A Noite Dividida

Será que desconhecem que a rigidez negocial do Governo faz parte da estratégia de provocar resposta igualmente rígida?

1. Sebastião Alba. Ao deambular pela Avenida de Roma, entrei, por desfastio, numa bem organizada livraria em tenda e perguntei pelas obras do poeta Sebastião Alba, meu amigo de adolescência que conheci então por Dinis. Tive a sorte de encontrar, em edição de 2003, uma compilação póstuma de poemas, cartas e notas dispersas de Dinis Albano Carneiro Gonçalves, natural de Torre Dona Chama e falecido em Braga, por atropelamento. Aos quinze ou dezasseis anos, tendo ele mais um ou dois que eu, foi Dinis quem me despertou o gosto pela música, o prazer da aventura literária, a iconoclastia da recusa. Perdi-o de vista durante quarenta anos, apenas li dele O Ritmo do Presságio (1974) e A Noite Dividida (1982). Sebastião Alba teve uma vida assumidamente difícil, à margem das academias, das convenções, religiões e legislações, morreu entre o acidental e o suicidário. Idolatrou a família, pais, irmãos e filhas, encantou os amigos com folhas soltas da sua prodigiosa produção, amou e sofreu não ser amado, escolheu uma forma de vida anticonvencional. Sempre lúcido, generoso até ao completo desprendimento, foi o melhor divulgador musical que eu poderia ter tido, tocando harmónica e cantando, com o talento por única escola. O livro que amigas, amigos e filhas editaram há dez anos é o fiel retrato da sua personalidade tal como a conheci nos idos de 1958, em plena campanha de Humberto Delgado, na sempre rebelde e amada cidade da Beira, Moçambique. Misto de memória, análise psicológica e auto-retrato cultural, o livro Sebastião Alba alarga o círculo dos seus amigos e devotos e projecta-o como um dos maiores poetas contemporâneos da nossa língua. Teria sido possível a alguém aproveitar tamanho talento, domar a rebeldia permanente, regrar a auto-exclusão a que toda a vida se votou? Provavelmente, "teve o destino que quis, o fim que escolheu", parafraseando Reinaldo Ferreira. Um comovido respeito pelos valores, pelo amor e pela amizade que cultivou serão a melhor forma de o homenagearmos, até que cheguem as palmas académicas, póstumas que em vida sempre teria enjeitado.

2. Greve de professores. Tudo leva crer que hoje os professores estejam em greve, dificultando ou mesmo impedindo as provas finais de milhares de estudantes. Ninguém discute a legitimidade da greve, mesmo em dia de real prejuízo para os escolares, embora se lamente que tenha sido necessário criar reféns tão alheios ao conflito. Poucos contestam o imenso capital de queixa acumulado por estes e outros actores contra os efeitos da política restritiva da escola pública. Mas o que os sindicatos não conseguirão será atrair, em vez de repelir, o cidadão para a sua causa. Com efeitos impossíveis de prever para o desprestígio da sua luta. Sendo este o sentimento da esmagadora maioria dos portugueses, cabe perguntar: o que move realmente estes actores? Será que não entendem o suplemento de ânimo que estão a oferecer a um Governo moribundo? Será que desconhecem que a rigidez negocial do Governo faz parte da estratégia de provocar resposta igualmente rígida e tremendamente geradora de erosão do prestígio do movimento sindical?

3. Subsídio de férias. A recusa de pagamento, antes do Verão, do subsídio reposto ao vilipendiado funcionalismo e seus pensionistas, em desrespeito pela decisão do Tribunal Constitucional e contra a praxis por ele reposta, tem tido diversas interpretações. A mais simplista para a direita acossada e desagradada com a escalada de erros será reconhecer incompetência técnica do Governo. Alguns admitem crise transitória de tesouraria, embora não seja essa a versão oficial. Outros ainda identificam instinto de vingança, mesquinho e baixo. Seja qual for a explicação, os factos são difíceis de aceitar e não cola a informação de os subsídios só em Novembro e Dezembro serem atribuídos. Noutros tempos, quando se receava a inflação, muitas vozes de economistas se levantavam contra as duas injecções de liquidez salarial, no Verão e no Natal. Agora, que a inflação não assusta e quando, pelo contrário, tão necessário se torna renovar o consumo anémico, estranha-se que se postergue o efeito económico para daqui a seis meses. Nem sequer se pode esperar que a "benesse" possa ter efeito nas eleições europeias, esperadas para só daqui a um ano. Alguém consegue uma explicação mais sólida?

4. O Presidente na Europa. O Presidente da República representou bem o país na sua jornada europeia, em especial no discurso perante o plenário do Parlamento Europeu. Gostaríamos que o discurso fosse continuado nas pátrias terras. Mas uma parte importante para o nosso futuro foi a identificação quantificada dos efeitos da crise nos próprios países do centro da Europa que tão relutantes foram em a combater em tempo útil. Ao chamar a atenção para a depressão que cava as economias mais sólidas, o Presidente assinalou quão transitória pode ser a glória económica. Com alguma surpresa deles, informei colegas de vários países que o Presidente se situava no centro-direita. Pelo discurso pronunciado, muitos julgavam-no ao centro-esquerda. Seja como for, valeu a pena a viagem.

Deputado do PS ao Parlamento Europeu. Escreve à segunda-feira