Cartas à directora

Greve dos professores

Há cerca de uma década emiti aqui neste mesmo espaço a opinião de que os professores "não têm classe", remetendo o teor da asserção para o fenómeno da nebulosidade de interesses e posturas nos profissionais da docência. Medidas que a tutela então empreendia e que a uns pareciam prejudicar, a outros pareciam nada dizer.

Com o tempo, foi-se reparando que as intenções revanchistas dos sucessivos ministros da Educação, embora trajadas de meias medidas, acabavam por a todos afectar. Basta pensar no aumento do número de alunos por turma, na degradação do mester de ensinar e no incessante movimento de perda salarial, seja por via dos cortes no vencimento, seja pela via dos congelamentos escalonais. Mais tarde escrevi outra opinião onde afirmava a existência do operariado, para o que aduzi um rol de argumentos.

Pois bem, a participação maciça dos professores na greve ao exame de Português foi um histórico brado operário. Eu estou nesta luta, porque quero dizer basta a este modo de andar às arrecuas. Quem não for digno de olhar para a frente e fazer jus aos predecessores, que desista e deixe tomar a liderança quem acha que para a frente é que é o caminho.

Bem hajam os professores. No meu trabalho, eles organizam-se em actos de luta e de solidariedade com vista ao suporte de um movimento de greve às avaliações. Bem haja quem luta, porque dos outros não rezará a história. As justificações que alguns colegas aduzem para ocuparem a margem da luta alimentam o inventário pitoresco e nada mais. Um pobre operário de antigamente fazia greve num dia e no outro passava fome. As colectas desenvolvidas em algumas escolas fazem justiça aos mártires da história do sindicalismo, que é também ela história da humanidade. Agora, largar num pé o que gerações sucessivas alevantaram à força de canseiras, padecimentos, imolações e martírios, é, tal como a liderança política, não estar à altura da herança.

P.S.: Informar que um sindicato é um órgão de luta por natureza; de esquerda, por natureza; de defesa dos mesquinhos, por natureza. Outro tipo de organização remete para o corporativismo do Antigo Regime ou do Estado Novo.

Augusto Pereira, Santo Tirso