Herberto ou Peixoto

A obsessão da identidade. Hoje tudo serve para reafirmar identidades. Os consumos culturais também. Ao ler-se ou ouvir-se muitos comentários recentes acerca de figuras portuguesas como os escritores Herberto Helder e José Luís Peixoto ou dos artistas plásticos Rui Chafes e Joana Vasconcelos, percebe-se facilmente que não está apenas em causa a qualidade, ou falta dela, das respectivas obras.

Diz-se que se gosta de uns ou de outros ao saber do vento ou dos ambientes sociais onde se circula e na maior parte das vezes nem são critérios artísticos que são evocados. O gosto não é desinteressado. Por isso ao nomear-se um destes nomes não se enuncia apenas uma escolha artística. É também ética. É uma forma de afirmar que se pertence a um mundo e não se quer pertencer ao outro. É verdade que o sentido último da cultura se foi complexificando nas últimas décadas com a problematização de dicotomias clássicas (alta vs. baixa cultura, cultura de minorias vs. massas ou arte vs. entretenimento), mas a verdade é que em grande medida subsiste a ideia de que a degenerescência da arte ocorre a partir da perda da aura ou pela possibilidade do lucro.

Num tempo em que é preciso estabelecer novas relações entre as coisas, porque a realidade está mais complexa, parece que regressámos ao conforto artificial das dicotomias. Não me revejo nestas grelhas de leitura em que uns são vistos como sendo coerentes com os seus princípios e outros gestores calculistas das dinâmicas do mercado, em que uns criam um programa estético coerente que legitima a obra e outros se limitam a uma encenação sem conteúdo.

Incomodam-me as noções morais que proclamam que uns estão ao serviço da cultura e outros do comércio, que uns são movidos pela verdade e outros pelo cinismo. Toda a criação envolve reflexão e construção, portanto, no limite, o que será justo dizer é que nos reconhecemos mais na forma como uns ou outros se recriam ou, porque não, se encenam.

O recolhimento de uns é respeitável, mas também quem tenta comunicar com muitos se o fizer com generosidade. Não se trata de nivelar. Nem de relativizar. Mas de compreender, em primeiro lugar, para melhor avaliar. Não se trata de suspender juízos estéticos quando se visita uma casa de emigrante ou uma obra de Siza, nem quando se ouve Madonna ou Bach, mas compreendê-los nos seus termos, sendo mais rigoroso com eles, percebendo diferentes percepções e concepções, porque interessarmo-nos pelas mais diversas experiências não menoriza, enriquece.

A forma como avaliamos determinados objectos está cheia de mal-entendidos. É como nas relações sociais: se estivermos mais disponíveis para ouvir os outros, sem interrupções ou ruído, as hipóteses da comunicação plena aumentam. Mesmo que, depois de ouvirmos, julguemos.