Generais egípcios dão 48 horas aos políticos para responderem ao povo

Protestos a pedir a demissão do Presidente Morsi já fizeram 16 mortos.

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Amr Abdallah Dalsh/Reuters

Nas palavras do general Abdel Fattah al-Sisi, chefe das Forças Armadas e ministro da Defesa, as manifestações de domingo foram uma expressão “de clareza sem precedentes” da vontade popular. Os manifestantes pedem a demissão do Presidente, o islamista Mohamed Morsi, e a realização de novas eleições. Segundo alguns jornalistas no Cairo, os protestos juntaram mais pessoas do que aquelas que estiveram na rua em Janeiro de 2011, forçando o derrube de Hosni Mubarak.

Na declaração que leu na televisão pública esta segunda-feira à tarde, Sisi sublinhou que, se forem obrigados, os generais assumirão a sua “responsabilidade” e vigiarão a concretização do seu roteiro “com a participação de todas as facções e partidos nacionais, incluindo os jovens”.

As Forças Armadas, de onde saíram todos os Presidentes egípcios até Morsi, chamaram a si o controlo total do país quando Hosni Mubarak foi afastado, e demoraram até aceitar começar a transferi-lo para as autoridades civis entretanto eleitas. A intervenção de Sisi foi aplaudida pelos manifestantes que se concentram junto ao palácio presidencial do Cairo – muitos dos quais terão certamente participado em protestos contra o poder dos militares até à eleição de Morsi.

De manhã, a recém-formada plataforma Tamarod, que junta agora a maioria dos grupos laicos e de esquerda e que marcou a manifestação de domingo, dia em que mais de dois milhões de pessoas se manifestaram contra o Governo islamista, dera até terça-feira a Morsi para se demitir. Se não o fizer, estas formações avisam que vão lançar uma campanha alargada de desobediência civil.

O movimento pedira às Forças Armadas para “se posicionarem claramente ao lado da vontade popular” que dizem estar representada nos protestos. Os membros do Tamarod (Rebelião) garantem ter já reunido 22 milhões de assinaturas numa petição que pede a demissão de Morsi, eleito em Maio do ano passado com 51% dos votos (mais de 13 milhões de eleitores).

A Al-Azhar, principal autoridade do islão sunita, expressou também as suas preocupações, dizendo temer um “novo banho de sangue”. “Seguimos o que se está a passar com extrema inquietação, em particular informações sobre as vítimas e a detenção de traficantes de armas que parecem ter-se infiltrado em manifestações pacíficas.”

Entretanto, quatro ministros e cinco membros da câmara alta do Parlamento já entregaram a sua demissão. Esta câmara é consultiva, mas na ausência de uma Assembleia Nacional em funcionamento (foi dissolvida o ano passado) tem assegurado funções legislativas.

Pelo menos 16 pessoas já morreram na sequência dos protestos de domingo, incluindo oito em confrontos que opuseram opositores e apoiantes de Morsi junto à sede da Irmandade Muçulmana no Cairo.

Os manifestantes acusam o Presidente e a Irmandade de quererem islamizar o Egipto, através da nomeação de islamistas para cargos políticos e para os mais altos lugares da Justiça. E criticam Morsi por não ter cumprido nenhuma das suas promessas: dizem que os abusos de poder por parte das forças de segurança se mantêm, assim como o desemprego e os preços altos e a escassez de alguns produtos, como a gasolina.

“O que está claro hoje é que, embora Morsi tenha sido eleito democraticamente, tem de fazer mais para criar as condições para que cada um sinta que a sua voz é ouvida”, disse o Presidente norte-americano, Barack Obama, de visita à Tanzânia.