Aqui a fotografia também é política

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Malala Andrialavidraz entra em territórios privados com a curiosidade de uma antropóloga e ali é tratada como amiga

O sul da África não é só a África do Sul. Até 1 de Setembro, a exposição Present Tense mostra na Gulbenkian a fotografia que se faz na África Austral, região onde a imagem é cada vez mais uma forma de compromisso.

As notícias sobre o estado de saúde de Nelson Mandela chegam a conta-gotas, em relatórios oficiais, comunicados da mulher e declarações de um dos netos, Mandla. Sempre breves, contidas. É a quarta vez que o líder histórico é internado este ano, deixando a África do Sul em suspenso. E a rezar. Madiba, o seu nome tribal, está no hospital há 11 dias (este artigo foi escrito a 18 de Junho) devido a uma infecção pulmonar, algo grave para quem já vai nos 94 anos e tem "tuberculose" escrito no historial médico, contraída em Robben Island quando cumpria uma pena que o manteve preso 27 anos por lutar contra a desigualdade entre brancos e negros.

Nas páginas dos jornais em todo o mundo os analistas desdobram-se em previsões sobre o futuro do país. Passaram já 19 anos desde que se tornou o primeiro Presidente negro sul-africano, pondo fim ao regime de segregação racial que vigorava desde 1948. Para muitos, passaram "apenas" 19 anos.

O que acontecerá depois da morte do ex-Presidente e símbolo máximo da luta contra o apartheid? Que rumo tomará o Congresso Nacional Africano (ANC, em inglês), o partido no poder desde a instauração de uma democracia multirracial em 1994? A onde levarão as lutas internas? E o que acontecerá ao Presidente Jacob Zuma, que tudo tem feito por manter a sua imagem associada à de Mandela desde que este se retirou da vida pública, em 2004? Ninguém sabe. São muitos os cenários possíveis e todos envolvem lidar com suspeitas de fraude e corrupção - o próprio Zuma tem várias acusações no currículo -, desigualdades económicas e grandes tensões sociais. A África do Sul que muito investiu na Copa do Mundo de 2010 não teve o retorno que esperava - nem financeiro, nem estratégico -, defendem os especialistas em política internacional. E continua a ser um país em que a raça conta.

Present Tense, a exposição que inaugura amanhã na Gulbenkian, em Lisboa, é mais uma forma de reflectir sobre o sul do continente africano que tem por principal pivô o país que Mandela continua a representar. Deixou a presidência em 1999, mas não deixou de ser o rosto da África do Sul que fotógrafos como Pieter Hugo e Jo Ractliffe têm vindo a registar, mesmo quando o seu trabalho os leva, como no caso desta exposição, aos EUA e a Angola. O país de Mandela faz parte das suas histórias e ambos gostam de trabalhar com a memória, sobretudo ela.

Pieter Hugo (Cidade do Cabo, 1976), Jo Ractliffe (Cidade do Cabo, 1961) e Guy Tillim, outro sul-africano multipremiado (Joanesburgo, 1962), fazem parte do naipe de 14 fotógrafos escolhidos por António Pinto Ribeiro, curador-geral do Próximo Futuro e comissário de Present Tense, uma das duas exposições que integram este programa dedicado à África Austral, com todas as suas desigualdades e assimetrias.

Pinto Ribeiro seleccionou-os por mostrarem que não há nada de homogéneo no continente africano - ideia que, durante décadas, as potências ocidentais venderam através de imagens de exotismo e miséria, depois de terem desenhado fronteiras grosseiras à mesa das negociações europeias, sem atender às culturas e equilíbrios regionais. E porque a sua produção artística recente (a maioria das fotografias expostas em Lisboa foi feita nos últimos três anos) é reveladora de múltiplas formas de interpretar o mundo, mas sempre com grande sentido crítico e um propósito político mais ou menos declarado.

"Quando vamos a esta região de África temos a sensação de estar num espaço público de disputa permanente. E isso não é verdade só na África do Sul - também é assim em Moçambique, onde cada vez mais os cidadãos reclamam os seus direitos", diz Pinto Ribeiro.

A imagem de África que estas fotografias dão passa por um discurso muito particularizado, íntimo até, como nas casas que Malala Andrialavidrazana nos mostra em Echoes (From Indian Ocean). Nesta série a artista de Madagáscar que vive a maior parte do tempo em Paris vai à procura da identidade das populações do Índico a partir de espaços domésticos na Ilha de Reunião, Antananarino, Bombaim e Durban. Com as suas fotografias percorremos as salas atulhadas de objectos, as prateleiras onde alguém guardou verniz e chegamos até a espreitar para baixo da cama para encontrar uns sapatos que não nos importaríamos de usar. São territórios privados onde Malala parece entrar com a curiosidade de uma antropóloga e onde é tratada como amiga.

