Como foi o último episódio de Os Sopranos

Texto originalmente publicado a 12/06/2007, como o título "Sopranos acabaram. Saiba como ou espere até Outubro"

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O elenco de "Os Sopranos" DR

Como narra uma música dos The Strokes, tão nova-iorquinos como Os Sopranos mas de uma outra estirpe, menos irrigada pelos ares corrompidos de New Jersey, o fim não tem fim (The End Has No End). David Chase, o autor da série, deixou tudo em aberto. Ou melhor, deixou tudo em suspenso.

À pergunta "o que acontece a Tony Soprano?", o líder da família criminal mais amada da América, a resposta é uma cena irrespirável com toda a família num restaurante, que é cortada por um ecrã negro sem que a tensão se desfaça, sem que a questão se ultrapasse, só com uma música dos Journey a tocar.

E pronto, já não há episódios por escrever de Os Sopranos, a mais aclamada série norte-americana da última década. A dúvida estava centrada nas escolhas de Tony Soprano e sobre se seria capaz de trair a sua família de crime, juntando-se ao programa de protecção de testemunhas. Ou se seria acusado pelas autoridades. Ou se iria ser traído pelo rival de Brooklyn, Phil Leotardo. Iria a vingança das famílias abater-se sobre a sua própria mulher e filhos? Quem morre? Alguém tem de morrer.

Tentando revelar pouco, algumas das personagens centrais foram, de facto, carinhosamente anuladas ao longo destes nove últimos episódios. Mas o destino da família nuclear - dos filhos Meadow e A.J. que a América viu crescer, da mulher Carmela cuja rudeza do marido favoreceu uma paixão com Furio, de Tony, o pilar humano capaz de salvar a vida de patos, ursos e gatos e de matar um inimigo a murro - foi salvaguardado até ao último e abrupto segundo.

A partir daí, tudo é possível. Os homens que os rodeavam podem ter começado um banho de sangue. Ou ter ameaçado a família. Ou pura e simplesmente David Chase, que também realizou o episódio, gritou "Corta!" e o elenco exalou o seu último suspiro sob a égide Soprano.

A temporada, comenta o argumentista Filipe Homem Fonseca, que escreve para o Contra (RTP1) e protagoniza os webisódios Salvo Erro, "é absolutamente maravilhosa, genial". O guionista ainda não tinha visto Made in America, título do último capítulo, mas estava confiante na habilidade de David Chase para lhe ensinar como se encerra uma saga televisiva. "Vou descobrir com o final dos Sopranos como se faz um fim", diz, entre risos.

Na Internet, os fãs dedilharam madrugada fora as suas opiniões. "Perfeito", repetem muitos. "Primeiro fiquei zangado", diz um espectador que afinal ainda não conseguiu ultrapassar a sua frustração. "O que #$%#$ foi aquilo?", irrita-se outra americana.

Mas o que mais os ocupa é a tarefa já habitual dos fãs, com toques de futurologia, quando tentam adivinhar o que se passou depois do fim. Insistem na vã glória de tentar encontrar um caminho palpável para os seus ídolos. Que, desde 1999, estreia do primeiro capítulo de Os Sopranos, já não são a cores nem a preto e branco. Vivem em várias tonalidades de cinzento.

Mas é impossível saber se este foi, ou não, o final adequado para Os Sopranos. Durante a última semana, as conversas e as discussões mais inflamadas sobre o destino de Tony (James Gandolfini) intensificaram-se nos fóruns e comentários a notícias na Internet, nas pausas para café nos locais de trabalho, nos telefonemas entre amigos. Chegou domingo à noite e milhões de pessoas sentaram-se no divã para mais uma sessão de psicanálise à italo-americana.

Já estavam destroçados com o penúltimo episódio, em que a psicanalista Jennifer Melfi (Lorraine Bracco) cortou os seus laços com Tony e o deixou, de arma na mão e com a tal "lua azul" da música do genérico nos olhos, num quarto escuro a enfrentar o seu próprio destino. E estavam quase contagiados pela depressão que assolou o pai e que parecia estar a chegar ao filho AJ, personagem central nesta sexta série.

Mas esta não foi uma emulação do final de Sete Palmos de Terra, outra das séries-maravilha da HBO, que matou a personagem principal, Nate Fisher, dois episódios antes do fim da série. Foi um crescendo ao melhor estilo David Chase, negro e imprevisível, aberto a perguntas. Sem floreados, conversas emotivas ou verbalizações da tensão subentendida que percorre toda a série. Os pecados não são expiados e o castigo é uma incógnita.

"O fim d'Os Sopranos foi simultaneamente perfeito e irritante, já que o criador David Chase escolheu, uma vez mais, inverter as convenções televisivas ao cortar, e não desvanecer (fade out), para o ecrã negro num momento imprevisível e cheio de tensão", comentava Tim Goodman, crítico de televisão do San Francisco Gate. Os actores viram o final juntos, na soalheira e quente Florida, reunidos numa gala com tapete vermelho. James Gandolfini (Tony Soprano), o actor mais bem pago da televisão americana - 1 milhão de dólares (750 mil euros) por episódio -, nada disse aos jornalistas, coberto por uns óculos de sol e uma barba que apenas deixava ver um sorriso.

