Uma greve que Crato não soube vencer

Se a greve for um sucesso, a escola passará a ser o bastião da função pública no conflito com o Governo

O Governo falhou todas as previsões e errou em todas as estratégias que desenhou para enfrentar a contestação dos sindicatos dos professores. Na rotina do dia-a-dia, o Ministério da Educação não se apercebeu de que nas escolas estava a germinar uma vaga de contestação que apenas esperava a melhor oportunidade para explodir. Na gestão dos cortes e no afã de organizar mais e mais exames ou de produzir mais e mais directivas para as escolas, Nuno Crato não se deu conta de que os sindicatos esperavam apenas a melhor oportunidade para acender esse rastilho. O conflito a que assistimos por estes dias tem pois todos os ingredientes para se tornar insanável. Mistura a raiva do mal-estar com a astúcia dos interesses sindicais. No movimento, o ministro da Educação caiu na emboscada. Um pouco mais de sentido táctico tê-lo-ia poupado à pressão a que foi sujeito. Se não tivesse dado como adquirida a vitória na comissão que decidiu sobre os serviços mínimos, se não tivesse dado como certa a jurisprudência de tribunais em greves coincidentes com as datas de exames de anos anteriores, poderia ter torpedeado a estratégia dos sindicatos aceitando adiar em três dias a data do exame. Se o tivesse feito, com maior ou menor dificuldade os exames acabariam por se realizar e os sindicatos ficariam a braços com uma greve sem impacte e, previsivelmente, sem adesão. Mas Nuno Crato agarrou-se à sua crença numa vitória antecipada, barricou-se na questão moral que desenvolveu sobre as greves aos exames e dispôs-se para uma batalha em campo aberto. Ou ganharia ele ou os sindicatos. Não se apercebeu entretanto de que, desta forma, concedeu aos professores todos os trunfos para ganharem a contenda. Como se diz no futebol, o resultado da greve só depende deles. Os professores hesitantes ou até os que se tinham disposto a ficar em casa sentir-se-ão desafiados e tentados a exprimir na greve toda o desconforto e ressentimento contra o Governo.

O recuo de um ministro num conflito laboral não é opção fácil. O argumento de Nuno Crato de que se aceitasse as razões dos sindicatos jamais haveria um calendário de exames pacífico em Portugal tem um evidente lado racional. A tese de que lhe compete, e ao Estado, fazer tudo para manter a normalidade numa época tão sensível faz sentido. Ainda assim, o que no final do dia de amanhã será discutido é se milhares de alunos foram, ou não, vítimas de uma guerra que só indirectamente lhes diz respeito e se Nuno Crato foi, ou não, capaz de lhes garantir os seus direitos na forma como lidou com os sindicatos. Por outras palavras, o que estará em causa amanhã será muito mais do que uma greve. O que estará em causa é a credibilidade política do ministro e o poder dos sindicatos. Se Crato perder, a sua intransigência terá um custo. Se os sindicatos ganharem, a escola pública será transformada no último bastião do conflito entre a função pública e o Governo.

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