O corpo como território

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Um palco que é como se fosse um terreiro, apenas Panaibra Gabriel e uma guitarra

Dois coreógrafos moçambicanos trazem a Lisboa exemplos de como o movimento surge de um desejo de reescrita da própria História, seja ela a da dança ou, "simplesmente", a política.

A última vez que encontrámos Panaibra Gabriel, no mesmo teatro São Luiz onde amanhã e depois apresenta Os solos de Marrabenta, foi no Verão de 2012, quando o coreógrafo moçambicano se atarefava para a estreia de The Inkomati (dis)cord, co-assinado com o sul-africano Boyzie Cekwana, no Alkantara Festival. Na altura, Panaibra, na timidez que o caracteriza e que não imaginaríamos se apenas o víssemos em palco, dizia que há um longo caminho a percorrer até podermos dizer que compreendemos o que alguém procura - esse "outro" que também nós, na Europa, procuramos através das fórmulas pós-coloniais de definição, mas de modo algum definitivas, do que é estrangeiro, como se estrangeiro fosse estranho... Mas dizia-nos então Panaibra que esse caminho não podia ser percorrido se não existissem dúvidas. "Falta generosidade", concluía. No olhar, no discurso, no modo de pensar, acrescentamos nós agora que, um ano depois, compreendemos melhor o que ele nos dizia quando o vemos em palco. Um palco que é como se fosse um terreiro, apenas ele e uma guitarra e, no meio, entre ele e a guitarra, entre o palco e nós, entre o seu e o nosso corpo, e a História toda de um país, de uma cultura e de um mito.

Será preciso regressar a Dentro de mim outra ilha, que mostrou no Maria Matos, durante o Alkantara Festival em 2006 para perceber que ao coreógrafo interessam pouco processos de aculturação. Pelo contrário: é no modo como gere uma herança e a inscreve num contexto contemporâneo isento de julgamentos ou ideologias que desenvolve um discurso sobre o modo de relacionar a dança com a política. Ou, se quisermos, um modo de ver, no corpo, o mapa que a política quis conquistar.

Na revista Les Inrockuptibles, antecipando a vinda do espectáculo aos Reencontres Seine-Saint Denis, Emmanuelle Mougne escrevia que este trabalho de Panaibra "longe de uma pesquisa sobre um corpo negro de uma pureza inexistente, trabalha uma identidade compósita que dialoga com as suas heranças, atravessa épocas, transcende os estereótipos impostos, para acabar sozinho, atravessado ao chão, solitário, corpo extenuado e plural, a respirar até ao seu último suspiro." Numa conversa após a apresentação do espectáculo no Rio de Janeiro, Panaibra falava de um desejo de colocar em diálogo três gerações moçambicanas, a que nasceu durante o período colonial, a que já conheceu a ditadura imposta em 1975 e aquela que vive já em democracia. "Como é que essas três gerações se encontram e interagem na sua diversidade, forma de pensar e diferentes filosofias [de vida]?", perguntava-se o coreógrafo com o objectivo de "perceber que país existe hoje". E, por consequência, que corpo existe hoje: "um corpo pós-colonial, um corpo plural que absorveu os ideais de nacionalismo, modernidade, socialismo e liberdade de expressão, o meu próprio corpo", escreve o coreógrafo nas notas do programa. Por isso, quando Panaibra dança a marrabenta, ou quando ouvimos Povo que lavas no rio, cantado por Amália, o que vemos é, citando a influente revista Danser, "a afirmação do "seu" gesto que projecta sobre nós uma sucessão de estereótipos, da dança mais tribal aos movimentos marciais da revoluçãoo comunista de 1974, passando pela sensualidade assimilada do fado dos antigos mestres, ou as influências clássicas e contemporâneas de um bailarino do Ocidente".

Este processo de miscigenação coreográfica - se ousarmos a expressão - está também presente num outro programa que o Próximo Futuro apresenta a 29 e 30 de Junho, também no São Luiz, assinado pelo moçambicano Horácio Macacuá, Oroboy, Stop! e Smile, if you can!. Se Panaibra reinscrevia, por exemplo, numa reviravolta histórica que sublinhava as origens do próprio fado, vindo de sons africanos, Macuacua experimenta em Oroboy, Stop! uma surpreendente reconstrução do flamenco a partir de diálogos sugeridos por intérpretes cujos corpos carregam, em si mesmos, modos de experimentação coreográfica contemporânea. Se oroboy significa, na língua cigana, "pensamento", o movimento de Macuacua transcende uma imaterialidade e obriga o espectador a um confronto com modelos de invenção de um movimento transversal, que existe, e habita para lá das regras de convenção, ou mesmo da tradição. Assim, quando no segundo espectáculo do programa a frase "se podes, sorri" se eleva por cima das nossas cabeças, atravessando o modo como "lemos" o que nos está a ser mostrado em palco, assombrado pela vertigem das interpretações .

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