Cascatas, piscinas naturais e outras maravilhas que tais

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As Azenhas do Mar, a poucos quilómetros de Sintra, destacam-se sobretudo pela piscina oceânica emoldurada pelo casario branco nas arribas. À esquerda, a praia das Fragas de São Simão PEDRO CUNHA

Agora que o calor está a chegar (ou todos assim o esperam), voltamo-nos para a água para o combater, ou, pelo menos, contrabalançar. Porque há muito país líquido mais ou menos escondido, a Fugas incita-o à descoberta e deixa-lhe algumas pistas refrescantes para este Verão. Andreia Marques Pereira

Cascata do Arado: um ícone

Não é a única situada no Parque Nacional da Peneda-Gerês, pródigo em natureza deslumbrante em todas as suas formas; não será sequer a mais bela, concedemos; mas é definitivamente um lugar imperdível - e, uma vez lá, quem consegue resistir ao apelo das águas transparentes e confronto directo com a pedra? Bem, teremos de dizer a verdade: apenas estar no miradouro, a escutar o ruído turbulento da água a desfazer-se na cascata principal entre o verde-verde do Gerês, já faz muito por espíritos inquietos. Mas a Cascata do Arado merece uma visita com todos os sentidos bem abertos: a 900 metros de altitude, assistimos aos primeiros passos (mas nada hesitantes) do pequeno e nervoso rio Arado, que se diverte a superar os obstáculos topográficos e geológicos - para nosso deleite, que ficamos com um belo trilho de quedas de água. Estamos bem próximos da aldeia da Ermida (Vilar da Veiga, Terras do Bouro), no coração do parque, quando esta cascata tomba sobre nós, em vários níveis, em várias piscinas naturais. A água nas lagoas é fria, porém tal não impede que nos meses de Verão haja sempre banhistas (sobretudo ao fim-de-semana), que muitas vezes aproveitam as rochas para estender as toalhas. Sendo irresistível para banhos, a zona é também procurada para piqueniques, já que o cenário natural é todo ele de harmonia quase insuperável. E a sua envolvente rochosa um piscar de olho aos aventureiros da escalada.

Piscina das Marés: mergulhar num monumento nacional

Não tem a regularidade das marés que lhe dão o nome, mas tem a pontualidade estival. E quem pode censurar a Piscina das Marés pela sua preferência pelo Verão? Afinal, o clima de Leça da Palmeira é pouco dado às temperaturas onde as palmeiras florescem - são antes as nortadas o pão nosso de cada dia. O mar também é bravo nesta parte da costa e por isso o arquitecto levou alguns anos até concluir a obra, em harmonia com os devaneios das marés vivas que a assolam. Valeu a pena: quase 50 anos depois da sua abertura ao público, em 1966, a piscina mantém-se como referência, para veraneantes e arquitectos - talvez ajude que seja da autoria de Siza Vieira -, e é desde 2011 monumento nacional.

É o arquitecto que o diz (01 textos/ Álvaro Siza): "Nada mudou profundamente", no sítio onde "um maciço rochoso interrompe as três linhas paralelas: encontro do mar e do céu, da praia e do mar, longo muro de suporte da via marginal".

O que se pretendeu foi aproveitar os caprichos das rochas para uma piscina alimentada pelos caprichos das marés. O resultado são duas piscinas, uma para adultos, outra para crianças, de água salgada, encaixadas nos penedos e, portanto, invisíveis da avenida - mas com total visibilidade para o mar e com dois areais a fingir, totalmente, praia. Apoiada por balneário e um bar, com esplanada e lounge, está aberta diariamente entre as 9h e as 19h. Os preços variam de acordo com a idade e dias da semana.

