Reportagem

“Para onde vamos? Não sei”

Em dia de greve geral, Lisboa assistiu a manifestações organizadas pelas centrais sindicais mas marcou passo na adesão do povo, que se acumulou, em horas de ponta, nas paragens dos autocarros.

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O 760 não vai cheio, mas avança em marcha lenta na direcção da Praça da Figueira. Um passageiro grita contra a polícia que aparece em pequenos grupos, do outro lado do vidro, na Rua da Prata. Outros passageiros elevam a voz contra a austeridade, contra as barrigas de alguns agentes da PSP, contra o trânsito, contra a greve, ou a favor dela.

"A política discute-se no Parlamento, não no autocarro", replica uma passageira da Carris, queixando-se de dores de cabeça. O autocarro chega por fim à Praça da Figueira, onde já se avistam as bandeiras vermelhas da CGTP, que se dirigem para o Rossio.

A concentração não cede ao calor e ao sol ardente que queima a pele dos manifestantes. Os jovens das juventudes partidárias recorrem aos protectores solares, os mais velhos preocupam-se com a protecção das cabeças.
"Deixa estar que já te arranjo um barrete", ouve-se dizer entre a multidão que se prepara para subir a colina do Chiado na direcção de São Bento.

Chegam cada vez mais, de bicicleta, a pé, nos autocarros que circulam. Alguns de táxi. Bandeiras, cartazes e folhetos proliferam no Rossio.

As palavras de ordem saem com mais força pelas bocas dos precários: "Fora, fora já daqui. A fome, a miséria e o FMI." Outras relembram a luta internacional, o Brasil e a Turquia.

Sindicatos, associações e alguns particulares circulam, esperando o momento de saída. Alguns afinam gargantas com cervejas frescas, outros, sentados na borda da fonte, sentem os borrifos frescos da água na pele.

Os turistas, curiosos, tiram fotografias, aproximando-se. Há quem venda nougat, há quem se disfarce de Zé Povinho, quem pose para as inúmeras câmaras com suas faixas e cartazes reivindicativos.

São 14h50 e Arménio Carlos acaba de chegar. Daqui a uns minutos partirá o protesto, colina a cima, rumo à Assembleia da República. Gritam: "Só mais um empurrão e o Governo vai ao chão." E avançam, empurrando o protesto, gritando, acreditando, tendo como adversário principal o sol ardente.

Um “cartão vermelho” ao Governo
Junto ao Ministério das Finanças, paredes meias com a paralisada estação dos barcos do Terreiro do Paço, reúnem-se os sindicatos e associações da UGT.

As bandeiras esvoaçam, gigantes, com o vento que se faz sentir junto ao rio. Aqui não está tanto calor como no Rossio, mas a música, ruidosa, apela à intervenção. Há quem espere o secretário-geral, Carlos Silva, para que este discurse, alto e bom som para todos ouvirem. Dali não arredarão pé, porque esta foi a concertação a que chegou a UGT, por isso, não haverá qualquer marcha até à Assembleia da República.

José Batista da Silva, de 56 anos, de T-shirt vermelha, representa os profissionais dos Correios e veio, nesta tarde de quinta-feira, juntar a sua voz às dos restantes manifestantes: “É um crime nacional o Governo estar a vender uma empresa como esta, que é uma das melhores empresas de correios do mundo”, conta o funcionário ao PÚBLICO. Trabalha há 30 anos nos CTT e sente-se revoltado com a potencial privatização da empresa, quando esta dá “tanto lucro ao Estado”. Está esperançado que o Governo oiça o protesto da UGT, bem como a revolta generalizada do país que ficou, em parte, paralisado devido à greve geral.

José Batista da Silva diz que os resultados da greve representam uma “amostragem de um cartão vermelho ao Governo” e espera que o primeiro-ministro reconsidere as medidas que tem imposto nos últimos tempos, porque se não reconsiderar, “o povo, nas próximas eleições, irá, historicamente, dar-lhe uma derrota como nunca viu”. Por hoje, vêm tentar incomodar Vítor Gaspar à porta do seu ministério: “Nós preferimos vir aqui fazer barulho em frente ao senhor silencioso, para ver se ele nos consegue ouvir. Mas acho que o ministro não vai ouvir ninguém porque além de ser um senhor silencioso é muito teimoso também.”

