Febre de noite de casamento

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Amanhã, no encerramento do festival Lisboa Mistura, o cantor sírio Omar Souleyman mostra-nos como se comanda uma multidão de corpos quase sem mexer o seu.

O real e o absurdo trepam até valores generosos numa escala de porosidade no que toca ao cantor sírio Omar Souleyman. Em 1994, aos 18 anos, era apenas um mero trabalhador da construção civil em Jazeera, no noroeste Síria, que picava empenhadamente o ponto do seu hobby musical com curtas intervenções de 10 a 15 minutos nos casamentos da terra. Depois, de pequeno empurrão em pequeno empurrão, sem que fizesse muito por isso, foi transformado em estrela da música síria convidado a gravar com uma cantora islandesa cujo nome nada dizia a um cantor que nunca se imaginara ultrapassar as bodas locais. Dezanove anos que lembram os doze meses do blogger Kyle MacDonald - que, em 2006, saiu por segundos do seu anonimato ao usar sucessivamente o sistema de trocas do site craigslist até transformar um clip de papel num apartamento em Phoenix em apenas dez passos. A história de Souleyman não é muito diferente.

Omar nunca fez muito mais do que pegar no microfone e cantar. Instalar a festa nos outros quase em mexer um dedo do pé. O seu corpo, na realidade, parece o único imune ao transe de felicidade que parece impor sem esforço a terceiros. Nem precisa estar presente. Há coisa de umas semanas, Kieran Hebdan (mais conhecido como Four Tet) estreou um dos temas do novo disco de Souleyman num set de DJ e instantaneamente a normalidade pareceu entrar em modo de suspensão, como se o público perdesse controlo sobre os movimentos e fosse sacudido de um lado para o outro sem saber porquê. É esse efeito quase inexplicável que Omar repete uma e outra vez desde que, certo dia de 1994, alguém lhe perguntou naquele popular circuito casamenteiro sírio: "Por que não cantas mais do que 15 minutos?". Foi o que fez e, em dois anos, tornara-se uma das maiores estrelas do país. Mais meia-dúzia de anos e era uma das grandes figuras da região, expandindo o seu negócio de animação de casamentos até ao selecto Dubai. Foi esse o pedido que a produtora norte-americana Sublime Frequencies fez quando, sem o saber, estava a preparar o caminho para a música da Síria ser apresentada em festivais rock como Glastonbury, Paredes de Coura ou All Tomorrow"s Parties. "Eles precisavam de um artista que fosse popular na minha região e então contactaram-me e pediram para distribuir as minhas canções nos Estados Unidos", lembra o cantor. O entusiasmo foi tanto que começaram a chover convites para concertos e digressões por todo o mundo. Omar, imóvel, de microfone na mão, e o mundo em polvorosa a rogar pela sua aparição um pouco por todo o lado.

O novo disco de Omar Souleyman é, na verdade, a sua primeira verdadeira experiência de estúdio. Até aqui, os seus lançamentos - mais de 500, numa estimativa pouco rigorosa - aconteciam sobretudo em cassetes lançadas poucas horas depois dos casamentos onde actuava e cantava os nomes dos noivos, lançando a sua bênção sobre o casal e animando os convidados. "Foi muito diferente de gravar num casamento", diz-nos a partir da Turquia, onde vive actualmente, depois de decifradas as suas palavras em árabe por uma tradutora localizada em Beirute. "Desta vez tinha qualidade de som, o que não é habitual. E nos concertos muitas vezes invento as letras, mas no estúdio levo tudo organizado". Esse primeiro resultado da colaboração com Four Tet mantém, de facto, os níveis de transe infecciosos que conhecemos a Souleyman - ele e os seus músicos trataram de tudo, Hebdan só teve alegadamente de rodar uns botões -, e baralha tudo novamente. Se há quem acredite que Souleyman não passa de uma piada gigantesca que alguém não percebeu e elevou a monumento kitsch pela graça da sua figura, a prova de Four Tet é cabal: sem o homem em palco e sem aviso prévio, a música mantém a sua capacidade de hipnotizar multidões.

O sentido da festa

Em concerto, no entanto, a figura algo estática de Souleyman enquanto semeia a loucura à sua volta faz pensar nele como um marionetista, alguém que por detrás daquele bigode, daqueles óculos escuros e debaixo daquela keffiya (o pano destinado a proteger olhos e boca do sol e da areia do deserto) sabe como comandar tudo o que acontece em palco e fora dele - enquanto a banda se entrega a frenéticos delírios de dabke acelerada, o público vai atrás, instintivamente, limitado a essa única reacção. "Quando subo ao palco e vejo o público sei exactamente como entrar no ambiente e como mexer com o público ao usar os ritmos adequados", diz-nos, reforçando essa ideia de que sabe onde está a aplicar cada choque eléctrico para obter o resultado que lhe interessa. Omar olha, sabe e não se engana. A festa está a ferver à sua frente e ele simplesmente dá-lhe um sentido, um escape.

Vindo de um dos países com um dos mais graves conflitos armados da História recente, a braços com uma guerra civil impulsionada pela revolta contra o presidente Bashar al-Assad que se arrasta há mais de dois anos e cujo número de vítimas se aproxima de 100 mil, Omar vive actualmente na Turquia, outro território em ebulição, impossibilitado de continuar a actuar em casamentos, como gostaria de fazer - "a situação não permite festas ou casamentos neste momento", afirma laconicamente, escusando-se a mais comentários sobre o seu país que ultrapassem o elogio à cultura popular. A Turquia, de qualquer forma, é uma parte substancial da sua música, uma vez que nas entrelinhas dos ritmos árabes se ouve uma mistura de música síria, turca e curda, combinação que Omar acredita ser o segredo para a tal eficácia: "São três músicas com capacidade de fazer uma plateia dançar e juntas facilmente conquistam o mundo".

Ou talvez seja apenas a aceleração e amplificação da dabke, vocábulo que designa alegria mas baptiza igualmente a música de dança tradicional Médio Oriente que surge distorcida por uma versão endiabrada e febril nas mãos de Omar Souleyman - a forma musical que o cantor sírio arranjou para sedimentar o seu movimento de rotação em torno da diva da canção árabe, a cantora egípcia Oum Khaltoum. Quando não está a fazer a sua própria música, garante Souleyman, está a ouvi-la. "Ela é o planeta do Oriente", acredita. E, por uma vez, Souleyman parece perder ligeiramente o controlo. "Ela é insubstituível, é o mais elevado que existe".