Um conflito gratuito, inútil e absurdo

Governo e sindicatos entenderam- -se. Foi tão fácil que o seu conflito só se explica pela irresponsabilidade

O Ministério da Educação e os sindicatos chegaram ontem a acordo, a greve em curso foi suspensa. Depois de tudo a que se assistiu, o desfecho deste braço-de-ferro tem tanto de absurdo como de estúpido. Em substância, o que agora se acordou estava em cima da mesa há semanas. Afinal, só foi preciso que os sindicatos e o Governo cedessem sem terem de abdicar das suas posições de fundo para que tudo ficasse resolvido. Afinal, depois de todos os ataques que chegaram ao limiar do insulto, bastou um pouco de boa vontade. Afinal, nem o ministro era assim tão obtuso nas suas posições, nem os sindicatos tão intransigentes.

Pela facilidade com que o nó do conflito se desatou fica pois aquela sensação de que o país viveu dias de tensão gratuita, que nas reuniões da 5 de Outubro estiveram governantes e sindicalistas incapazes de olhar para lá das suas posições de força. Nuno Crato poderá ficar para a posteridade como o ministro firme e hirto que recusou adiar um exame para não mostrar ao poder sindical cedência ou fragilidade política. Um pouco mais de polidez política poderia ter-lhe-ia evitado tantas agruras. Mário Nogueira e Dias da Silva, principalmente o primeiro, poderão colocar nos seus curricula a organização de mais uma greve com elevadíssimas taxas de adesão. Um pouco mais de abertura poderia ter-lhes aberto mais cedo as portas do entendimento. Infelizmente, todos se entrincheiraram em banais interesses tácticos. Todos acabaram por deixar no ar a sensação de que, nos seus embates, o país não passou de um figurante.

Não há melhor prova dessa insensibilidade do que os termos do acordo a que chegaram. Como o ministro tinha prometido (todos o ouviram, com a estranha excepção de Mário Nogueira), a requalificação na classe docente acontecerá apenas depois de 2015. Como o ministro tinha dito e reiterado, a componente lectiva do horário dos professores não será alterada - para bom entendedor, a mudança é apenas para a troika ver. Há, sim, novidades na distância a que os docentes do quadro poderão ser colocados ou a promessa de que os que estão a caminho da reforma não ocuparão horários. Mas, face a tudo o que já tinha sido colocado na mesa negocial, houve alguma revolução nas posições das partes? Não.

Feitas as contas, o Governo ganhou a batalha final (não cedeu na requalificação, o que a acontecer minaria todos os planos de reforma da função pública). Na base da pirâmide, como simples tropas numa guerra civil, os professores continuarão com as mesmas angústias. O seu problema é o problema de toda a função pública, é o problema do país. Nada impedirá que em breve haja 14 alunos por professor, como na média da OCDE; nada impedirá que percam poder de compra; nada os salvará do infortúnio colectivo. Mário Nogueira há-de estar sempre pronto para os mobilizar para novas guerras com o Governo, este ou o próximo. Mas, como mostrou por estes dias, serão guerras de guerrilha. Bastará sempre mudar umas vírgulas na negociação para que o Governo ganhe.