A partir de hoje passamos a conhecer melhor quem foi Bernardo Sassetti

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Pedro Sassetti, Margarida Paes, Aida Tavares e Beatriz Batarda: a Casa será "um espaço onde se cultive um diálogo vivo com o que o Bernardo deixou" Rui Gaudêncio

A Casa Bernardo Sassetti inicia hoje, data do 43.º aniversário do nascimento do músico, um plano anual de celebração da sua obra e de edição de inéditos.

Calhou que, aos 12 anos, a cinefilia de Bernardo Sassetti encontrasse num ciclo que a Cinemateca Portuguesa dedicara à filmografia de Alfred Hitchcock o escape perfeito para se tornar desabrida, raiar a obsessão. A única interdição seria o filme Psico - anos mais tarde, os pais, que tinham levantado tal objecção, teriam Bernardo na sala de estar a converter os sobrinhos ao cinema de terror com sessões à porta fechada em que a obra-prima de Hitchcok era rainha. O seu fascínio inesgotável nas ressonâncias entre música e imagem teve na parceria entre Hitchcock e Bernard Herrmann uma fonte de aprendizagem privilegiada, e conduziu o músico à Cinemateca repetidamente durante os seus anos formativos. E levaria depois a que, na sequência de algumas experiências de Sassetti a acompanhar ao piano cinema mudo, a Cinemateca o convidasse a criar uma peça que ganhasse vida de que cada vez que os 94 minutos de Maria do Mar (1930), de Leitão de Barros, fossem projectados num ecrã.

Não é por acaso que a escolha para assinalar a primeira comemoração pública de um aniversário do pianista (falecido em Maio de 2012) e da sua obra recai, precisamente, sobre Maria do Mar. Desde a sua estreia em 1999, Sassetti não mais parou de reescrever a partitura, referindo-se frequentemente a Maria do Mar como a sua criação mais completa. O facto de ter deixado gravada a sua interpretação ao piano, na companhia da Orquestra Sinfonietta de Lisboa, dirigida por Vasco Pearce de Azevedo, faz com que este constitua o primeiro momento revelador da acção que a Casa Bernardo Sassetti pretende empreender a partir de agora: manter viva a obra, celebrando-a e acrescentando-a. A associação - cuja direcção integra a actriz Beatriz Batarda, viúva do pianista, os amigos e familiares Mário Laginha, Pedro Moreira, Francisco e Pedro Sassetti, Margarida Paes, Aida Tavares, Leonor Silveira e Olga Neves Carneiro - começou a ser pensada precisamente há um ano, quando toda a família se reuniu para assinalar o aniversário do músico.

Em primeiro lugar, admite Beatriz Batarda, a criação da Casa Bernardo Sassetti terá sido uma resposta emocional à perda: "Não o posso negar. Foi também uma forma que as pessoas mais próximas tiveram de redescobrir o Bernardo pelo prazer e pela vitalidade, sem nos deixarmos engolir pelo desgosto da sua perda - que é mais ou menos inevitável. Foi um combate de todos, porque o Bernardo era um homem muitíssimo vital e alegre, com um prazer e uma fome de viver absolutamente contagiantes e não seria com certeza desejo dele deixar para trás só ruínas, quereria - presumimos nós - que continuássemos a construir por ele". Mesmo minimizando esse impulso emocional imediato, aquilo que fica também como resposta é a consciência de um papel único, da importância de alguém raro como Bernardo Sassetti enquanto um dos mais notáveis intérpretes e autores da música portuguesa dos últimos 30 anos. A palavra génio, não há que ter medo de usá-la, assenta-lhe com justeza.

O imenso espólio

Embora este lugar ímpar de Bernardo Sassetti não constituísse surpresa para a família, a dimensão inesperada do legado deixado pelo músico aliar-se-ia naturalmente à ideia de que "é um artista que deve ser lembrado e tocado, e que o grande teste da intemporalidade da música será a sua absorção e apropriação por outros músicos". A noção de que seria necessária uma estrutura que cuidasse do legado impôs-se rápida e intensamente quando Beatriz Batarda se viu forçada a mexer de imediato nos "papéis" de Bernardo devido às muitas solicitações por parte de músicos - dentro e fora de Portugal - de partituras da sua obra, querendo juntar-se num coro a várias vozes de pesares e homenagens.

