Coimbra: Uma interminável galeria de ilustres

A lista de personalidades da Universidade de Coimbra, classificada património da humanidade pela UNESCO, dava um dicionário em vários volumes.

Durante séculos, a Universidade de Coimbra (UC) preparou, quase sem concorrência, as elites políticas, administrativas, culturais e científicas do país. Este monopólio do ensino superior, atenuado com as escolas politécnicas nascidas da revolução liberal, só veio a desaparecer após a implantação da República, quando foram criadas, em 1911, as universidades de Lisboa e Porto. Mas basta pensar na quantidade de governantes do Estado Novo, a começar pelo próprio Salazar, que compulsaram as sebentas coimbrãs, para se verificar que a influência da UC não abrandou com o fim da I República e que o rol das personalidades de relevo da vida pública portuguesa que passaram pela UC continuou (e continua) a expandir-se a bom ritmo.

Daí que o propósito deste texto - propor uma espécie de galeria de ilustres da Universidade de Coimbra - seja bastante incompatível com as limitações de um artigo de jornal. E não apenas pela previsível extensão da lista, ou pela investigação necessária para se garantir que não haveria ausências escandalosas, mas também pela complexidade dos critérios envolvidos. Se a escolha dos nomes seria sempre controversa, a primeira questão a resolver está a montante e pode formular-se assim: desde 1290, quando D. Dinis criou em Lisboa o Estudo Geral, a que exacta realidade foi correspondendo, em épocas sucessivas, a designação Universidade de Coimbra? A resposta não é óbvia.

Ao longo da Idade Média, a Universidade andou, como se sabe, a saltitar entre Lisboa e Coimbra. E quando D. João III a fixou definitivamente junto ao Mondego, em 1537, estava já há 160 anos em Lisboa. Mas pode argumentar-se que a instituição era a mesma e que o rei se limitou a transferi-la. Ora, como essa espécie de "universidade portuguesa" acabou por ser, e é ainda hoje, a Universidade de Coimbra, não é absurdo propor, retrospectivamente, que a sua história integre o período lisboeta.

A aceitar-se o argumento, a lista de ilustres não poderia dispensar nomes como o do poeta Sá de Miranda (1481-1558), que tendo nascido em Coimbra e estudado Humanidades em Santa Cruz, cursou Leis em Lisboa, ou o do médico, farmacólogo e botânico Garcia de Orta (1501-1568), que antes de partir para Oriente, e de publicar o célebre Colóquio dos simples e drogas e coisas medicinais da Índia, foi professor de Filosofia Natural em Lisboa.

Recuando ainda mais, poderíamos repescar Judá Abravanel, dito Leão Hebreu, judeu nascido por volta de 1460, que cursou Medicina em Lisboa antes de se envolver numa conjura contra D. João II, que o obrigou a fugir para Espanha, e depois para Itália, onde publicou, em 1535, uns Diálogos de Amor que influenciariam Espinosa.

Século de ouro

Se pode ser discutível contabilizar a benefício de Coimbra os períodos em que o suporte físico da instituição esteve em Lisboa, já parece bastante legítimo assumir-se que, no século XVI, os colégios crúzios e o Real Colégio das Artes eram parte integrante da Universidade de Coimbra. A instalação de estudos de humanidades no mosteiro de Santa Cruz, a criação dos referidos colégios, na Rua da Sofia, e a transferência da Universidade de Lisboa para Coimbra são peças de uma mesma reforma.

E quase apeteceria ver como uma espécie de extensão da universidade portuguesa o colégio parisiense de Santa Bárbara, dirigido por Diogo de Gouveia, o Velho, que funcionou como um enclave luso na Universidade de Paris, recebendo bolseiros portugueses, mas também alunos de outras nacionalidades, como os fundadores da Companhia de Jesus, Inácio de Loyola e S. Francisco Xavier, ambos de Navarra.

Quando D. João III decidiu dotar Coimbra de um ensino universitário de nível europeu, foi buscar um luxuoso elenco de professores portugueses e estrangeiros. Muitos vieram do colégio de Santa Bárbara, outros chegaram com André de Gouveia, que dirigia o colégio de Guyenne, em Bordéus, e que o monarca convidou para organizar o seu novo Colégio das Artes.

