Putin desafia Washington e recusa extraditar Edward Snowden

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EUA continuam a pressionar a Rússia para que entregue o fugitivo norte-americano MAXIM SHEMETOV/REUTERS

Presidente russo confirmou que o consultor informático norte-americano estava na área de trânsito do aeroporto de Moscovo.

O jogo do gato e do rato continua: Edward Snowden, o norte-americano que foi consultor da agência de espionagem NSA e é acusado de crimes de espionagem e roubo de informação, estava ontem na zona de trânsito internacional do Aeroporto de Sheremetyevo, em Moscovo, disse o próprio Presidente russo. Mas nenhum dos muitos jornalistas que corriam o aeroporto à sua procura o tinham visto.

Não entrou em território russo, como tinha dito antes o ministro russo dos Negócios Estrangeiros numa versão tecnicista da verdade, nem cometeu qualquer crime na Rússia, afirmou ainda Putin, esclarecendo que a Rússia não o extraditará para os EUA.

Putin disse que não quer ter muito a ver com o caso, acrescentando que espera que Snowden saia rapidamente do aeroporto moscovita. Isto quando jornalistas apontaram que ninguém se deveria manter mais de 24 horas na zona de trânsito internacional, sendo esperado que os passageiros tivessem bilhete para a viagem seguinte.

Seguindo a linha de se defender agressivamente das acusações norte-americanas contra a Rússia, dizendo que eram "falsas e disparatadas", Putin decidiu falar um pouco sobre o caso de Snowden e mencionar também o do fundador da WikiLeaks, Julian Assange, que está refugiado na Embaixada do Equador em Londres (a WikiLeaks está a ajudar Snowden e uma colaboradora próxima do fundador da organização estará a viajar com ele).

"Assange e Snowden consideram-se activistas de direitos humanos e dizem que lutam pela disponibilidade da informação", disse Putin. "Façam a vocês próprios esta pergunta: devem estas pessoas ser entregues para que sejam presas?" Nada que o Presidente russo queira aprofundar: "Preferia não lidar com estas questões, porque é como tirar lã a um porco: muita gritaria, mas pouca lã", declarou.

Esperava-se que Snowden tivesse partido de Moscovo na segunda-feira, num voo para Caracas, e daí viajasse para o Equador, a quem pediu asilo. Mas quando as portas do avião fecharam, os jornalistas que tinham marcado a viagem para o apanhar não o viram.

Chegada "inesperada"

A "caça" a Snowden, que tinha começado, nas palavras da senadora norte-americana Dianne Feinstein, com a sua saída de Hong Kong, não era assim exclusiva das autoridades de Washington.

Uma série de jornalistas corriam o Aeroporto de Sheremetyevo à procura de Snowden; um fotojornalista da Reuters ironizava publicando uma foto do Terminal D com uma dúzia de passageiros ao longe, perguntando: "Aqui está a vossa hipótese. Onde está Snowden?".

Putin acrescentou que os serviços secretos russos não tiveram qualquer contacto com Snowden e que a sua chegada tinha sido "inesperada".

O chefe da diplomacia russa, Sergei Lavrov, tinha negado ainda antes qualquer ligação entre a Rússia e Edward Snowden e tinha considerado "inaceitáveis" as acusações de Washington contra Moscovo. "Não temos nenhuma ligação com Snowden, nem com as suas relações com a Justiça americana, nem com as suas deslocações pelo mundo", disse em conferência de imprensa.

OS EUA disseram esperar que a Rússia cumprisse "a lei" e entregasse Snowden, acusado por Washington por três crimes, por ter divulgado documentos que expõem um vastíssimo programa de vigilância electrónica da NSA, arriscando 30 anos de prisão no seu país. Putin disse que Snowden não tinha cometido qualquer crime na Rússia e era "um cidadão livre". Os EUA ripostaram que havia "uma base legal sólida" para que as autoridades russas o detivessem e entregassem aos EUA.

Numa entrevista ao South China Morning Post ontem publicada, Snowden disse que tinha tentado obter um trabalho na Booz Allen Hamilton, empresa que trabalhava para a NSA, justamente para juntar provas sobre a escala da vigilância secreta norte-americana.

Enquanto isso, um advogado de Hong Kong, Alberto Ho, deu alguns pormenores sobre a vida clandestina de Snowden na cidade onde estava desde 20 de Maio. Depois de ter sido descoberto pela imprensa "mudou de sítio uma ou duas vezes", discretamente, durante a noite, contou Ho.

O medo de ser preso e de ficar sem os seus computadores portáteis dominava as preocupações de Snowden. Num jantar de conselheiros e apoiantes pediu, desconfiado, aos convivas para deixarem os telemóveis no frigorífico.