Último capo da Cosa Nostra sugere envolvimento dos serviços secretos no assassinato de juízes

Totò Riina disse que foi abordado pelos serviços secretos, que acusa de envolvimento na morte dos juízes Borselino e Falcone. Refere-se a Andreotti, sete vezes primeiro-ministro de Itália, como um “cavalheiro”.

Foto
Totò Riina Reuters

Meias-palavras com o objectivo de serem ouvidas. As declarações com que Totò Riina, o último grande chefe da Cosa Nostra, quebrou o silêncio são mais uma acha para um dos mistérios da história recente da Itália: a colaboração entre sectores do Estado e a máfia siciliana nos anos 1990, o "pacto com o Diabo", como já foi chamado.

Salvatore Riina, agora com 82 anos, preso há 19, não tem um currículo que faça dele o melhor exemplo de credibilidade: foi condenado pela morte de 150 pessoas, 40 delas pessoalmente. Por isso foi sentenciado a 13 penas de prisão perpétua. Mas os magistrados que estão a procurar esclarecer as negociações mantidas entre 1992 e 1994 entre o Estado e a máfia, para acabar a onda de atentados mafiosos que na época abalou o país, quiseram saber o que disse a agentes que o escoltavam no final de Maio. O relato dessas declarações foi-lhes entregue na segunda-feira.

No trajecto entre a cela de Milão e a sala de videoconferência de um julgamento que está a decorrer em Palermo, o último grande capo escolheu as palavras, com clara intenção de que fossem compreendidas. Disse que foi procurado pelos serviços secretos, deu a entender que agentes estiveram envolvidos na morte dos juízes antimáfia Paolo Borselino e  Giovanni Falcone, que foi traído e que Giullio Andreotti, sete vezes primeiro-ministro de Itália, era um “cavalheiro”.

“Eu não procurei ninguém, eram eles que me procuravam a mim”, disse, segundo a imprensa italiana. Essas palavras foram entendidas como afirmação de que os serviços secretos o abordaram para um cessar-fogo que acabasse com a vaga de atentados.

“Na Via D’Amelio estavam os serviços [secretos]”, afirmou noutra passagem da conversa. “O mesmo vale para a agenda vermelha. Por que não foi recuperada?”. As expressões remetem para os mal esclarecidos casos dos assassínios dos juízes Borselino e Falcone, em 1992. Borselllino foi morto na Via D’Amelio, em Palermo, 57 dias depois do amigo e colega Falcone. Usava uma agenda vermelha. Ambos eram alvos a abater pela máfia.

Riina refere-se também, nas declarações contidas no relato enviado aos magistrados, à sua prisão como uma traição. “Quem me fez prender foram Provenzano e Ciancimino, não os carabinieiri”. Bernardo Provenzano foi o sucessor do chefe na Cosa Nostra, Vito Ciancimino foi presidente da Câmara de Palermo.

Segundo o relato policial, questionado pelos agentes sobre Giullio Andreotti, que foi sete vezes primeiro-ministro de Itália, Riina descreve-o como um “cavalheiro” e diz ter sido sempre da “área andreottiana”.

“A verdadeira máfia são os juízes e os políticos que se protegem entre eles. Eles descarregam a responsabilidade sobre os mafiosos", disse também, segundo o relatório entregue aos juízes, a quem cabe apurar a veracidade e decidir o relevo a dar às declarações. Para já, não decidiram ouvi-lo directamente.

O julgamento de Palermo destina-se a procurar tirar a limpo até que ponto o Governo da época cedeu para acabar com a onda de violência do início dos anos 1990. Com esse objectivo, no mesmo banco dos réus começaram a sentar-se, em finais de Maio, criminosos condenados e responsáveis governamentais. Entre os 12 arguidos está a cúpula da Cosa Nostra – incluindo Riina –, o ministro do Interior da época, Nicola Mancino, e comandantes dos carabinieri.