“Luz Antiga”, de John Banville

O livro do escritor irlandês é um exemplo literário de como as recordações não são fiáveis e de como se podem distanciar, em paralelo com o tempo, dos factos a que reportam

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Kieran Doherty/Reuters
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John Banville (n.1945; Wexford, Irlanda) tem visto a sua obra ser muito premiada.


“Kepler” foi distinguido com “The Guardian Fiction Prize 1981”. O autor foi finalista do “Man Booker Prize”, em 1989, com “Confissão”. Viria a ganhar este prémio com “O Mar”, em 2005.


“Luz Antiga”, editado pela Porto Editora, é um exercício desconstrucionista da memória. As influências de Paul de Man e de Derrida são parte integrante da essência deste romance. A memória, pilar da construção identitária de um indivíduo e de uma sociedade, é constantemente reconstruída ao longo da existência individual e/ou colectiva.


De Man, citado neste romance, dedicou muita atenção a esse mestre da desconstrução da memória chamado Marcel Proust.


“Luz Antiga” é um exemplo literário de como as recordações não são fiáveis e de como se podem distanciar, em paralelo com o tempo, dos factos a que reportam.


“Por vezes, o passado parece um puzzle em que faltam as peças mais importantes” (pág.229)


Em benefício da coerência da narrativa, a desconstrução não é levada ao limite, ou seja não é radicalizada até não haver um centro a que se possa voltar.


Alexander Cleave, personagem que narra a sua história, debate-se com um passado dominado por um caso amoroso com uma mulher casada, da mesma idade da sua mãe, e pelo suicídio da sua filha. No presente e no exercício da sua profissão de actor, ele procura representar um escritor chamado Axel Vander (personagem baseada em Paul De Man).


A idealização, própria de um adolescente, da sua amante não encontra eco na família dela. A sua mais que óbvia vontade de ocupar o lugar do marido, Mr. Gray, é denunciada directamente, mas também indirectamente. A simbologia da sujidade das roupas do pai e do filho, seu amigo de infância, denuncia juízos de valor.


No entanto, Alexander, num exercício de ventriloquismo por parte do autor, sabe que as recordações o atraiçoam. Não sabe, no entanto, até que ponto isso acontece. A procura de Mrs. Gray, que pode no presente já estar falecida, confirmará as suspeitas da falibilidade das recordações.


A problemática da memória na construção da identidade está presente, de forma interligada, em outras obras do escritor irlandês.
Segundo Joan Acocella, em “The New Yorker”, Alexander Vander já havia aparecido em dois romances de Banville. Em “Shroud”, por exemplo, Vander assume a identidade de outro homem. Neste mesmo romance é relatada a história do suicídio de Cass.


Em “Eclipse”, Alexander Cleave sofre de uma “branca” em palco. Esse episódio é mencionado em “Luz Antiga”.


O jogo de sombras, o “Role-play”, é constante.


A memória é mais do que um veículo para a acção. É um tema.