Snowden, o narcisista cobarde ou o corajoso patriota

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Edward Snowden disse ter acreditado que a chegada de um democrata à presidência mudaria as agências de espionagem BOBBY YIP/ REUTERS

A questão regressa sempre que os EUA são confrontados com um novo whistleblower: há quem se preocupe mais com o mensageiro e quem prefira discutir a mensagem.

Ainda não tinha passado um dia desde que Edward Snowden saíra do anonimato para revelar os programas secretos da Agência de Segurança Interna norte-americana (NSA) e já a Internet fervilhava com pormenores do seu passado.

Como é que um rapaz que não terminou o ensino secundário, que foi fotografado a baixar as calças numa festa de aniversário e que se apresentava no perfil de uma empresa gerida por adolescentes como "Edowaado" podia ter credibilidade enquanto responsável por uma das mais importantes denúncias da História recente dos Estados Unidos?

Como é que o namorado de uma bailarina da Trupe Acrobática de Waikiki, que partilhava imagens em que pode ser visto a mexer no cabelo - ao lado do comentário "So Seeeexy it HURTS!" - podia ser levado a sério? A opinião pública norte-americana dividiu-se entre o Snowden herói e o Snowden traidor; entre o "Team Snowden" e o "Team NSA", como assinalou James Poniewozic no site da revista Time.

As posições extremaram-se. Para David Brooks, antigo correspondente em Bruxelas do The Wall Street Journal e actual colunista do The New York Times, Snowden é "um produto de uma das tendências mais infelizes da era actual: a atomização da sociedade, a perda de laços sociais, o aparente crescimento da quota de jovens na casa dos 20 anos que vivem existências tecnológicas na terra difusa entre as suas infâncias e as responsabilidades familiares enquanto adultos".

Uma opinião partilhada pelo veterano repórter Richard Cohn, no The Washington Post: "Tudo o que rodeia Edward Snowden é ridiculamente cinematográfico. Ele não é paranóico; é apenas narcisista. Perdeu uma namorada, uma carreira e, sem dúvida, a liberdade individual por revelar programas que eram do conhecimento dos nossos responsáveis eleitos e cujo conteúdo podia ser deduzido por qualquer pessoa que já fez pesquisas no Google."

Os rótulos foram tantos que o site da revista Foreign Policy fez uma lista, com o título "Que comece a campanha negra contra Edward Snowden". Há o traidor, o cobarde, o narcisista, o desertor, o solitário, e até o Capuchinho Vermelho travesti - é assim que Richard Cohn o classifica no Washington Post, por Snowden tapar a cabeça e o seu computador portátil com "um grande capuz vermelho" quando tem de usar passwords, "para prevenir ser filmado por câmaras escondidas", segundo o relato de Glenn Greenwald, do The Guardian, que o entrevistou num quarto de hotel em Hong Kong, onde ele se refugiou em Maio.

"Team Snowden"

Do outro lado da barricada, os vestígios do passado do norte-americano de 29 anos são recebidos com aparente indiferença, que não disfarça uma encapotada indignação. O escritor, historiador e analista político Thomas E. Woods, conhecido simpatizante do Partido Libertário, resumiu na sua página no Facebook, com ironia, os argumentos reflectidos em muitos comentários partilhados na Internet: "Os opositores de Edward Snowden divulgaram uma fotografia dele a baixar as calças em 2002. Bem, isso muda tudo!" Para além do apoio na Internet, há também manifestações nas ruas. Ainda ontem, centenas de pessoas mostraram que estão ao lado de Snowden, num protesto às portas do consulado dos EUA em Hong Kong.

Todos têm uma opinião sobre o perfil de Snowden, mas há muito a analisar para além das fotografias com as calças em baixo. Ou, como ironizou a The Atlantic, "parece que Snowden foi em tempos adolescente e, pior do que isso, esse período da sua vida ficou registado online".

Ao contrário da maioria dos whistleblowers (denunciadores) mais conhecidos dos Estados Unidos, Edward Snowden não teve um passado brilhante na universidade - não teve sequer um passado na universidade, e obteve equivalência ao ensino secundário anos depois de ter desistido das aulas -, nem passou grande parte da sua vida a lidar com documentos ultra-secretos.

Sabe-se que em 2004 - pouco antes de fazer 21 anos - se alistou no Exército, com a intenção de integrar as Forças Especiais. Ficou por lá cinco meses, antes de ser exonerado (ao The Guardian, disse que partiu as duas pernas num exercício).

A carreira nos serviços secretos começou depois da breve passagem pela vida militar, mas longe de qualquer computador com acesso a documentos secretos: foi segurança nas instalações da NSA na Universidade do Maryland, o estado onde vivia com a família. O ponto seguinte no currículo já o apresenta como funcionário da CIA, no departamento de segurança de tecnologias de informação, mas não é claro de que forma deu o salto. Em 2007, foi colocado em Genebra, na Suíça, com protecção oficial, onde ficou responsável pela segurança da rede de computadores. Por essa altura, segundo disse o próprio ao Guardian, pensou em divulgar os segredos dos programas de vigilância a que tinha acesso, mas a vitória do democrata Barack Obama nas eleições presidenciais de 2008 fê-lo acreditar que alguma coisa iria mudar nas agências de espionagem.

Despediu-se da CIA em 2009, para trabalhar em empresas privadas contratadas pela NSA - no Japão e no Havai -, onde chegou a ganhar entre 120 mil e 200 mil dólares por ano (entre 90 mil e 150 mil euros), de acordo com diferentes relatos.

A partir destas informações - e de outras que o próprio deixou na entrevista em vídeo ao Guardian -, vários especialistas foram convidados a traçar o perfil do homem que expôs os programas de registos de chamadas telefónicas e de recolha de emails, fotografias, vídeos e conversações em tempo real na Internet da NSA, conhecido como PRISM.

"Ri-me quando ele disse que a CIA tinha um escritório no fim da rua" do hotel onde estava a ser gravada a entrevista, disse o especialista canadiano Jim van Allen ao The Daily Beast. "Pensei logo que isso reduzia o número de hotéis em que ele estava. Tudo me parece muito descuidado. Ele esteve no Exército, na CIA, e esteve envolvido em funções de segurança. Devia ser muito melhor a encobrir o seu rasto", considera.

Mas nada disto apaga o essencial, segundo o "Team Snowden": a NSA recolhe, guarda e analisa as chamadas telefónicas e os emails de milhões de pessoas, nos EUA e no resto do mundo. E mesmo quando Obama diz que os serviços de espionagem não ouvem as conversas telefónicas nem lêem os emails de norte-americanos no territórios dos EUA, não responde a uma das questões que mais preocupam os defensores dos direitos de privacidade: a tecnologia permite que isso seja feito - e as palavras escolhidas pelo Presidente não incluem os cidadãos dos outros países.

A questão da legalidade traz à memória uma notícia do The New York Times de 2005: "Meses após os ataques do 11 de Setembro, o Presidente George W. Bush autorizou secretamente a NSA a escutar cidadãos americanos e outras pessoas no território dos EUA em busca de indícios de actividade terrorista sem mandados aprovados pelos tribunais, normalmente requeridos para espionagem interna."

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