Indústrias que consomem mais electricidade acusam presidente da EDP de esconder a verdade

Mexia disse que Portugal tinha preços de energia mais baixos do que a média europeia.

A partir de 2013 o sector eléctrico terá de pagar na íntegra pelas emissões de CO2
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Centrais que produzem electricidade a partir de gás natural atingiram o valor mais alto desde 2012. Paulo Ricca

As empresas que consomem mais electricidade em Portugal acusam o presidente da EDP, António Mexia, de esconder a verdade quanto aos preços que a eléctrica cobra às maiores indústrias, alegando que esses preços as penalizam e lhes retiram competitividade.

O presidente executivo da EDP “observa apenas parte da verdade” quando afirma que o custo da electricidade “não é problema de competitividade de Portugal”, e que, “especialmente na indústria, Portugal tem preços de energia eléctrica abaixo da média europeia e tipicamente abaixo de Espanha”, acusou em declarações à Lusa José Baptista Pereira, director executivo da Associação Portuguesa dos Industriais Grandes Consumidores de Energia Eléctrica (APIGCEE).

António Mexia “faz como aquele pintor famoso que, contratado por um zarolho para o pintar, o coloca de perfil para lhe pintar apenas um olho”, ironiza Baptista Pereira.

A APIGCEE alega que as estatísticas do Eurostat, nas quais a EDP se fundamenta para demonstrar que o preço da electricidade é mais baixo em Portugal do que na média da União Europeia, são cegas ao tipo de consumos de energia destas empresas e, por conseguinte, não validam totalmente as afirmações de Mexia.

“Algumas destas empresas detêm fábricas em Portugal e Espanha, e pagam em Portugal mais cerca de 20 a 25% do que em Espanha, o que é devido, em grande parte, ao forte agravamento das tarifas de acesso a partir de 2010, em resultado da subida exponencial das designadas rendas excessivas, onde se integram os Contratos de Aquisição de Energia (CAE), os Custos de Manutenção de Equilíbrio Contratual (CMEC) e os subsídios às renováveis e que o Governo, impulsionado pela troika, se tem proposto reduzir”, sustentou Baptista Pereira.

“Para as nossas empresas, em que se incluem a Siderurgia Nacional, Cimpor, Secil, Portucel Soporcel, Solvay, CUF, Sakthi Portugal, Ar Líquido e Somincor, o peso da electricidade no preço final de produção é de, pelo menos, 10% e nalguns produtos chega a atingir 50%, pelo que o preço da energia eléctrica é factor crítico da sua competitividade”, acrescentou. É neste contexto, argumentou o mesmo responsável, que se “compreendem” as notícias recentes que apontam a possibilidade da Siderurgia Nacional poder vir a deslocalizar a sua produção para Espanha.

Por outro lado, acrescenta o director da APIGCEE, as empresas que o organismo representa “exportam mais de 75% da sua produção, o que assume uma importância primordial no equilíbrio da balança de transacções do país”.

O presidente da EDP afirmou na quinta-feira que “Portugal tem, especialmente na indústria, preços da energia eléctrica abaixo da média europeia e tipicamente abaixo de Espanha” e “a electricidade não é um problema de competitividade de Portugal no contexto europeu”.

António Mexia respondia desta forma ao ministro da Economia, Álvaro Santos Pereira, que na quarta-feira alertou para a necessidade dos países europeus encontrarem formas de reduzir os custos da energia, uma vez que estão a penalizar a competitividade do tecido empresarial europeu comparativamente com as companhias norte-americanas e asiáticas.

As declarações do governante, proferidas após uma reunião com os líderes de 16 das maiores companhias portuguesas, em Lisboa, levaram Mexia a reconhecer que “há efectivamente uma relação entre a Europa e os Estados Unidos”, nos custos da energia, desfavorável aos europeus, mas que "não tem a ver com política energética”.

A APIGCEE representa o conjunto de empresas alimentadas em alta e muito alta tensã, cujos consumos de electricidade representam, no seu conjunto, um consumo anual superior a 4500 GWh, o que corresponde a quase 10% do consumo nacional e a mais de 25% de toda a indústria portuguesa.