"Não precisamos de líderes"
Aos pés da Assembleia da República, o clima, embora quente, está sereno. A CGTP proferiu o seu discurso, como de habitual, e dispersou, também como de habitual, finda a intervenção de Arménio Carlos.

Nesta tarde de quinta-feira, São Bento parece uma amostra de “povo pouco interventivo”, no dizer de uma empregada brasileira de uma pastelaria nas cercanias do Parlamento. A empregada insiste que a turba que passou para cima “não é nada”, quando se compara com os protestos que estão a passar-se no Brasil há mais de duas semanas.

Mas no cenário habitual dos manifestantes que permanecem por ali, encostados a muros e sentados na calçada, nem tudo está assim tão calmo. Há um homem a agitar uma bandeira preta com uma letra “a” branca, que parece convidar os manifestantes, algo apáticos, para uma marcha rua de São Bento acima. Um grupo de jovens toca vários instrumentos de percussão, num ritmo que faz lembrar o samba carioca. São as expressões graves dos músicos e do homem que agita a bandeira que parecem convencer os que por ali ficaram, depois do desembocar da manifestação da CGTP, a seguir o protesto improvisado.

As pessoas começam a engrossar a fileira, que já escorre pela rua de São Bento, ao som dos apitos e dos tambores. O “maestro” do movimento caminha, de marcha atrás, dando indicações aos músicos. “Para onde vamos?”, pergunta alguém, no meio da marcha. “Não sei” é a resposta que se ouve um pouco por todo o lado. “Não faço ideia para onde vamos, como não acontecia nada ali no Parlamento, resolvemos seguir este protesto”. Porquê? “Porque sou professora.” E está tudo dito.

Ruídos fortes denunciam que os ânimos se começam a exaltar. Alguns dos manifestantes, que envergam as máscaras ou que tapam as caras, começam a pontapear uma vedação metálica que cobre um edifício demolido na rua de São Bento. “A rua é nossa”, começa a gritar-se.

O protesto está quase a chegar ao Largo do Rato. O homem da bandeira preta chama-se Ruben e tem 28 anos. Encabeça o colectivo, embora diga, de modo entusiasmado, entre palavras de ordem, que não existem líderes naquele movimento. “Somos homens e mulheres de uma esquerda não partidária”, informa Ruben. Pertence ao Colectivo Acção Antifascista. Assumem-se como anarquistas e anticapitalistas. Admite que o protesto não é completamente espontâneo porque já tinha sido pensado no dia anterior pelo Colectivo. “Isto não está autorizado, queremos desafiar as autoridades”, revela Ruben.

Querem chamar a atenção para um país que não precisa de ser governado: “Nós não queremos substituir o Passos Coelho pelo Jerónimo de Sousa. Não precisamos de líderes”, reforça. O objectivo da marcha, conta, é virar à esquerda, na Avenida Álvares Cabral, e voltar à Assembleia. Mas não é isso que sucede, uma vez chegados ao Rato. O grupo segue em frente pela rua D. João V, na direcção das Amoreiras. Durante o trajecto, Ana Farinhas, de 32 anos, também não faz ideia para onde o grupo segue, mas garante que o seguirá até lhe doerem as pernas. É bolseira de Biologia na Faculdade de Ciências e está ali para protestar em nome de todos os bolseiros: “O que nos revolta são os nossos contratos inexistentes e a exclusividade, quando não temos sequer contrato”, explica Ana, que não está muito preocupada com o que possa acontecer na rua, caso a polícia intervenha.

Três polícias de trânsito seguem o protesto de mota, enquanto se entoam palavras de ordem e, por um momento, se cantam os parabéns a um manifestante. São cerca de duas centenas de pessoas, sem bandeiras sindicais, que seguem um grupo de músicos e um homem que agita uma bandeira preta.

Por trás das famosas máscaras que têm representado os milhares de protestos por todo o mundo, os jovens convidam os automobilistas, com quem se cruzam, a sair dos carros e a juntarem-se-lhes. São quase seis da tarde, e nas Amoreiras, os transeuntes olham, atónitos para a marcha que interrompe o trânsito, na direcção da Ponte 25 de Abril. “Para onde vamos?”, pergunta, de novo, alguém. “Não sei”, respondem. A dúvida subsiste. Ter-se-á o homem da bandeira preta enganado no caminho de volta para a Assembleia?