Moradores e associação tentam travar demolição em curso de bairro de Viseu

Câmara propõe-se demolir Bairro da Cadeia, conservando apenas 11 das cerca de cem casas. Direcção Regional de Cultura sugere que bairro tem "interesse municipal".

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O bairro está degradado e a câmara considera que já ali não merece a pena fazer obras, dada a exiguidade das construções Nuno Alexandre Mendes

As paredes das casas já mereciam uma pintura. As portas não são as mais seguras e o soalho é mais "flutuante" do que liso. Mas os moradores gostam.

Gostam das "casinhas" do "Bairro da Cadeia", em Viseu, onde cresceram, casaram e criaram filhos e netos e do bairro onde cresceram, namoraram e casaram. Gostam dos pequenos jardins e dos espaços abertos onde se vê passar o tempo sem pressa.

São estes privilégios e memórias que levam muitos dos moradores do Bairro Municipal de Viseu a dizer que não querem passar das suas habitações para as "gaiolas" de prédios de apartamentos. "Como vai ser?", deixam no ar.

A associação cívica Olho Vivo considera que está ali um bom bocado da história e identidade de Viseu e pediu à Direcção Regional de Cultura do Centro (DRCC) a classificação do imóvel como monumento nacional. A DRCC indeferiu o pedido, mas admite que o edificado merece ser património municipal e endossou o pedido para a Câmara de Viseu.

Mas a autarquia está irredutível. Há uma década que decidiu demolir cerca de uma centena de casas e poupar apenas 11, para memória futura, entregando-as a associações do concelho. Para substituir o bairro, quer erguer quatro prédios com 56 apartamentos. No final do ano passado, arrancaram as obras do primeiro prédio. Dez casas foram entretanto demolidas e os moradores realojados.

"Na minha velhice, deixem-me viver sossegada". Mais do que um desejo, este é um apelo de Maria dos Prazeres, que passou 60 dos seus 87 anos numa pequena casa mesmo ali entre os muros da cadeia e o bairro 1.º de Maio. A sua antiga casa já foi demolida e agora ocupa temporariamente o número 35. "Mas daqui já não me tiram", avisa.

É uma das mais antigas moradoras do bairro e das que mais tem dado voz aos protestos contra a sua demolição. A ela juntam-se outras vozes, como a de Maria Soledade: "Com esta idade não vou andar com a mobília às costas", comenta enquanto apara a sebe que rodeia o prefabricado que habita há 33 anos.

O bairro social foi construído em 1948. Eram 104 casas geminadas, de piso térreo, com plantas regulares e um pequeno jardim à frente. Alguma das suas características foram-se perdendo com o passar dos anos e muitas das habitações estão abandonadas. "As pessoas foram morrendo, mas, em vez de deitar abaixo, podiam usar estas casas para as pessoas pobres", aconselha Maria Soledade. A vizinha Maria dos Prazeres ouve com atenção e concorda: "O dinheiro que se vai gastar com os novos blocos era aproveitá-lo e compor todo o bairro".

Um dos receios dos moradores é o de serem realojados em "pequenos apartamentos onde nem uma mobília cabe". "Aquilo são caixotes, para chegar à janela temos de andar de lado.", queixa-se Cristina Silva. Esta habitante do bairro admite que as actuais casas estão degradadas, mas aponta também o dedo à autarquia, que ali "nunca fez obras".

O Bairro da Cadeia é considerado uma "ilha" feita de pedaços da vida das pessoas e da cidade, uma "parte inalienável do património edificado e humano". Este é um dos muitos argumentos que se pode ler no texto de apresentação de uma página criada na Internet para defender a preservação do bairro.

No sítio http://www.sonha.me/obairro/index.html um grupo de cidadãos tem ali depositado conteúdos sobre este bairro, como o documentário realizado em 2009 por Raquel Castro. "Este não é um espaço de resmunguice, mas sim uma chamada de atenção sobre um pedaço do tecido histórico da cidade, um dos raros testemunhos dignos desse nome, do século XX", defende um dos internautas.