A Croácia e a crónica ilusão europeia

A União Europeia ganha hoje um novo membro, mas está longe de resolver os seus velhos problemas

AEuropa parece-se cada vez mais com um dos desenhos da M. C. Escher, daqueles que iludem a óptica de quem distraidamente os olha. Hoje mesmo, dia em que a Croácia se torna o 28.º membro da União Europeia (sem grandes festas, que o tempo não está para isso, como disse ontem o Presidente croata), a ausência de Angela Merkel das cerimónias dá-nos uma nota de sinal contrário. Entra um novo membro, mas a chanceler do membro mais influente estará fora por razões de agenda. Talvez seja mesmo isso e não a simples vontade de não aparecer em Zagreb, mas um jornal croata já classificou tal ausência como "uma bofetada diplomática". E uma bofetada porquê? Talvez porque Merkel, enquanto alimenta na frente de Bruxelas uma guerra pela contenção das despesas públicas nacionais, há-de ver sair dos cofres europeus rumo à Croácia qualquer coisa como 14 mil milhões de euros, destinados a apoiar o desenvolvimento croata até 2020. Isto enquanto a Eslovénia, mesmo ao lado, que entrou no "clube" em 2004, luta para evitar pedir um resgate financeiro que a salve da falência. É esta confusão de movimentos ascendentes e descendentes, no que toca aos apoios e endividamentos no quadro da União, que faz da Europa (que por um lado cresce e por outro se complica na irresolução dos problemas a que esse crescimento a conduz) um bizarro desenho de M. C. Escher, onde geografia e contas em desacerto se misturam sem acerto algum. O escrutínio a que a Croácia foi submetido foi enorme e a vitória dos que, nela, se batiam pela adesão, é digna de relevo. Mas não deixa de ser incómodo que a entrada deste novo membro (semiafastado o peso da guerra da ex-Jugoslávia) coincida com um agravamento dos problemas internos da UE e com um impasse sério quanto ao seu futuro. Ninguém sabe se a União que restará em breve será aquela pela qual lutaram os seus fundadores. Tomara, ao menos, que ela não se revele, afinal, uma ilusão.

Aqui no Governo e lá na oposição

Não é propriamente novidade, a vida dupla que o CDS tem face ao PSD, tratando-se do Governo central ou do Governo Regional da Madeira. Se no continente os centristas são governo, embora com reticências mais ou menos claramente expostas (em relação, por exemplo, às políticas sociais), na Madeira são oposição há décadas e têm como adversário principal o governo de Alberto João Jardim. Ora o mesmo CDS que em Lisboa veio defender publicamente a manutenção de um serviço público de rádio e televisão a nível nacional garante agora que se oporá com todas as suas forças a uma "governamentalização" da rádio e da televisão públicas na Madeira, ou seja, à entrega da RDP-RTP regionais a Alberto João Jardim. O mesmo Alberto João Jardim que vem avisando que "a RTP não é para fechar" (donde lhe terá vindo tal ideia?) mas que a RDP "não pode ser um panfleto político". Como encarará Passos Coelho o que lhe vai dizer Paulo Portas?

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