O contacto com os papéis não demoraria a provar duas coisas: a produção e a criatividade febris de Bernardo Sassetti deixaram mais material do que se imaginava; e um primeiro contacto com esse material, distribuído por música, fotografia e cinema experimental, revelava que muito nunca chegara ao conhecimento do público. Estava descoberta a raiz que justiçava a fundação da Casa Bernardo Sassetti. Foi apenas preciso refrear um pouco a ansiedade do núcleo mais próximo de partilhar tamanho acervo com o mundo. Como diz o irmão Pedro Sassetti, "todo o espólio encontrado por explorar mostrava que tínhamos de avançar cautelosamente. Até porque era um momento complicado, difícil para a família".

"A razão por que quis ir devagarinho desde o início", explica Beatriz Batarda, "é porque acredito que tudo deve ser feito com a seriedade com que o Bernardo sempre fez. E todos precisamos de uma certa distância para olhar a obra com uma perspectiva mais rigorosa. Neste momento, e durante mais algum tempo, a nossa relação com a música é de apaixonamento pela dor, e portanto tudo nos parece maravilhoso". Por isso, a missão de "tentar adivinhar em toda a honestidade qual seria o passo seguinte" exige a criação de grupos de trabalho específicos a cada área, responsáveis pelo estudo do caminho e da procura artística de Sassetti para daí extrair as decisões mais acertadas relativas aos inéditos.

Maria do Mar

A minúcia desse trabalho aplicado a Maria do Mar, por exemplo, exigiu de Pearce de Azevedo, Francisco Sassetti e José Pedro Gil (produtor executivo da gravação) a escolha dos momentos solo improvisados do conjunto das várias versões gravadas. Essa escolha será válida para a interpretação do filme-concerto desta noite, a cargo do irmão e também pianista Francisco Sassetti, e novamente com a Sinfonietta e Pearce de Azevedo, mas também para a edição em DVD em que a Casa voltará a associar-se à Cinemateca (co-organizadora do filme-concerto) para que a obra possa ser conhecida tal como foi imaginada, unida à imagem. Devido aos elevados custos de produção, a Casa Bernardo Sassetti lança em breve uma campanha de crowdfunding no site PPL, com vista a cumprir o seu primeiro objectivo: fazer coincidir no mesmo ano uma apresentação pública com o plano de edição de um dos vários inéditos. "O Bernardo é daqueles casos em que faz mesmo sentido incluir as pessoas, não estar nas mãos das instituições ou só do mecenato", defende Aida Tavares, directora executiva do Teatro S. Luiz.

A escolha do Teatro São Carlos para a actuação desta noite também tem pouco de acidental: Sidónio Freitas Branco Pai, o pai de Bernardo (que não soube como encaminhá-lo quando o filho, aos 13 anos, começou a fugir para casa dos primos Moreira e entrou de supetão no mundo do jazz), "desde muito novo não perdia uma ópera no São Carlos", lembra Pedro Sassetti. Bernardo começaria ali a cantar no coro, arriscando os primeiros passos da sua vida musical. Hoje, de certa forma, dá-se um novo começo.

