(Des)conhecimento científico ou (pre)conceito ideológico?

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De acordo com notícia publicada no sítio electrónico do jornal PÚBLICO, em 5 de Junho de 2013, o mistro da Educação e Ciência referiu que é "contra o "eduquês" e as teorias de Jean Piaget". Quando "questionado sobre o modo como as crianças aprendem, o ministro afasta a ideia do gosto pela aprendizagem".

As anteriores palavras devem convocar-nos para uma reflexão séria e construtiva. Pode negar-se o contributo de alguém como Jean Piaget para compreender o que é e como se processa a aprendizagem? Pode negar-se o direito ao prazer de aprender, como se isso fosse incompatível com trabalho, rigor e esforço? Pode estar-se amarrado a pensamentos, cientificamente tão limitados e politicamente tão capturados de preconceitos?

Saberá o autor das palavras citadas anteriormente que o maior prazer de um estudante é sentir que o seu esforço é real, bem sucedido, valorizado e lhe proporciona felicidade quando ele: (i) sente que progride; (ii) coloca as questões certas e procura, criativa e sistematicamente, as suas respostas; (iii) recebe as críticas construtivas e beneficia do contraditório; (iv) é ambicioso nos seus objectivos de aprendizagem; (v) é capaz de inovar, arriscar, pensar fora da caixa e criar o inédito; (vi) tenta, erra e reformula o caminho, avaliando e melhorando as suas decisões; (vii) sente o incentivo e a confiança dos seus professores; (viii) constrói laços nos grupos onde coopera e cultiva a amizade; (ix) sente a vanguarda do conhecimento; (x) sente que tudo o que vive nas escolas e nas aulas contribui para a sua felicidade, como pessoa?

Sabe, sr. ministro, não se pode ordenar a alguém para que aprenda. Simplesmente, não resulta. As escolas não são prisões e a aprendizagem não é um castigo. De facto, aprendemos, mais e melhor, quando alguém nos lidera pelo exemplo, nos conquista pelos argumentos, nos impõe regras e critérios com justiça e equidade, nos incentiva pelos desafios, nos premeia pelos sucessos, nos ajuda nas dificuldades, nos estabelece bitolas ambiciosas, nos torna autónomos, nos ajuda a sentir a felicidade do esforço bem sucedido. Por outras palavras, sr. ministro, aprendemos, mais e melhor, quando nos sabem educar.

As neurociências têm evidenciado a relação entre a emoção e cognição. Na realidade, as palavras que entram directamente para o nosso coração são alavancas mais potentes para trabalharmos e nos sacrificarmos do que as ordens e as directivas, por mais autoritárias que sejam. É por isso que pessoas motivadas trabalham mais e se entregam mais às suas tarefas, projectos e responsabilidades. A aprendizagem, nestas condições, é mais profunda e edificante do que a que resulta exclusivamente da imposição externa.

A educação - tal como a matemática, a psicologia ou a economia - é uma ciência. Convém sermos humildes e aceitarmos o contributo de muitos dos que estudaram e estudam neste campo científico. Não podemos ignorar os contributos de Jean Piaget (o tal da aprendizagem), Georges Snyders (que estudou e escreveu umas coisas acerca da importância da felicidade na educação), António Damásio (que, entre outras coisas, tem estudado a relação entre emoção e cognição), Paulo Freire (para percebermos o que será a felicidade de se aprender a ser gente que conta e que tem direitos) ou Coménio, que, há 375 anos, já defendia uma escola promotora de uma educação global e, consequentemente, de uma sociedade mais justa. Devemos ainda revisitar a Teoria das Necessidades de Maslow, para compreendermos por que é que, hoje, as nossas crianças, mal alimentadas ou oriundas de famílias em grandes dificuldades sociais e económicas, têm muitas dificuldades em aprender a ler ou a calcular. Por último, a leitura de Amartya Sen permite-nos perceber por que é que a actual política de extinção da educação e formação de adultos condenará, irreversivelmente, o nosso país à pobreza.

Acredito que o sr. ministro sabe, certamente, isto tudo, porque teve professores que o fizeram sentir tudo isto. Foram estes professores que nos marcaram e nos ajudaram a construir, como pessoas e profissionais, porque - não nos subtraindo a trabalhos ou sacrifícios - nunca nos negaram o direito ao prazer de aprender.

Eduquês é negar, ignorar ou deixar capturar, por preconceitos ideológicos, a evolução científica na educação e os resultados de estudos científicos rigorosos realizados por instituições nacionais e internacionais credíveis e reconhecidas, acerca dos resultados das recentes políticas educativas em Portugal.

Ex- deputado do PS e professor da Univ. de Évora