Serão super-homens?

Pensar que num meio tão nobre como o da saúde humana a já conhecida tendência animalística do homem teima em se fazer manifestar pelas lutas hierárquicas e de poder é concluir que o ser humano não tem salvação possível. A tentativa de alienação da realidade é enorme nestes profissionais de saúde, nomeadamente enfermeiros, que, num momento, vêm defender que não possuem uma visão "médica" do paciente, e num outro momento, vêm advogar o seu direito a poderem "receitar" exames e medicamentos.

Mais estranho ainda é que uma recente circular (Circular Normativa n.º 19/2013/DPS de 15 de Abril de 2013 da ACSS relativa à "Uniformização dos Registos de Enfermagem em Cuidados de Saúde Primários") reitere a possibilidade de o enfermeiro poder efetuar atividades como "Exames de alterações da fala e da linguagem", "Terapia Ocupacional", "Reabilitação Otolítica", entre muitas outras, que implicam um quadro de saberes específicos, terreno já trabalhado, investigado e legalmente defendido por profissões como fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, terapeutas da fala, psicomotricistas, psicólogos, e que, perante a indignação destes profissionais e a manifestação dos seus órgãos oficiais junto da Ordem e Sindicato dos Enfermeiros, somente um prepotente silêncio se tenha obtido.

A crise e o desemprego não podem justificar que o enfermeiro queira transformar-se numa espécie de "super-homem" que pretende substituir todos os outros profissionais de saúde, os quais, inseridos num contexto legal, epistemológico, técnico, académico, e de investigação específicos, têm também o seu direito à labuta pelo trabalho em nome da qualidade de vida do utente, cidadão do tecido social português.

Infelizmente, parca voz tem sido dada àqueles profissionais, que veem as suas competências e afinidades a serem manobradas pelo "lóbi do enfermeiro" (o que tem, na verdade, criado grande celeuma entre os diversos terapeutas), o qual cresce a cada dia que passa, sem dó nem piedade pelos outros, sem qualquer sentido de cordialidade, com defesa de que "só eles são os verdadeiros profissionais de saúde" (palavras do próprio presidente do Sindicato dos Enfermeiros), um lóbi que vai buscar grande parte da sua força trófica aos já (maculados) importantes lugares que os enfermeiros ocupam no tecido administrativo e governamental do nosso país.

Fisioterapeuta e escritor www.reeducacaopostural.blogspot.com

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