Ou talvez um novo impulso ao momento identificado na homenagem que o S. Luiz organizou em Setembro: a música de Bernardo Sassetti a partir em direcção ao pensamento musical de outros intérpretes, alimentando-se dessas outras vidas. "Não há imitações", sabe Aida Tavares. "Mas a reinvenção da obra é um desafio muito interessante". A Casa tem aí um papel decisivo, tomando em mãos a responsabilidade de a manter dinâmica e acessível. "Passado o choque, é natural que o desejo de pegar na obra se vá esfumando com o tempo", considera Batarda, comparando com as homenagens que aconteceram em grande número, e ainda a quente, nos dias, nas semanas, nos meses a seguir à fatídica despedida de Sassetti. "Queremos combater isso e encorajar os músicos a explorar esta obra que é imensa e que faz parte do património do país. Não tenho qualquer interesse, em nome das herdeiras, de quem sou representante, em guardar isto para nós. Porque sei que não era aquilo de que o Bernardo estava à procura. Era um homem livre e generoso, gostava de partilhar. Quisemos adoptar também essa postura". "Era fundamental que a obra não ficasse fechada num baú", reforça o irmão. Fora do baú, se tudo correr bem, poderá vir a ser consultada futuramente numa Casa que não seja apenas metáfora mas tenha paredes e janelas reais. "Um espaço", idealiza Beatriz, "onde se cultive um diálogo vivo com o que o Bernardo deixou, e não com um objectivo museológico e mitificado pela própria figura".

O que fica

A obra, concretizemos, inclui mais de 500 composições, a que acresce ainda um número indeterminado de arranjos, considerando apenas o que diz respeito à música escrita. A este volumoso património juntam-se ainda as gravações inéditas de música improvisada, registos que ficaram na gaveta devido a uma gestão cuidada que Bernardo Sassetti fazia do seu caudal de edições, não pretendendo inundar um mercado com pouca capacidade para absorver toda a música que tinha em si e não parava de jorrar diante do piano - "embora fosse um artista claramente compulsivo na sua relação com o trabalho", descreve Beatriz Batarda, "era um homem com um elevado sentido prático". Por isso mesmo, tinha já estabelecida uma ordem para os lançamentos que se seguiriam, alguns inclusivamente fechados em termos de alinhamento e design gráfico - Timbuktu, cujas interpretações o músico deu a conhecer em vídeo na Internet, ou a banda sonora de Como Desenhar Um Círculo Perfeito, assim como algumas gravações ao vivo. Deixou ainda um número considerável de partituras de obras feitas por encomenda, cuja catalogação está a ser dirigida por Anne Victorino d"Almeida e Inês Laginha.

No entanto, se há muito ainda por descobrir na música de Bernardo Sassetti, após o término do grupo de trabalho que se dedica a esta área será formado um outro painel que possa ajudar no enquadramento a dar às suas criações na fotografia (um arquivo composto por mais de quatro milhões de imagens) e no cinema experimental. Ambas as disciplinas, aliás, foram-se tornando cada vez mais frequentes no cruzamento com a música, surgindo projectadas em palco durante os concertos dos álbuns Ascent e Motion. A obra fotográfica começou a ser conhecida com maior profundidade em Setembro, numa exposição montada a partir de uma selecção de Daniel Blaufuks, mas no cinema as surpresas poderão ser maiores, contando-se o filme de animação Unreal e várias experiências em stop/motion. E uma última criação, Hinna, que nos devolve ao início: um filme de terror, rodado na serra da Estrela em 2011, com Beatriz Batarda no papel de "bicho estranho". Totalmente montado, finalizado em termos de música e sonoplastia, falta entrever o encaixe entre os dois mundos de imagem e som. "Temos as pistas", diz Beatriz, "mas ainda não decifrámos exactamente o puz-zle. Devagarinho vamos conseguir reconstituir os passos".

Com pistas menos sólidas ficam os projectos que deveriam ter avançado em 2012: a gravação de um disco de standards de Cole Porter com Manuela Azevedo, vocalista dos Clã; o registo de um tríptico com o trio de jazz que o juntava a Carlos Barretto (contrabaixo) e Alexandre Frazão (bateria); a passagem a estúdio do projecto Os Vadios com Mário Laginha e Camané; o diário ficcionado em fotografia, trabalhado em dois smartphones, cujo conteúdo se perdeu em grande parte no acidente que o vitimou uma semana depois do seu regresso aos palcos (após uma paragem de seis meses por ordem médica para tratar uma tendinite). São as derradeiras sugestões do artista que viria a ser. A partir de hoje, voltamos atrás, passamos a conhecer melhor quem foi Bernardo Sassetti.