O rei português espelhou as contradições do seu tempo. Se o seu projecto original para a UC é influenciado pelos ideais humanistas e laicizantes - o próprio Erasmo escreveu, em 1527, uma carta em louvor do soberano português -, D. João III alinhará mais tarde com a ortodoxia da contra-reforma católica, permitindo que vários professores sejam importunados pela Inquisição e entregando o Colégio das Artes, em 1555, à Companhia de Jesus.

Estes sobressaltos não impedem, todavia, que o século XVI seja um período áureo da UC, que talvez nunca mais tenha voltado a dispor de um elenco de professores com o prestígio internacional de que gozava a generalidade dos seus mestres quinhentistas.

Para Carlos Fiolhais, professor catedrático de Física na Universidade de Coimbra, o mais importante dos cientistas do século XVI que passaram pela UC é um alemão: Christopher Clavius (1538-1612). "Foi o astrónomo mais famoso do século XVI, muito mais conhecido do que Copérnico e Galileu, que não teria sido quem foi sem o seu impulso", diz. O alemão manteve-se fiel ao sistema de Ptolomeu, o que não favoreceu a sua glória póstuma, mas deve-se-lhe uma reforma de consequências perenes: a introdução do calendário gregoriano.

Entre os portugueses, Fiolhais propõe o matemático Pedro Nunes (1502-1578), inventor do nónio e de outros instrumentos para uso náutico, cujos trabalhos contribuíram decisivamente para o desenvolvimento da navegação e da cartografia. Era quase certamente judeu, mas o seu prestígio junto de D. João III era o bastante para que este lhe tenha confiado a educação dos seus irmãos mais novos, e depois a do seu neto, e futuro rei, D. Sebastião.

"Foi professor em Lisboa, e quando a Universidade se mudou, em 1537, veio ensinar para Coimbra", explica Fiolhais, acrescentando que a fama do matemático se ficou a dever muito a Clavius, que "fundou uma escola de matemática em Roma e ali propagandeou os escritos de Pedro Nunes".

Um dos alunos de Clavius no dito colégio romano foi Matteo Ricci (1552-1610), um pioneiro do diálogo entre a Europa e o Oriente. Veio a Coimbra para aprender português antes de partir para Goa, numa missão jesuíta, e seguiu depois viagem para Macau e para a China, tendo compilado o primeiro dicionário de Chinês-Português. O Museu do Milénio, em Pequim, só inclui dois estrangeiros entre os "grandes da história da China": Ricci e Marco Polo.

Parisienses vs. bordaleses

Recuando aos primeiros anos de instalação da Universidade em Coimbra, não se pode esquecer o notável grupo de humanistas que ali se reuniu, a começar pelo pedagogo André de Gouveia (1497-1548), que morreu pouco depois de assumir a direcção do Colégio das Artes. O seu trabalho em Bordéus fora tão apreciado que Montaigne o considerou "sans comparaison le plus grand principal de France". Chegou a ser reitor da Universidade de Paris. Quando D. João III o convida a dirigir o Colégio das Artes, o seu tio Diogo Gouveia opõe-se. Já então se afastara do sobrinho, que acusava de luteranismo. Essa luta entre a escola teológica de Paris e o erasmismo cultivado em Bordéus irá reflectir-se em Coimbra, onde os professores "parisienses" se incompatibilizarão com os "bordaleses" trazidos por André de Gouveia.

Um desses "bordaleses" é o humanista Diogo de Teive (1514-1569), dramaturgo e autor de ensaios históricos e filosóficos, que chegou a ser preso pela Inquisição, mas regressou depois ao ensino. Também é certo que estudou em Coimbra o português Aquiles Estaço (1524-1581), secretário do papa Pio V e autor de uma vasta obra em latim. E na UC se doutorou em Cânones o grande discípulo de Sá de Miranda, António Ferreira (1528-1569), autor da tragédia A Castro.

Outro nome incontornável é o do dominicano e professor de humanidades André de Resende (c.1500-1573), especialista na antiguidade grega e romana e pioneiro da arqueologia.

Dobrada a metade do século, começa a impor-se a influência dos jesuítas. Um dos homens que persuadiu D. João III a trazê-los para Portugal foi o teólogo Jerónimo Osório (1506-1580), que alcançara grande prestígio em França e que veio a ser professor de Sagrada Escritura em Coimbra.

