A fórmula secreta da urbanização

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ROBERTO SCHMIDT/AFP

O que é uma cidade? Um conjunto de pessoas? Um grupo de habitações? Para Luís Bettencourt, que investiga nos Estados Unidos, é um "reactor social" no espaço e no tempo. Quanto maior for, mais interacções entre pessoas possibilita

No poema de António Gedeão a cidade "freme, crepita". É gente "num tumulto permanente" que o poeta observa, emocionado, a partir de uma janela em Esta é a cidade. Em 2010, mais de metade da população mundial foi, tal como Gedeão, engolida por este tumulto e vive numa urbe que aumenta a cada dia. Mas continuamos sem saber definir muito bem o que é uma cidade e para que serve. Para Luís Bettencourt, uma cidade é um "reactor social", que quanto mais pessoas contém, mais interacções sociais potencia no espaço e no tempo. Na semana passada, o cientista português publicou um artigo na Science onde define uma fórmula que contempla as características unificadoras de todas as cidades do mundo. O artigo reflecte o trabalho de mais de uma década e é um esforço para construir um novo conceito de urbe que pode vir a ajudar o planeamento de uma cidade.

O nosso Porto, Nova Iorque nos Estados Unidos, Luanda em Angola ou Tóquio no Japão parecem cidades incomparáveis, com uma topografia, uma história e uma cultura próprias. Mas há um factor que as une. "O tamanho de uma cidade é o factor determinante da maioria das características de uma cidade; a história, a geografia e o desenho urbano têm papéis secundários", explica Luís Bettencourt num comentário escrito para a Nature em 2010 e assinado a meias com Geoffrey West. Os dois investigadores trabalham no Instituto de Santa Fé, Novo México, EUA.

O que esta equipa foi compreendendo é que dentro do mesmo sistema urbano, as cidades crescem da mesma forma, independentemente do país que estamos a observar.

À medida que uma cidade duplica de população, há uma série de características físicas, sociais e económicas que crescem sempre com um determinado ritmo, que não é necessariamente proporcional: as infra-estruturas aumentam só 85%, em vez de duplicarem; o Produto Interno Bruto (PIB) per capita, em vez de se manter igual, cresce 15%, assim como a inovação medida em patentes; até o próprio ritmo de vida - a velocidade com que as pessoas caminham na rua - aumenta em 20%. Há também características negativas que se exacerbam quando a população de uma cidade duplica. O crime, o congestionamento do trânsito e a rapidez com que as doenças se espalham nessa urbe não se mantêm proporcionais, aumentam em 15%.

Por isso Nova Iorque é uma versão aumentada de São Francisco, nos Estados Unidos, assim como Tóquio é uma versão aumentada de Nagoya, no Japão. E esta relação é paralela, diz-se que estas cidades - Nova Iorque em relação a São Francisco e Tóquio em relação a Nagoya - escalam da mesma forma, mesmo que tenham pontos de partida diferentes, como o salário mínimo de cada país. "Estas regularidades extraordinárias abrem uma janela para um mecanismo subjacente, para dinâmicas e para estruturas que são comuns a todas as cidades", escreviam os dois autores em 2010. Isso permite uma nova abordagem de estudo.

Através das observações sobre várias características de muitas cidades, como a área, a densidade urbana, as infra-estruturas, o PIB per capita, a inovação, a criminalidade, até os contactos sociais entre as pessoas - os telemóveis e a informática proporcionam dados que há 20 anos não tínhamos -, Luís Bettencourt chegou a uma série de fórmulas que prevêem o comportamento destas características nas cidades. "Este trabalho cria uma síntese sobre todas estas dimensões de vida de uma cidade", explica o investigador ao PÚBLICO.

O cientista português saiu há pouco mais de 20 anos de Portugal, quando se licenciou em Engenharia Física no Instituto Superior Técnico, em Lisboa. Só mais tarde, depois de terminar o doutoramento em Física, em Inglaterra, é que abraçou o estudo dos sistemas complexos, como é o caso da cidade. "É um tipo de sistema complexo completamente novo que nós, humanos, criámos", explica. "Intuitivamente, inventámos a melhor forma de criar uma rede social vasta, que está embebida no espaço e no tempo, e que pode crescer e evoluir sem parar. Quando isso é possível, uma espécie social pode assegurar formas incríveis de ser inventiva e produtiva", defende.

Basta pensarmos em Roma, Londres ou até em Lisboa como cidades milenares que mudaram ao longo de séculos em resposta a necessidades sociais, económicas e tecnológicas e continuam a ser um pólo de atracção. Para Luís Bettencourt, o que faltava era uma definição que representasse a cidade como um sistema complexo com esta capacidade de adaptação. "Isto tem sido um problema geral. Onde é que começa o conceito de cidade? O que este artigo tenta fazer é mudar esse conceito", diz. "Uma cidade não é um grupo de pessoas, é um grupo de interacções sociais", acrescenta, "é para isso que serve".

É esta interacção social que determina o sucesso de uma cidade. À medida que uma urbe cresce tende a enriquecer, a ter mais população numa menor área, a ter mais estradas, a ser mais dinâmica. Estas características ajudam a que a cidade chegue a cada cidadão, ou seja, facilitam o encontro entre pessoas. Mas há riscos: o crime pode dificultar esta interacção, assim como o congestionamento do trânsito. Há factores mais gerais, como o nível de educação ou de desemprego que podem impedir esta interacção. Detroit, nos EUA, é hoje uma cidade desertificada pelo desemprego.

Luís Bettencourt explica que este trabalho dá, para já, uma média destas características para cada cidade. Nos Estados Unidos, pode dar um aviso à navegação se uma cidade está acima ou abaixo do seu potencial de acordo com a sua população. San Jose, na Califórnia, casa da Silicon Valley, há décadas que prospera. Buffalo, no estado de Nova Iorque, que teve a meio do século passado uma quebra importante na indústria ainda não inverteu a tendência de desertificação.

Mas, segundo o investigador, vai ser preciso um estudo mais aprofundado das dinâmicas que existem ao nível dos bairros para ser menos arriscado "mexer" numa cidade com problemas. "O processo de urbanização tem sido muito rápido. Vamos ter um mundo muito mais urbano. Os problemas que as pessoas vivem em Lisboa não vão ser diferentes dos que se vivem nas cidades chinesas", defende.

A Organização Mundial de Saúde estima que a meio deste século 70% da população viva em zonas urbanas. As cidades da Ásia e África vão sentir especialmente esta enchente, num desafio que será social, económico e ambiental. "Tanto sonho! Tanta esperança! Tanta mágoa! Tanta gente!", diz António Gedeão, sintetizando os sentimentos ambíguos que as cidades causam. Podia ser o final do seu poema. Mas o poeta sai de casa e é "fagocitado pela multidão", num movimento que se repete há milénios e necessita, mais do que nunca, de ser explicado.