Humanismo

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Nestes dias do lixo, o desprezo pelo "humano" concreto tornou-se a regra e varreu-se a preocupação humanista

Comecei a minha formação política activa como "anti-humanista". Preciso já duas distinções: uma entre "formação política activa" e o seu corolário de "formação política passiva"; e, depois, que "anti-humanismo" era esse.

Quando se lê muito, e eu fui feito pela leitura e não pelo estudo - porque nunca verdadeiramente estudei no sentido escolar do termo, e não "fazia os trabalhos de casa" -, aprende-se e forma-se. Aliás, este é o cerne da educação no sentido clássico, hoje tão esquecido, o de aprender para se fazer. O livro de Werner Jaeger sobre a paideia grega era então de leitura obrigatória para qualquer aprendiz de filosofia, e explicava bem essa parte "passiva", interior, aberta às influências e às seduções, quer do pathos, quer do ethos, quer do logos. Essa formação "passiva", a que nos faz, é, pela sua natureza, caótica, depende do "monstro", que alimentamos à força dos livros, e do modo como eles atingem a vida que se tem. Mas uma vez feita, fica lá para sempre. "Passiva", aqui nada tem de negativo, mas de silêncio interior perturbado apenas pelo som da nossa voz íntima falando connosco próprios. Freud sabia o que isso era, Proust também e, lá longe, na sua fantasmática Konigsberg, Kant procurava-a como alicerce para essa "razão prática" que fundamentava tudo.

Depois, a uma dada altura, dá-se a volta, e a enorme presunção adâmica que os intelectuais têm fá-los escrever. Escrever, nos anos sessenta, por esta ordem: poemas, "teoria" e romances. Hoje, a ordem está alterada: os poemas estão lá, mas com menos peso, depois ficam as escritas fáceis (e quase sempre débeis) dos blogues e Facebook, e depois romances, romances, romances. Esta ordem das coisas é para mim um mistério, como é que uma pessoa de juízo normal pensa que os pode escrever com facilidade.

Nem Agustina, que é uma grande escritora, foi capaz de construir personagens, como faziam Camilo e Eça, quanto mais gente que dificilmente vive para lá da Time Out. Hoje qualquer intelectual moderno, a começar por esses paradigmas da modernidade mediática que são os jornalistas, resolve escrever romances, para aumentar a ocupação de espaço em livrarias que parecem mostruários de uma espécie de papel pintado entre o lânguido e forte com personagens evanescentes na capa. Nesse contexto, eu prefiro o genuíno, as Sandálias de Prata, da Cristina Caras Lindas.

Mas deixemos os costumes modernos. Nos anos sessenta, em particular depois de 1968, vivia-se uma outra moda, se é que assim se pode chamar, em que a "teoria" tinha um papel central. Foi nesse ramo que eu fiz a parte "activa" da formação política, ou seja, presumi ter alguma coisa a dizer, ou a redizer, sobre a teoria política consumida nesses anos. Essa presunção continuou depois do 25 de Abril, felizmente estiolando logo a seguir. Tudo isto culminou na minha grande tentativa teórica, começada por volta de 1975-6, no rescaldo do PREC, alterada todos os dias, acrescentada e corrigida, feita sobre a forma de "teses" numeradas. Durou até ao início da década de oitenta e foi então ingloriamente abandonada para sempre. Era o "luto" de um tempo, e tudo tinha mudado.

Era, como convinha, uma "teoria de tudo", uma espécie de ensaio gnosiológico destinado a explicar a natureza de todas as coisas, numa série de densas afirmações. Eram tributárias de um mesmo tipo de tentativa que Ernest Mandel fizera no seu tratado de economia, em que pretendia "actualizar" Marx com as mais recentes aquisições da ciência, seja da antropologia, da economia, da sociologia, da filosofia e das ciências da natureza. Não era bem o que Engels já tinha feito no seu tempo, com o resultado desastroso que conhecemos, mas a intenção era a mesma: acentuar os fundamentos "científicos" do marxismo, logo do comunismo, logo da política. Na sua presunção, era na época o equivalente a escrever um romance qualquer nos dias de hoje.

E era "anti-humanista". Estávamos ainda em tempos da moda intelectual que marcou esses anos, o estruturalismo. No meu caso, e mesmo no caso português, por razões políticas, mais Althusser do que Foucault. Louis Althusser, que veio a morrer meio doido, meio lúcido, depois de matar a mulher, teve uma enorme influência intelectual nesses anos porque forneceu o produto certo para a época certa. Era um produto ambíguo, vindo de quem era e indo para quem foi. Althusser foi sempre um fiel membro do PCF, mas forneceu o arsenal teórico para um upgrade do estalinismo, que teve sucesso nos meios maoístas do esquerdismo francês e português. Nenhum destes termos, "ismos", e actores pode ser confundido ou sobreposto. São tudo coisas diferentes e com consequências diferentes, nem o PCF era um partido comunista qualquer, nem o maoísmo era um estalinismo tout court, nem os "meios maoístas" eram assim tão homogéneos como as generalizações de hoje pressupõem.