Mas a grande figura da segunda metade do século XVI é o filósofo jesuíta Pedro da Fonseca (1528-1599), conhecido como "Aristóteles português". Professor do Colégio das Artes, os seus comentários à metafísica aristotélica foram lidos por toda a Europa e precederam o trabalho dos chamados Conimbricenses, redactores do Curso Conimbricense, que teve sucessivas edições estrangeiras e foi lido por Descartes. "Leu, não gostou, e se calhar foi por isso que fundou a ciência moderna", comenta, com humor, Fiolhais.

Já na passagem para o século XVII, é ainda forçoso lembrar o filósofo espanhol Francisco Suárez (1548-1617), que ensinou em Coimbra a partir de 1597. Suárez foi uma figura central da chamada Segunda Escolástica e uma autoridade em direito internacional, antecipando Grotius.

De cábula a reformador

No século XVII, marcado pelo domínio filipino e pelas guerras da Restauração, os nomes mais óbvios são os dos professores de Filosofia Francisco Soares (1605-1659), dito Soares Lusitano para se distinguir do homónimo espanhol, e António Cordeiro (1640-1722). Nenhum deles se afastou da tradição aristotélica- -tomista, mas ambos acusam já a influência cartesiana.

Frei Francisco Brandão (1601-1680), cronista-mor de D. João IV, o poeta barroco António Barbosa Bacelar (1610-1663) ou o diplomata D. Luís da Cunha (1664-1773), cujo progressismo iluminista prenuncia Pombal, são outras figuras seiscentistas que passaram pela UC. E pode ainda somar-se-lhes o poeta satírico brasileiro Gregório de Matos (1636-1695), que ali se formou em Cânones.

Dado que, muito antes de ostentar o título de marquês de Pombal e de impor à Universidade a sua mais profunda reforma desde os tempos de D. João III, o jovem e turbulento Sebastião José de Carvalho e Melo (1699-1782) ainda frequentou Direito em Coimbra, ao que parece sem grande aproveitamento, não haverá escolha mais óbvia para abrir a lista de ilustres do século XVIII.

Na ciência, merece ser lembrado o italiano Domenico Vandelli (1735-1816), fundador do Jardim Botânico da UC, que viria a ser dirigido pelo grande botânico português Félix de Avelar Brotero (1744-1828), autor de uma monumental Flora Lusitânica.

O final de Setecentos é também um período em que frequentam a UC muitos brasileiros e luso-brasileiros que se tornarão figuras de relevo em diversos domínios, do poeta Tomás António de Gonzaga (1744- 1810) ao estadista José Bonifácio de Andrada e Silva (1763-1838), patriarca da independência, que cursou em Coimbra Direito, Matemática e Filosofia Natural.

O homem que imaginou a TV

No século XIX, não proliferam os grandes cientistas. Devem mencionar-se, ainda assim, o matemático Francisco Gomes Teixeira (1851-1933), catedrático de Análise Matemática em Coimbra e, mais tarde, primeiro reitor da Universidade do Porto, e Adriano Paiva Brandão (1847-1907), um sobredotado que, aos 20 anos, estava já formado em Matemáticas e doutorado em Filosofia. Foi também um precursor da invenção da televisão. Acreditava ser possível transmitir imagens animadas à distância e foi o primeiro a propor, em 1878, o uso de selénio para esse efeito.

Na área das humanidades, refiram-se Vicente Ferrer de Neto Paiva (1798-1886), introdutor do krausismo em Portugal e referência para sucessivas gerações de juristas, e a filóloga alemã Carolina Michaëlis (1851-1925), primeira mulher a leccionar numa universidade portuguesa.

Pelos bancos de Coimbra passaram também muitos políticos do liberalismo, como Mouzinho da Silveira (1780-1849), talvez o mais importante legislador do seu tempo, ou Joaquim António de Aguiar (1792-1884), dito Mata-Frades, três vezes chefe de Governo.

Mas o principal contingente de notáveis vem da literatura. Ao longo de todo o século XIX, e a começar em Almeida Garrett (1799-1854), não há quase escritor de mérito que não tenha frequentado a UC. E alguns até exageraram, como o poeta João de Deus (1830-1896), que por lá andou dez anos na boémia, até os seus colegas o obrigarem a concluir o curso de Direito.

