Nem Lula nem a polícia conseguem travar os protestos

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Protestos em Fortaleza, junto ao estádio, poucas horas antes do jogo entre o México e o Brasil VANDERLEI ALMEIDA/AFP

Protestos com níveis variados de violência continuam a agitar grandes cidades do Brasil. Em São Paulo e no Rio as tarifas dos transportes vão voltar ao preço anterior

Na ressaca do sexto dia de protestos em São Paulo, o Governo de Dilma Rousseff decidiu jogar com dois trunfos de peso: envolveu o prestígio do ex-Presidente Lula da Silva, que na sua primeira campanha eleitoral se promoveu com o slogan "Lula Paz e Amor", e mandou a Força Nacional de Segurança para seis cidades onde decorre a Taça das Confederações de futebol. Em vão. Na manhã de ontem, as duras manifestações da noite anterior mantinham-se activas nos subúrbios de São Paulo. Grupos de manifestantes bloquearam vias de acesso ao centro da cidade, terminais rodoviários foram invadidas, e, para agravar a situação, trabalhadores da CET, que gere o tráfico urbano, decidiram entrar em greve.

A meio da tarde, poucas horas antes do jogo entre o México e o Brasil, em Fortaleza, centenas de manifestantes envolveram-se em confrontos com a polícia nessa cidade do Norte do país. Para manter um perímetro de segurança em torno do estádio, a polícia recorreu a balas de borracha e a gás pimenta. Em Belo Horizonte, Minas Gerais, as autoridades tiveram de cortar o acesso ao centro da cidade para onde milhares de pessoas se encaminhavam.

Recuos em São Paulo e Rio

Uma semana depois dos primeiros protestos, a vaga de contestação continua a crescer sem que o Governo tenha conseguido fórmulas para a esvaziar. Para hoje estão convocadas manifestações em dezenas de cidades de todo o país e as autoridades divergem sobre a forma como lhes responder. A Presidente optou por uma estratégia de conciliação, dizendo anteontem "ter orgulho" nos manifestantes e recusando "desqualificar as suas acções como de baderneiros (desordeiros)". O ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho, citado pelo jornal Estado de São Paulo, prometeu estudar as razões do protesto para "não ser atropelado" pela História. O prefeito (presidente da câmara) de São Paulo, Fernando Haddad, do PT, que ontem à tarde dizia que recuar no aumento das tarifas dos transportes públicos, que serviu de ignição à vaga de protestos, seria um acto de "populismo", acabou por ceder e os bilhetes vão voltar ao preço antigo (3 reais). O mesmo sucederá no Rio de Janeiro, adiantava ontem à noite o jornal O Globo.

O governador do estado, Geraldo Alkmin, do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), recorreu, por seu lado, a uma linguagem mais dura para classificar os actos das alas mais radicais dos manifestantes. "Não é possível tolerar a acção de vândalos, de uma minoria que depreda o património público e privado, que fez saques, que põe em risco a vida da população", afirmou ontem.

Depois de ser criticada pela sua brutalidade nas primeiras manifestações, a acção das forças de segurança pautou-se nos últimos dias por uma estratégia de simples contenção. Houve até casos, de imediato reproduzidos nas redes sociais, de polícias que se sentaram lado a lado com os manifestantes. Na noite de terça, em São Paulo, a polícia só actuou depois de grupos de jovens, alegadamente mobilizados pela Black Blocks, uma organização de tendência anarquista, terem atacado pelo menos 30 lojas e tentado invadir a prefeitura. Vários edifícios públicos foram vandalizados e um carro de exteriores de uma estação de televisão foi incendiado. Mais de 60 pessoas foram detidas.

A incapacidade das autoridades para lidar com o protesto é justificada por alguns analistas com a "surpresa" e a "perplexidade" com que assistiram ao surto de protestos. "Sejamos francos, companheiros: ninguém tá entendendo nada. Nem a imprensa, nem os políticos, nem os manifestantes", escrevia António Pratas, num dosblogues do estado de São Paulo.

Certo é que a dinâmica da contestação está já muito para lá do aumento dos transportes. Em São Paulo, um eventual recuo do prefeito não acalmará os protestos. Os cartazes dos manifestantes sugerem agora um mal-estar mais abrangente e mais difuso. Em causa está a exigência de melhores escolas e hospitais, mais transparência e menos corrupção no sistema político. Quem está na primeira linha dos protestos são jovens da classe média, brancos e com formação superior.

Nas análises sobre as causas da agitação social há, no entanto, uma atenção crescente ao agravamento do cenário económico. Depois de oito anos a crescer a uma taxa anual de 4%, a economia abrandou para 2,7% em 2011 e no ano passado ficou nuns modestos 0,9%. Os programas de estímulo do Governo, centrados em programas sociais, e as orientações dadas aos bancos públicos para que facilitem o financiamento aos privados não estão a dar resultados. A confiança dos consumidores e o investimento estão em queda, o valor dos salários estabilizou e a inflação subiu para os 6,5%.

Dilma, a principal vítima

Para os brasileiros, o longo ciclo de desenvolvimento iniciado em 1993 com o Plano Real está numa encruzilhada. E, apesar dos progressos feitos, o Brasil está na 85ª posição do rankingdo desenvolvimento humano da ONU (Portugal ocupa o 43ª lugar), atrás de países como o Peru e a Venezuela. E o seu rendimento per capita (9300 euros) está longe do dos países desenvolvidos (em Portugal 16.800 euros).

A principal vítima da degradação da situação económica e da instabilidade social é Dilma Rousseff. Uma sondagem ontem divulgada pelo CNI-Ibope indica que a popularidade do seu Governo recuou oito pontos desde Março, mas 55% dos brasileiros ainda aprovam a sua acção. Como os inquéritos foram feitos antes das manifestações, não se sabe que efeitos terão os protestos no seu futuro político.

Ainda que, de momento, ninguém ponha em causa o seu favoritismo para as presidenciais de 2014, o impacte das manifestações pode abalar a ampla coligação que suporta o Governo e favorecer a dinâmica dos seus adversários. Para já, sabe-se que Dilma terá de enfrentar a eterna promessa do PSDB (partido de Fernando Henrique Cardoso), o mineiro Aécio Neves. A grande incógnita, porém, é saber se Eduardo Campos, governador de Pernambuco e estrela emergente da política brasileira, vai entrar na corrida.