem câmaras, sem testemunhas, conta-se que embateu num espectador, voou pelo ar e caiu de cara no chão, arrastando na queda o companheiro de descida.

Vignoli, com a clavícula partida, desiste. Cepeda, ajudado por alguns espectadores, regressa à sua bicicleta. Instantes depois, as forças abandonam-no e é obrigado a abdicar. Transportado para uma clínica em Grenoble, perde a consciência no caminho. Na caravana, debatem-se teorias, fala-se de um choque contra um carro, da queda por um barranco, do sobreaquecimento das rodas em contacto com o duralumínio, na sequência das inevitáveis travagens sucessivas na descida. O único ponto em que são unânimes é o estado do paciente: fractura do crânio. Morreria três dias depois, sem nunca ter recuperado a consciência.

O corpo do primeiro herói caído do Tour foi recebido na sua terra natal, Sopuerta, por gentes incrédulas. Consternados, os corredores espanhóis dividem-se entre o abandono e a homenagem, decidindo continuar. O gesto foi descrito por Huttier como "um belo exemplo de coragem e abnegação". A 16 de Julho, um dia depois da morte do jovem de 29 anos, o L"Auto, jornal organizador da prova, homenageava o espanhol numa crónica intitulada "Pobre pequeno Cepeda".

A partir desse momento, silêncio. Sobre as causas, as circunstâncias e, inclusive, o facto em si. A primeira morte da Grande Boucle é um imenso tabu, oculto nas mais diversas obras que contam a história da Volta à França.

Nas memórias do ciclista André Leducq nem uma palavra sobre o basco. Na Fabulosa História da Volta à França, de Pierre Chany, fala-se do problema das jantes na segunda etapa, dos sucessivos abandonos, mas nada sobre Cepeda. No número especial de antevisão da But & Club, de 1950, surge a lista de "mártires" da prova francesa desde 1903, mas o pequeno ciclista não consta dela.

Acaso? Não. Na edição especial do L"Équipe, O Tour tem 50 anos, se a página 114, que resume o ano de 1935, enumera as quedas de Magne, Camusso, Lapébie, Merviel ou Di Paco, esquece a morte de Cepeda. Só 50 anos mais tarde, na edição do centenário do mesmo diário desportivo francês, o "historiador" da prova, Serge Laget, recorda o espanhol, sugerindo apenas que este foi "vítima da sua paixão".
 

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