Em Coimbra estudaram os protagonistas da Questão Coimbrã, Feliciano de Castilho (1800-1875) e Antero de Quental (1842-1891), e também Eça de Queirós (1845-1900), que se matriculou em Direito aos 16 anos, Guerra Junqueiro (1850-1923), o poeta mais popular da sua época, e o próprio Cesário Verde (1855-1886), que durante alguns meses ali cursou Letras. E, claro, António Nobre (1867-1900), que não se deu bem com a vida estudantil. Nascido no mesmo ano que Nobre, Camilo Pessanha (1867-1926), expoente máximo do simbolismo português, também se formou na UC antes de rumar ao Oriente. Era natural de Coimbra e deixou ao museu Machado de Castro uma importante colecção de arte chinesa. Já o poeta Eugénio de Castro (1869-1944) chegou mesmo a ensinar na UC, onde se formara.

E não se poderia fechar o século XIX sem lembrar Augusto Hilário (1864-1896), autor do Fado Hilário, que morreu antes de concluir o curso de Medicina.

Escola de presidentes

Chegados ao século XX, há que apertar critérios ou a lista nunca mais acaba. Desde logo, excluem-se os vivos, que tendem a ser bastante mais susceptíveis do que os mortos, e assim se poupa espaço e sarilhos.

Começando pelos políticos da I República, refiram-se apenas alguns dos que chegaram à presidência da dita. Teófilo Braga (1843-1924), presidente do governo provisório que saiu do 5 de Outubro, ainda foi por um breve período Presidente da República (PR) em substituição de Manuel de Arriaga (1840-1917), o primeiro a ser eleito para o cargo. Ambos estudaram Direito e conciliaram a política com uma apreciável obra literária. Já Bernardino Machado, que foi duas vezes presidente, cursou Matemática e Letras e ensinou na UC. António José de Almeida (1866-1929), o sexto PR, formou-se em Medicina, e Sidónio Pais (1872-1918), o "presidente-rei", como lhe chamou Pessoa, era matemático e ensinou Cálculo Diferencial e Integral.

Se este foi um período em que os presidentes da República falavam em português escorreito e escreviam com desembaraço, o sucessor de António José de Almeida, Manuel Teixeira Gomes (1860-1941), autor de Novelas Eróticas, foi, ainda assim, um caso excepcional de talento literário.

Saltando para o Estado Novo, a primeira geração de dirigentes formou-se quase toda em Coimbra. A representar o regime, refiram-se duas figuras-chave: o próprio António de Oliveira Salazar (1889-1970), que se formou em Direito na UC e ali veio a ser professor catedrático de Economia Política e Finanças, e o seu amigo Manuel Gonçalves Cerejeira (1888-1977), cardeal patriaca de Lisboa, que também estudou e ensinou na UC. A Universidade pode ainda congratular-se por ter formado (em Direito) o diplomata que não hesitou em desobedecer a Salazar para salvar milhares de judeus, o hoje mundialmente célebre Aristides de Sousa Mendes (1885-1954).

O assistente de Mme. Curie

Dos cientistas do século passado que estudaram e ensinaram em Coimbra, o mais conhecido é Egas Moniz (1874-1955), Nobel da Medicina em 1949, que ensinou em Coimbra antes de se mudar, em 1911, para a recém-criada Universidade de Lisboa.

Também médica, além de poetisa, professora e política, Domitila de Carvalho (1871-1966) tornou-se, em 1891, a primeira mulher a ser admitida na Universidade de Coimbra. Para a deixar passear-se nos varonis corredores das instituição, o reitor impôs uma condição: que vestisse sempre de preto e usasse chapéus discretos.

Na matemática, Carlos Fiolhais lembra Aureliano de Mira Fernandes (1884-1958), que "introduziu a teoria quântica em Portugal". Outro matemático formado em Coimbra, Ruy Luís Gomes (1905-1984), foi um destacado lutador antifascista. O regime expulsou-o do ensino, mas após o 25 de Abril de 1974 regressou e tornou-se reitor da Universidade do Porto. Outros cientistas foram afastados da universidade durante a ditadura, como o brilhante Mário Augusto Silva (1901-1977), que foi assistente em Paris de Marie Curie e que, regressado ao país e perseguido pelo regime, chegou a vender vinhos para sobreviver.