Cascata da Cabreia: estrela televisiva

Tem uma beleza cinematográfica, ou, pelo menos, televisiva: surgiu no genérico de uma telenovela portuguesa e num anúncio de uma pasta dentífrica. Ainda assim, a fama não lhe subiu à cabeça e a cascata da Cabreia continua serena, que é como quem diz, não viu o seu silêncio ser corrompido por hordas de visitantes. Fica na serra homónima, próximo de Silva Escura (município de Sever do Vouga), e é o salto notável do rio Mau (que nasce rio Bom, para mais à frente se tornar no seu avesso: existem várias versões para tal, como as cheias recorrentes no vale de Silva Escura que tornavam o rio mau), 25 metros de altura amparados numa lagoa rodeada por um bosque de carvalhos, azevinhos, loureiros. É o parque da Cabreia, ao qual se acede por um caminho marcado por uma vedação de madeira que acompanha um riacho pedregoso. Recentemente, a mancha vegetal densa foi alvo de intervenção, que a ordenou e lhe renovou bancos, mesas e churrasqueiras, construiu pontes e recuperou velhos moinhos. A água, essa, é sempre fria e conta uma lenda de mouros e uma grade de ouro - para tirá-la do poço, são necessários dois bois pretos e uma reza do livro de São Cipriano. Com ouro ou não (os mouros ocuparam realmente as redondezas, assim como os romanos, que exploraram minas na região), este é um lugar verdadeiramente idílico para quem busca a natureza.

Fragas de São Simão: praia entre penhascos

O nome não engana: nesta praia fluvial mergulha-se mesmo entre fragas, tão imponentes que têm direito a miradouro sobre a paisagem em redor; tão imponentes que recebem desportos tão radicais quanto a escalada, o slide, o rappel. A pouco quilómetros de Figueiró dos Vinhos, meio quilómetro de estrada íngreme desemboca no local onde a Ribeira de Alge brinca entre pedras e rochas que se distribuem indisciplinadamente pela água cristalina que, poucos quilómetros à frente, em Foz de Alge, se une ao rio Zêzere. Por aqui, estamos rodeados de paisagem exuberante que convida a piqueniques (há um parque de merendas que até tem instalações para fazer churrascos) e, sobretudo, a descansar, o corpo e a mente.

Quem tiver curiosidade, pode espreitar as ruínas de ferrarias do século XVIII, testemunho da actividade de fundição de ferro que deu fama a estas paragens. Durante o Verão, um pequeno bar funciona como apoio à praia, que tem ainda balneários e sanitários.

Azenhas do Mar: piscina oceânica à sombra de arribas

O casario branco, sobre a falésia, trepando a falésia, torna-a pitoresca q.b. para figurar em vários roteiros do litoral sintrense e até nacional. Mas se as Azenhas do Mar, a poucos quilómetros de Sintra, em Colares, estão neste roteiro é pela sua piscina oceânica natural, escavada na rocha e que faz praticamente a vez de praia, já que esta, na verdadeira acepção da palavra, só "existe" quando a maré baixa e deixa uma língua de areia respirar. É o ponto onde converge esta aldeia que se vê, de fora, feita de casas encavalitadas em harmoniosos retalhos brancos e telhados laranja contra o azul intenso do Atlântico, que lhe faz a corte, de forma por vezes intensa (o mar é bastante picado); e por dentro se descobre de escadaria em escadaria que se abrem sobre o mar de várias perspectivas. O miradouro, construído em 1931 empoleirado nas arribas (e servido por um café e esplanada), é o ponto de onde tudo isto se abarca - isto e mais além, com o recorte da costa a perseguir o horizonte que consegue deixar de olhar o mar (a não perder é o pôr do sol, um espectáculo à parte). A ribeira que corre para o oceano e divide as arribas da costa ainda abriga uma das azenhas, parcialmente recuperada, que deram nome à povoação, e sobre ela uma ponte une as duas metades da falésia: a aldeia está a crescer, sobretudo como local de segunda casa (tornou-se estância balnear de prestígio nos anos 1930 e teve linha de eléctrico até 1955), mas é no centro, a despenhar-se sobre a piscina, que mantém o coração.

