Socióloga estudou movimento punk em Portugal

Ex-ministro da Defesa Augusto Santos Silva está a analisar as músicas produzidas pelas bandas desde os anos 70

Um estudo sobre o movimento punk em Portugal desde 1977, coordenado pela socióloga Paula Guerra, vai ser alvo de debate na próxima semana no Porto.

"O punk é a afirmação do ser diferente, do rebelde face ao sistema, face aos pais e à sociedade, e isso é uma atitude e, sobretudo, uma forma de estar para muitas pessoas que, apesar de já não se vestirem da mesma maneira, continuam metidas nos princípios do movimento, através do seu empreendedorismo, forma de estar na vida e atitudes", explica Paula Guerra, que promove na quinta-feira o debate.

"O projecto pretende olhar para o punk em Portugal desde o ponto de vista sociológico e não musical. O que nos interesse é saber os modos de vida e a cultura sobre o movimento, porque a questão em Portugal tem similitudes com o que se passa ao nível dos Estados Unidos ou do Reino Unido, mas tem especificidades próprias, nomeadamente dadas as questões ligadas às regiões - Porto e Lisboa - e à revolução do 25 de Abril", explica a socióloga, que publicou artigos académicos sobre o assunto no Journal of Sociology e na revista Critical Art.

O início do movimento no território nacional é referenciado por Paula Guerra com o aparecimento dos Faíscas, em Lisboa, que deram origem à banda Corpo Diplomático e pouco depois aos Heróis do Mar. "A origem social dos intervenientes no início é relevante. Eram de uma classe mais elevada do que propriamente em Inglaterra ou nos Estados Unidos", sublinha Paula Guerra, que identificou cerca de 600 bandas punk desde os anos 70. "Estamos a analisar as letras. Temos 400 canções, já estão analisadas 300 e mesmo as próprias temáticas acabam por ter uma referência a Portugal e reivindicações sociais, políticas, económicas e mesmo culturais muito específicas do nosso país", prossegue, adiantando que a análise das músicas está a cargo do sociólogo e ex-ministro da Defesa Augusto Santos Silva.

O estudo, que vai ser apresentado na Áustria em Outubro, fala de um movimento constituído por 98 por cento de indivíduos do sexo masculino. Aborda também a questão do envelhecimento e a forma como os princípios e as referências do movimento face à sociedade são mantidos ao longo da vida, apesar da roupa. "Já foi feito um estudo em Inglaterra para o aging [envelhecimento] dos góticos. Agora vamos avaliar como é que uma pessoa permanece punk sem estar condicionado pela idade, roupa e as trajectórias de vida que permitem ao mesmo indivíduo ser punk de várias maneiras e manter referências e gostos desde a juventude", afirma a investigadora.

O primeiro ano de investigação deu origem a um trabalho intitulado Keep it simple, make it fast!, que será apresentado no Gallery Hostel, na Rua de Miguel Bombarda, e pode ser acompanhado nas redes sociais. Participam no colóquio Andy Bennet, sociólogo britânico da Griffith University da Austrália, e Carles Feixa, antropólogo espanhol da Universidade de Lleida. Lusa