Venezuela assinou contratos no valor de seis mil milhões de euros

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Pedro Passos Coelho e Nicolás Maduro, no Palácio das Necessidades: sopa de tomate, garoupa e doce de ovos na ementa do almoço Enric Vives-Rubio

Caracas veio às compras e contratou as mais diversas infra-estruturas, um parque de 12 mil casas prefabricadas e levou quatro mil toneladas de pernil congelado. Portugal garantiu apoio na União Europeia

A estadia de seis horas do Presidente da Venezuela que encerrou a 8.ª comissão mista de acompanhamento bilateral concluiu com a assinatura de diversos contratos. No total, Caracas comprometeu-se em Lisboa com acordos de seis mil milhões de euros, segundo as primeiras contas da diplomacia portuguesa.

"Fernando Pessoa, poeta de todos, perguntou se valia a pena e respondeu que tudo vale a pena se a alma não é pequena. Vale a pena, porque a alma dos nossos governos é grande." Foi desta forma que Nicolás Maduro concluiu a sua breve intervenção no Centro Cultural de Belém, ontem tornado um centro comercial das relações luso-venezuelanas, em cujas salas se reuniram seis subcomissões: petróleo, agricultura e alimentação, turismo e cultura, governações, infra-estruturas e portos, e, por fim, a de ciência, tecnologia e inovação.

Durante o dia, 120 empresas portuguesas passaram pelos corredores do CCB. Reuniram com a Administração venezuelana, com empresas públicas, governadores e com os ministros e responsáveis das Finanças, Ciência e Tecnologia, Petróleo, Turismo, Transportes Marítimos e Aéreos e Agricultura.

Enquanto isso, o chefe da diplomacia de Caracas acompanhava o Presidente Nicolás Maduro na sua primeira visita oficial a Portugal. Pela manhã, numa visita a Cavaco Silva, em Belém. Depois, ao Palácio das Necessidades, para uma reunião e um almoço com Passos Coelho e o ministro Paulo Portas. As relações bilaterais foram debatidas com um menu suave: sopa de tomate; garoupa; doce de ovos.

"Tivemos uma boa jornada de trabalho. Em quatro anos, conseguimos pôr a relação entre os nossos países no nível mais alto, um nível nunca atingido", congratulou-se o Presidente da Venezuela. "As relações políticas são excelentes e radicam na base da confiança", disse Pedro Passos Coelho: "Os resultados concretos reflectem a complementaridade das nossas economias".

Quando estas palavras foram pronunciadas, tinham já sido assinados diversos contratos entre empresas portuguesas e o Estado venezuelano. Nas já tradicionais áreas das infra-estruturas e habitação, ao mais recente sector agro-alimentar, passando pela indústria automóvel.

"O Presidente Chávez sonhou, em 2008, com uma relação estreita e forte com Portugal", recordou Maduro. As estatísticas revelam a pujança dessa relação. No último quinquénio, as exportações portuguesas para a Venezuela multiplicaram por seis e atingiram, no ano passado, 313 milhões de euros.

"A força da nossa relação prende-se com as afinidades históricas e a existência de uma comunidade luso-descendente na Venezuela, uma situação única e diferenciadora do nosso relacionamento", referiu Passos Coelho. Para, depois, voltar à contemporaneidade. "A relevância da Venezuela não se deve, apenas, a razões económicas, a Venezuela inicia em Julho a presidência do Mercosul", disse Passos. O Mercosul, o mercado comum que integra Argentina, Brasil, Paraguai, Uruguai e Venezuela, pretende chegar a um acordo com a União Europeia. Há uma semana, com a visita da Presidente brasileira Dilma Rousseff, Portugal já se comprometera a apoiar tal acordo. Ontem reafirmou-o: "Ambos os países trabalharão em conjunto para que se chegue a um acordo", afirmou o primeiro-ministro.

Se à sua chegada a Belém, Maduro foi criticado por uma dezena de venezuelanos que consideraram o seu regime ilegal - "instalado no país através da fraude eleitoral" -, ao fim da tarde, no CCB, o Presidente da Venezuela foi saudado. Ao som dos tambores dos Tocá Rufar e com vivas ao seu regime.