Pego das Pias: descobrir um tesouro

É um dos segredos mais bem guardados do Sudoeste alentejano - e, não, não é uma praia deserta, ainda que seja bastante isolado. Entre a população local, é um local habitual, pois numa região de pegos - estamos no vale do rio Mira, atravessado por inúmeras ribeiras - este é um dos mais belos. É na ribeira do Torgal, na zona dos Ameixiais, no percurso de Odemira a São Luís, que, entre vegetação intensa e abraçado pelos rochedos que a água escavou, se encontra o Pego das Pias. O nome recebeu-o das muitas cavidades rochosas, circulares, que a água (numa altura em que o caudal seria bastante superior ao actual), em redemoinhos à passagem por esta garganta, terá esculpido nos penedos na forma de pias. A lagoa é de cor tão escura que não permite ver o fundo - não são aconselháveis grandes mergulhos das escarpas se não se conhece o local, pois há perigo de encontrar tochas submersas - e com tanto mistério não se esperaria nada menos que uma lenda a alimentar a mística do local. Esta conta a história de um lavrador e da sua filha, a melhor coisa da sua vida. Quando o pai não cumpriu a promessa (de uma junta de bois e uma grade de ouro) que havia feito pela cura da sua filha, ela, que bebia água no Pego das Pias, onde os bois também bebiam, ficou encantada. Agora, espera-se todos os anos pelas manhãs de São João: quem conseguir segurar a grade e os bois que vêm ao cimo da água nessa altura quebrará o encantamento da filha do lavrador. Muitos já viram a grade e os bois, conta-se, mas ninguém foi capaz de os segurar. O tesouro continua, portanto, guardado lá no fundo, enquanto cá em cima se mergulha e descansa em paisagem bucólica, digna de qualquer filme fantástico.

Penedo Furado: tranquila e familiar

Foi uma das finalistas das sete melhores praias fluviais do país e está bem no centro do país - não há que enganar: pertence a Vila de Rei, onde está o marco geodésico que o assinala. Está, mais exactamente, a dois quilómetros da aldeia de Milreu esta cascata do Penedo Furado, um conjunto que tem praia e piscinas naturais cristalinas, que se descobrem ao ritmo das quedas de água (as Bufareiras), para nos sacudir o calor e agitar os sentidos. Afinal, a paisagem é de facto deslumbrante, assente num imenso maciço quartzítico, onde se abre a fenda que empresta o nome ao local. Percorrer todo o cenário composto pelo conjunto das cascatas é possível graças a um caminho talhado nas rochas - e há também o miradouro, inaugurado em 1964, para uma visão global que inclui também as áreas consumidas por incêndios. Mas voltamo-nos antes para a água, as águas, que nos trazem cá. A praia fluvial é tranquila e familiar: a água tem pouca profundidade, a sombra é abundante e há bar, parque de merendas e infantil e balneários para dar apoio. Termina numa pequena cascata, a praia, e é não muito longe daí, quando a ribeira de Codes começa a alargar, que se desenham as Bufareiras, as principais cascatas. Uma está adaptada para banhos; outra, mais pequena, esconde-se em vegetação intensa, límpida e fresca, como todo este conjunto aquático.

Ponta da Ferraria: água do mar termal

Por onde começar para descrever o que torna este local, na ilha de São Miguel, único? Podemos dizer que a Ponta da Ferraria, e o vizinho Pico das Camarinhas, em Ginetes, são um Monumento Natural Regional e de Paisagem Protegida, mas tal não nos diz nada da beleza primordial deste soluço geológico de origem vulcânica, uma mancha negra que foge oceano adentro deixando para trás o verde do extremo sudoeste desta ilha açoriana. Nesta fajã sobre a qual se erguem os 200 metros do Pico das Camarinhas, a convulsa natureza destas ilhas produziu uma riqueza inesperada na forma de duas nascentes de águas termais de origem vulcânica que aquecem as piscinas naturais da Ferraria e também abastecem o complexo termal, alvo de requalificação recente depois do seu abandono nos anos 1950 (abriu em 1888), indicado para tratamento de problemas de reumatismo e nevrites, por exemplo. Na pequena enseada, a água do mar ronda os 28ºC na maré baixa e os 18ºC na maré alta (sai da nascente a 61,5ºC), o que permite tomar banhos mesmo no Inverno, e é rica em enxofre, uma combinação única no mundo. O areal é praticamente inexistente, caminha-se sobre rochas, mas tudo é compensado quando, dentro de água, se mira o negro, castanho e verde do Pico das Camarinhas e a rochosa costa rendilhada - se invertermos a posição, vamos ao Miradouro da Ponta da Ferraria ou da Ilha Sabrina, em homenagem a uma ilhota de existência efémera (cinco meses) que emergiu em 1811 ao largo desta costa: podemos sonhar com ilhas desaparecidas, mergulhar novamente na fajã, passear a vista pelo farol e aguardar pelo pôr do sol - dizem que é o melhor.