Mas Christopher, ou Michael Imperioli, o seu sobrinho entretanto morto na quinta série, estava satisfeito com o episódio número 86 e com o desfecho da saga. "Acho que é um final óptimo. É uma boa maneira de desaparecer." Tony Sirico, também conhecido por Paulie, confessou: "Estamos todos com o coração destroçado. Podíamos continuar para sempre. Eu e a Edie Falco (Carmela) queremos morrer no cenário."

Há várias listas, oficiais e amadoras, dos melhores e piores finais de séries televisivas. Há episódios finais cuja qualidade é unânime, como o que deu descanso ao Fugitivo (1967), ou o que reuniu pela última vez todo o elenco de Cheers, Aquele Bar (1993). Todos parecem ter adorado o fim de Os Homens do Presidente (2006), em que a era do Presidente Jed Bartlett (Martin Sheen) termina para dar lugar a um novo ocupante da Casa Branca. O LA Times e a CNN não esqueceram o fim de Buffy, Caçadora de Vampiros (2003) nem o de Mary Tyler Moore (1977).

Mas nem todas as séries reúnem tanta unanimidade. Sete Palmos de Terra é eleita pelo LA Times pelo seu final de excelência, mas há opiniões discordantes, na Internet e fora dela. Filipe Homem Fonseca ficou desagradado com o "salto temporal que mostra toda a família a envelhecer". Como um vinho mal tratado, a série "não respirou" e a solução encontrada por Alan Ball soou-lhe a "facilitismo". "Não me bateu."

O final de M.A.S.H. (1983), eleito pela CNN e pelo LA Times, também não satisfez o crítico Larry Carroll, que escolheu os melhores e piores para o portal MSN.com. Friends, uma das comédias mais vistas e rentáveis de sempre, também não consegue satisfazer todos e figura tanto na lista dos piores como na dos melhores. E nem mesmo Seinfeld, o rasgo irónico do autor Larry David, consegue escapar a um lugar nos dois pódios.


Longe de acabar
Um final consagrado pela crítica como decididamente mau é o de Ficheiros Secretos (2002), na nona série, em que tudo se tenta explicar num episódio duplo. Há uma solução parcial para a mitologia que ocupou aqueles que queriam acreditar em extraterrestres, além de uma resposta demasiado óbvia à questão "quando é que Mulder e Scully se juntam?" Outro final odiado é o de Twin Peaks (1991). "Eu pertenço àquele grupo que queria uma terceira série", explica Filipe Homem Fonseca, irritado com o "gancho" com que a série termina - o agente do FBI Dale Cooper parece dividir-se em duas personalidades e ser possuído pelo espírito do vilão sobrenatural Bob.

Os portugueses sem instintos de corsário cibernético (leia-se: avessos a descarregar séries pela Net) só poderão ajuizar se o final de Os Sopranos entra na categoria "bom" ou "mau" em Outubro, quando a segunda tranche de episódios da sexta série volta a ser exibida na RTP2 à segunda-feira à noite. Mas o facto é que "não há uma fórmula" para terminar bem uma série, diz Filipe Homem Fonseca.

"Há séries em que um cliffhanger (um final abrupto que deixa as personagens numa situação de perigo/incerteza) assenta que nem uma luva", opina, porque hoje cada vez mais o sucesso "não passa só pela perícia do argumentista, mas mais pela relação que as pessoas criam com as personagens". O caso de Perdidos vai ser exemplar. É o tipo de série, defende, que pode acabar de várias formas mas na qual "qualquer que seja a explicação (para o que se passa com os náufragos) não vai satisfazer".

O final dos Sopranos foi perfeito para o negócio, bem ao gosto da Máfia. Não só em downloads pagos, DVD, t-shirts e outros materiais relacionados. Anteontem, dezenas de pessoas reuniram-se em restaurantes, bares e discotecas para ver o último episódio. As visitas guiadas On Location Tours, que percorrem a New Jersey de Os Sopranos, tornaram-se peregrinações de fãs e o final da série apenas trouxe mais americanos e britânicos (o maior grupo de estrangeiros a ocupar lugar nos autocarros) à outra margem de Nova Iorque.

À medida que a última série for estreando pelo mundo, como disse o guia Marc Baron ao jornal britânico Telegraph, esperam-se novas enchentes de espectadores-turistas. "Estou certo de que continuaremos a fazer isto durante mais cinco anos", prevê Baron, que também é actor e fez figuração em vários episódios da série - que, segundo David Chase, não vai continuar nem redundar em filme. Mesmo antes de ver o episódio 86, Marc Baron já dizia, cheio de uma razão que não sabia ter: "Não acredito que o último episódio corte todas as opções para o futuro."