Vêm aí os PiL, o primeiro amor de um velho punk chamado John Lydon

Foto
John Lydon foi Johnny Rotten, vocalista dos Sex Pistols e então catalisador de uma revolução cultural, o punk inglês DR

Fundou os PiL para demolir o legado dos seus Sex Pistols. Para que a expressão livre do punk continuasse. Banda fulcral, apresenta-se esta noite na Casa da Música, no Porto

O ano passado, logo após a edição de This is PiL, o álbum que deu continuidade, duas décadas depois, à discografia dos Public Image Ltd, John Lydon descrevia o ambiente das semanas de gravação como um idílio entre quatro músicos que se compreendiam e, mais que isso, que gostavam e se preocupavam uns com os outros. Acto contínuo, confessava nessa entrevista à New Yorker que crescera pressupondo que era normal ao funcionamento de uma banda os seus membros não morrerem de amores uns pelos outros: "Pensei que era assim que a música era feita. [Mas] Não precisa de ser assim. Demorei anos e anos a percebê-lo."

Eis então quem receberemos mais logo em noite Optimus Clubbing na Casa da Música, no Porto: o desbocado, contraditório e controverso John Lydon liderando os seus novos PiL, banda charneira do pós-punk britânico com as suas linhas de baixo resgatadas ao dub, a bateria em tangente ao disco-sound e a guitarra em reverberação sobre uma voz em modo expressionista-paranóica. Ou seja, os PiL, cantores da neurose urbana, felizes da vida. Não há contradição. Lydon vive em Los Angeles, mas passa o tempo a escarnecer do estilo de vida americano, e é o inglês que sovou (e foi sovado) pela Inglaterra conservadora e que canta sobre as saudades que sente dos verdes prados e das tradições da terra natal. Não há contradição. Neste sentido: a contradição é a força motriz de Lydon e os ecléticos PiL, sua invenção pessoal, o seu "primeiro amor", como já afirmou, representam-na na perfeição. A confirmar esta noite, pelas 23h30, quando a banda de This is not a love song subir ao palco da Sala Suggia. Os bilhetes custam 12 euros e dão acesso ao que se ouvirá paralelamente aos cabeças de cartaz: concertos de Youthless e Ninja Kore, DJ sets de DJ Kitten e de Mister Teaser.

John Lydon foi, claro, Johnny Rotten, vocalista dos Sex Pistols e então catalisador de uma revolução cultural, o punk inglês, feita de confronto verbal e físico, feita comentário político niilista e violência escatológica - enquanto ao fundo ecoava o no future de God save the Queen. Os PiL foram o passo seguinte, inevitável, de John Lydon. A demolição da destruição anterior. Quando cantava em Public image, o primeiro single, editado em 1978, "you never listened to a word that I said / you only seen me from the clothes that I wear", estava a apontar o dedo às hordas de fãs dos Sex Pistols que, em vez de aproveitarem a explosão punk como denotador de uma expressão livre, se limitarem a acorrer aos concertos da banda vestidos e penteados exactamente como os músicos em palco.

Os PiL, originalmente formados por Lydon, pelo guitarrista Keith Levene (saído de uma encarnação inicial dos Clash), pelo baixista Jah Wooble (amigo de infância de Lydon) e pelo baterista Jim Walker, seriam verdadeiramente uma explosão de criatividade. Reuniam num mesmo corpo o gosto pelos baixos da música jamaicana, a neurose que emergia dos ambientes tensos do krautrock (e que a própria Inglaterra de Thatcher suscitava), percussões de um tribalismo pós-apocalíptico ou de um disco-sound onde o lúdico se descobria ainda dançável, mas desconfortável de forma perturbadora.

Legado

De 1978 a 1992, a banda mudou constantemente de formação e de som. Em First Issue (1978), Metal Box (1979) ou Flowers of romance, criaram um legado que seria aproveitado pelo pós-punk original, pelos Massive Attack na década de 1990 ou por bandas do século XXI como os LCD Soundsystem, os Rapture ou os Liars. Depois disso, flirtaram com a pop, andaram em digressão com os INXS e gravaram com músicos inesperados como o virtuoso da guitarra Steve Vai ou Ginger Baker, baterista dos Cream (uma banda que o punk adorava detestar). Em 1992, ano da edição de That What Is Not, desaparecerem de cena. O regresso demorou quase 20 anos.

Vimos entretanto os Sex Pistols renascer um par de vezes sem esconderem ao que vinham (The Filthy Lucre Tour foi o título da primeira digressão) e vimos Lydon quase arruinar a sua credibilidade num reality show à Big Brother. Em 2009, anunciou que os PiL estavam de volta. Primeiro os concertos. Três anos depois, o novo álbum, This Is PiL, gravado com o baterista Bruce Smith (co-fundador dos The Pop Group com breve passagem pelos PiL na década de 1980), o guitarrista Lu Edmonds (ex-The Damned, também com passagem pelos PiL nos anos 80) e o baixista Scott Firth (tocou com Elvis Costello, Steve Winwood ou... Spice Girls). Súmula da diversificada identidade da banda, o álbum foi em parte financiado, imagine-se, com o dinheiro que John Lydon reuniu ao elaborar e dar a cara a uma série de anúncios publicitários a uma marca inglesa de manteiga. Esse mesmo Lydon que, o ano passado, se queixava ao Guardian da juventude demasiado desbocada e agressiva dos nossos dias. Quando o jornalista apontou a contradição entre a frase e o seu passado enquanto espalha-brasas Johnny Rotten, Lydon distinguiu: "Mas isso era o poder da palavra, este pessoal usa a violência."

Não, não há contradição nenhuma. John Lydon foi Johnny Rotten, é John Lydon. E os PiL são o seu primeiro amor.