Seixal: piscinas naturais entre grutas

É verdade que têm a concorrência forte das vizinhas piscinas do Porto Moniz, ex-líbris madeirense. Contudo, as piscinas naturais do Seixal têm argumentos para concorrer com estas: o mais óbvio é, desde logo, a menor procura. Isto da fama e dos seus proveitos também tem que se lhe diga e quem quer passar um bom bocado relaxado, de papo para o ar ao sol e a mergulhar quando lhe apetece, tem aqui talvez a melhor opção. Na verdade, este troço do litoral madeirense não é humilde no que diz respeito a piscinas naturais; as do Seixal distinguem-se também pelo aspecto cénico. Afinal, algumas delas incluem, por exemplo, pequenas grutas, e há troços em que recordam as populares piscinas infinity, que parecem entrar paisagem adentro - sendo que, neste caso, a paisagem é o azul profundo do Atlântico. São três as bacias que se formaram nesta rocha vulcânica, negra, portanto. As piscinas do "mata sete", a das lesmas e a do leixão partilham a mesma água límpida, as mesmas estruturas de apoio, que incluem um bar, zona de solário, duches e balneários e a mesma envolvente paisagística, que foi recentemente intervencionada. Da paisagem das piscinas faz parte a vizinha Praia da Laje (ou "Jamaica", como lhe chamam os locais), de areia preta, que, escondida numa pequena baía, é uma das mais tranquilas da pequena e harmoniosa vila do Seixal.

Queda do Vigário: um oásis turquesa

Dizem que a Queda do Vigário (ou Cascata de Alte) que hoje vemos é artificial, mas também dizem que originalmente haveria uma natural, talvez mais pequena. Há também versões divergentes sobre a sua construção - o impulsionador é o mesmo, o 18.º senhor de Alte, Duarte de Melo Ribadeneyra, no final do século XVII, mas há quem diga que quis desviar as águas da ribeira de Alte (concelho de Loulé) para regar o seu pomar e quem diga que o seu objectivo era embelezar o leito de água. Certo é que a obra sobreviveu intacta ao terramoto de 1755 e chega até aos dias de hoje recentemente renovada. São 24 metros de altura, os da Queda do Vigário, a última de uma série de miniquedas de água que se formam na ribeira do Alte, antes de ela se juntar à ribeira de Algibre (em Paderne) para formar a ribeira da Quarteira. De uma parede rochosa avermelhada sai a água que se despenha num lago oval e tonalidades turquesa, rodeado de abundante vegetação - há zona de piqueniques sobre relvados frescos. Antes de chegar aqui e se oferecer para mergulhos como se nas Caraíbas estivéssemos, a ribeira do Alte atravessa a aldeia - que esteve quase a ser considerada a mais portuguesa de Portugal em 1938 e mantém o mesmo rosto típico e tradicional, com as suas açoteias, as chaminés trabalhadas, as cores da terra entre o branco dominante - passando pela Fonte Grande, que mais parece um canal marginado por cantaria que se usa também como piscina, acompanhada por terraços e jardins em degraus (e até um anfiteatro ao ar livre), e pela Fonte Pequena, espaço mais bucólico, navegado por cisnes e patos

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