"Só se faz isto quando se conhece profundamente o que se está a ver", garante pinto Ribeiro, para quem é impossível falar numa "fotografia africana", apesar da "enorme pujança" da produção no continente, com destaque para uma nova geração que, tendo por referência históricos como o moçambicano Ricardo Rangel e o sul-africano David Goldblatt, começa a marcar os circuitos contemporâneos. Mauro Pinto (Moçambique), Ractliffe, Tillim e Hugo são os que com mais facilidade chegam ao mercado internacional, mas os restantes são praticamente desconhecidos.

Profunda incerteza

Pieter Hugo, que em Lisboa expõe fotografias da série Empire of In-Between, que fez percorrendo a rota ferroviária que liga Nova Iorque a Washington ao serviço do diário norte-americano New York Times, é um dos herdeiros mais evidentes de Rangel e Goldblatt, defende o comissário. "O retrato tem uma dimensão histórica importante em África", diz Pinto Ribeiro, apontando para a fotografia de um jovem na série de Hugo. "Antes da geração de Ricardo Rangel começar a trabalhar, a fotografia era feita por europeus, que mostravam sempre os africanos como seres exóticos, meio-selvagens, como espécies de laboratório que era preciso medir e analisar. Foi a geração de Rangel e Goldblatt que devolveu a humanidade aos africanos e esses ensinamentos passaram para as mais recentes", de que fazem parte Mauro Pinto e os seus cemitérios habitados, Sabelo Mlangeni (África do Sul) e as suas inusitadas imagens que parecem saídas de uma revista de moda dos anos 1960, Guy Tillim e as paradas militares no Gabão em dia de festa (série Libreville).

Tillim e Ractliffe fazem parte da geração que combateu o apartheid e que formou profissionais nas universidades e nas redacções dos jornais. O primeiro, que integrou o colectivo Afrapix, é um fotojornalista cujo trabalho vai hoje muito além da fotografia documental. A segunda, que expõe em Present Tense imagens recolhidas em Angola - As Terras do Fim do Mundo -, quando percorreu territórios na fronteira com a Namíbia, onde na guerra civil combateram muitos sul-africanos, está habituada a fazer da fotografia um instrumento político.

"No momento de profunda incerteza como o que a África do Sul atravessa, interessava-me ter o trabalho destes grandes fotógrafos porque eles se habituaram a questionar tudo, a usar a fotografia como forma de intervir enquanto cidadãos."

Para Pinto Ribeiro, Sabelo Mlangeni é um dos que melhor fotografa o espaço público africano, os diferentes modos de estar, de vestir, de andar. "A África do Sul tem uma fortíssima presença cultural na região e a comparação com países como Madagáscar ou até Moçambique é arrasadora. Mas essa força não se tem traduzido numa normalização da fotografia nem numa padronização de linguagens artísticas e isso é muito interessante."

Quando há dois anos começou a trabalhar nesta exposição, Pinto Ribeiro não estava consciente do grau de politização dos fotógrafos sul-africanos. O país está em ebolição, "vive assombrado pela proximidade da morte de Mandela", que se discute em casa, nas ruas e nas universidades, "o partido no poder confunde-se com o próprio Estado (o que também acontece em Angola), enfrenta acusações sérias de nepotismo e perdeu a Cidade do Cabo". É neste contexto, garante, que as artes visuais, e em particular a fotografia, reflectem um compromisso social e político: "Caminhamos em muitas ruas de Joanesbursgo e não conseguimos deixar de pensar na cor da nossa pele - a raça continua a ser discutida na África do Sul, entre políticos, mas também nas festas, nos bares, nos festivais. Há sempre uma tensão."

Como nas paisagens incertas de Ractliffe, a preto e branco. Nelas quase não vemos pessoas - é o lugar, e o silêncio que se pressente, que impressionam. Numa entrevista à escritora e crítica Kathleen MacQueen, a sul-africana admitiu que prefere fotografar estruturas, espaços e objectos e lembrou que Goldblatt costuma dizer que ela gosta da paisagem porque essa, ao contrário das pessoas, não responde. Ractliffe prefere vê-la como um intermediário: "Quando fotografo estou igualmente atenta ao que está cá fora e ao que está dentro de mim, (...) ao "facto" daquele lugar e ao seu impacto emocional. E se permanecer atenta, alguma coisa acontece." Olha-se para as suas fotografias desertas e é fácil acreditar que uma imagem que mostra pode ser infinitamente menos poderosa do que aquela que sugere.

Present Tense será apresentada na Gulbenkian de Paris, de 17 de Setembro a 14 de Dezembro.