Lembrem-se ainda Aurélio Quintanilha (1892-1987), professor de Botânica Médica, cujos trabalhos em torno da biologia dos fungos e da cultura do algodoeiro lhe granjearam renome internacional, e o grande renovador da geografia em Portugal, Orlando Ribeiro (1911-1997), autor de Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico.

Na historiografia, citem-se Jaime Cortesão (1884-1960), grande historiador dos Descobrimentos, que se formou em Medicina na UC, e o organizador da monumental História de Portugal dita de Barcelos, Damião Peres (1889-1976).

Joaquim de Carvalho (1892-1958), professor de Filosofia na UC e mestre de Eduardo Lourenço, Paulo Quintela (1905-1987), docente de Filologia Germânica e grande tradutor de Rilke e de outros poetas alemães, o linguista Rebelo Gonçalves (1907-1982), autor do Vocabulário da Língua Portuguesa, e o recém-falecido linguista e historiador da literatura Óscar Lopes (1917-2003), que se formou em Histórico-Filosóficas em Coimbra, são outros nomes óbvios nas Letras.

Duas excepções

Como no século XIX, a selecção mais complexa é a dos escritores. Seguem os nomes de alguns que, pela sua qualidade, pela sua notoriedade, ou por ambas, não destoarão nesta lista: Teixeira de Pascoaes (1877-1952), fundador da Renascença Portuguesa; o poeta Afonso Duarte (1884-1958), formado em Ciências Físico-Naturais; Mário de Sá-Carneiro (1890-1916), que ainda frequentou o 1.º ano de Direito antes de transferir o seu desespero para Paris, onde sempre se podia ter "um fim mais raffiné"; o injustamente esquecido António de Sousa (1898-1981), poeta portuense de origens açorianas que se perdeu por Coimbra e que é o autor dos célebres versos "Do Choupal até à Lapa/ foi Coimbra os meus amores"; Vitorino Nemésio (1901-1978), outro açoriano, foi professor em Lisboa durante quase toda a vida, mas ficou de tal modo preso a Coimbra que ali quis ser enterrado; José Régio (1901-1969), fundador da Presença, licenciou-se em Filologia Românica, em 1925, com uma tese que valorizava dois autores então nada reconhecidos: Fernando Pessoa e Sá-Carneiro; Tomaz de Figueiredo (1902-1970), cuja passagem por Coimbra lhe deu material para o notável romance Nó Cego; Miguel Torga (1907-1995), pseudónimo do médico Adolfo Rocha, que publicou o primeiro livro de poemas, Ansiedade, no mesmo ano (1928) em que se matriculou na UC; Vergílio Ferreira (1916-1996), que ali se formou em Filologia Clássica; Fernando Namora (1919-1989), cujos livros foram muito populares no pós 25-de Abril; o original prosador de A Torre da Barbela, Ruben A. (1920-1975); o poeta e ficcionista Carlos de Oliveira (1921-1981), nome cimeiro do neo-realismo; Ruy Belo (1933-1978), que iniciou os seus estudos de Direito na UC; Fernando Assis Pacheco, natural de Coimbra, que ali se formou em Filologia Germânica, e sem excessivo entusiasmo: "(...) eu estava farto daqueles alimões quaisqueres/ ilustres por coisa nadíssima nas antologias"; ou ainda o poeta Manuel António Pina (1943-2012), prémio Camões em 2011, que era formado em Direito por Coimbra.

E feche-se esta nada canónica galeria de ilustres com José Afonso (1928-1987) e Adriano Correia de Oliveira (1942-1982), em representação da riquíssima tradição musical associada à UC.

Ou talvez não se feche ainda. Rompendo a promessa inicial de ignorar os vivos, há dois de que esta lista não lhe apetece, afinal prescindir. Mas os méritos de ambos são tão consensuais que a excepção à regra não escandalizará ninguém. O primeiro é o filósofo e ensaísta Eduardo Lourenço, que se licenciou em Histórico-Filosóficas, em 1946, e foi depois assistente de Joaquim de Carvalho. Antes de partir para França, onde conciliaria o ensino com a criação de uma das mais singulares obras do pensamento português contemporâneo, ainda publicou em Coimbra o seu livro de estreia: Heterodoxia. A segunda é a grande classicista Maria Helena da Rocha Pereira, incansável tradutora e comentadora de autores gregos e romanos, e professora, durante décadas, da Universidade de Coimbra, onde foi catedrática de Literatura Grega.