O estruturalismo, de Althusser em particular, traduziu-se na sua leitura da obra de Marx, que partilhou com um conjunto de colegas e discípulos como Étienne Balibar, Roger Establet, Pierre Macherey Jacques Rancière, Alain Badiou, alguns dos quais autores ainda hoje muito influentes no esquerdismo contemporâneo. A sua tese partia de uma "cesura", termo corrente na época e com origem na obra de Gaston Bachelard, o trabalhador dos correios-filósofo, entre o Marx "humanista", anterior a 1848, hegeliano, e o Marx marxista, "anti-humanista". O resultado é que o filósofo do PCF fornecia a teoria de que os jovens intelectuais maoístas precisavam para se demarcarem exactamente do "humanismo" dos partidos comunistas pró-soviéticos, e retomarem um marxismo puro e duro, limpo da decadência revisionista e de Hegel. Ilusões há muitas.

Na época, estas ideias eram ardorosamente discutidas, numa paixão intelectual a que os dias de hoje são de todo alheios. Lembro-me da polémica feroz que opôs Eduardo Prado Coelho, estruturalista e "anti-humanista", a Vergílio Ferreira, existencialista e humanista. E da sala apinhada no Centro Nacional de Cultura para discutir a obra de um discípulo de Claude Lévi-Strauss, Lucien Sebag, intitulada Marxismo e Humanismo, hoje quase esquecida. Ou da discussão suscitada pelo prefácio às Palavras e as Coisas, de Foucault, igualmente inimaginável nos dias de hoje.

Quase tudo acontecido antes do 25 de Abril, mas que conheceu depois desenvolvimentos perversos, com Eduardo Prado Coelho, então militante do PCP, a justificar o projecto de censura de Correia Jesuíno, e com os estruturalistas, discípulos de Althusser, a levarem o seu anti-humanismo a uma linguagem de pau, mais rígida do que a dos PC e, por fim, a baterem contra a parede. O meu ambicioso tratado de gnosiologia estruturalista ficou por esse caminho, atingido no seu coração "teórico" por leituras como a de Popper, em particular no The Poverty of Historicism, ou a de Kolakowski, que fizeram os devidos estragos. Verdade seja que me recordo de sugerir ao João Carlos Espada a leitura de Popper... Mas, como diz Dante no "Purgatório", a propósito de Pia de Tolomei: "Siena mi fé, disfecemi Maremma", os livros me fazem e desfazem. E os tempos mudaram e bem.

Por que é que me recordei de toda esta arqueologia? Porque hoje se percebe muito bem a falta que faz, mais do que o "humanismo" como sistema, a falta de uma atitude humanista. Nestes dias do lixo, o desprezo pelo "humano" concreto tornou-se a regra e, de uma ponta a outra do nosso mundo quotidiano, varreu-se a preocupação humanista não só da política como de muitos outros aspectos da nossa vida. A tecnologia é usada, numa sociedade cada vez mais pobre, para criar novas exclusões. Valores civilizacionais como a privacidade e a intimidade são dissolvidos na "facilidade" do Facebook. O universo público mediatizado gera uma cultura de superficialidade e ignorância presumida. Os valores não circulam numa sociedade que vive na moda e na novidade. Todas as mediações, dificilmente construídas pela luta cultural consciente dos homens para viverem sem ser na selva, estão em crise.

E a política em democracia perdeu esse sentido de melhoria da vida dos homens comuns, da "felicidade terrestre", na única vida que conta para a democracia, que é a vida na Terra e não a eterna. A demagogia que sacrifica o presente em nome de um futuro construído ao sabor dos interesses desse mesmo presente reconstrói a ideia de que a salvação está outra vez num paraíso celeste, agora prefigurado nos "nossos filhos e nos nossos netos", em nome de quem a vida das pessoas que existem, tenham um dia ou cem anos, é desprezada.

Eu sei que são velhas queixas, muitas vezes repetidas. Mas talvez tenha sentido repeti-las para renovar dia a dia, ano a ano, uma pulsão humanista que, se pode não fazer uma vida melhor, pode pelo menos fazer-nos melhores.

Historiador. Escreve ao sábado

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