Não confundir Taksim com Tahrir

A Europa devia tentar evitar transformar os acontecimentos na Turquia em mais um pretexto para lhe virar as costas

1. Que não haja ilusões. O que se passa na Praça Taksim, em Istambul, a mais dinâmica cidade da Turquia e o seu centro principal de negócios, não é uma outra "Praça Tahrir". Recep Tayyip Erdogan não é Mubarak. A Turquia, não sendo ainda uma democracia completa, deu na última década passos seguros nessa direcção. Fê-lo para responder às exigências europeias. E fê-lo precisamente nos sucessivos mandatos do partido islâmico moderado do actual primeiro-ministro. Aliás, a opção europeia da Turquia ganhou uma nova dimensão com o Partido da Justiça e do Desenvolvimento que a governa desde 2002. É preciso olhar para o que havia dantes: um regime político corrupto e fiscalizado pelos militares que se consideravam como os garantes da república secular fundada por Ataturk e que nunca hesitaram, até aos anos 80, em recorrer ao golpe de Estado para preservar essa herança. A Turquia de hoje é outro país. Desenvolveu-se enormemente. Foi cumprindo, com este ou aquele sobressalto, as prescrições europeias em matéria de democracia e de protecção das minorias. Transformou-se progressivamente numa potência regional cujo principal objectivo era a paz com todos os seus vizinhos. Como membro da NATO, participou nas missões militares da aliança.

Quando Erdogan subiu ao poder, o objectivo europeu era apoiado por mais de 70 por cento da população. Hoje, já só colhe o apoio de 30 por cento. A razão, todos sabemos qual é. Depois de ter aceitado a candidatura turca em 2005, a União Europeia começou a hesitar. Berlim e Paris uniram-se na defesa de uma "relação privilegiada" como alternativa à adesão. Ancara nunca aceitou este estatuto. Por uma razão ou por outra, as negociações mantiveram-se semicongeladas. As hesitações europeias assentavam sobretudo no argumento de que a Turquia era demasiado grande e demasiado pobre para encaixar nas instituições europeias, sem provocar desequilíbrios profundos. A questão do islamismo, nunca explicitada oficialmente, levantava grandes reservas nas opiniões públicas europeias, desconfiadas da sua "compatibilidade" cultural, tornando o tema pouco atractivo. Em termos gerais, no entanto, havia duas considerações estratégicas que alimentavam o debate sobre as fronteiras da Europa e que faziam da Turquia o lugar geométrico dos grandes desafios europeus. A necessidade de provar que islamismo e democracia são perfeitamente compatíveis, colocada de forma dramática depois do 11 de Setembro. A questão do papel da Europa num mundo que já estava em profunda mutação: uma "grande Europa" capaz de exercer a sua influência mundial, ou uma "pequena Europa", homogénea e fechada, em risco de vir a ser "devorada".

A crise financeira e económica mundial, que haveria de mergulhar a Europa numa profunda crise existencial, afastou da agenda europeia essas duas reflexões. Entretanto, houve a "Primavera Árabe". E houve também uma nova confiança turca, que o enorme crescimento económico alimentou, quanto ao seu estatuto de potência regional. Oficialmente, a Turquia mantém a sua opção estratégica pela Europa. Na realidade, as coisas mudaram muito. Mas não ao ponto de alterar a natureza fundamentalmente democrática do regime.

2. O que os jovens que iniciaram os protestos da Praça Taksim queriam, em primeiro lugar, era preservar as árvores de um dos poucos parques de uma cidade gigantesca e febril, contra os projectos megalómanos de Erdogan. Foi a violência da repressão policial que acabou por dar outro cunho e outra dimensão a esta "revolução das árvores", que se estendeu rapidamente a muitas outras cidades, exprimindo o cansaço da parte mais liberal, mais urbana e mais cosmopolita da sociedade turca de um líder que se vê outra vez como o "pai da pátria", que ganhou três eleições de seguida e que não resiste à tentação de querer manter o poder a todo o custo, alterando a Constituição no sentido presidencialista e fazendo-se eleger Presidente. O que se está a passar é, provavelmente, o toque a finados para essa ambição. É verdade que os partidos da oposição, de raiz kemalista e nacionalista, também não representam as pessoas da Praça Taksim, que querem viver as suas vidas privadas à vontade e que têm enormes expectativas sobre o seu futuro. "Olhando para a composição dos manifestantes, a Praça Taksim é o retrato de uma nova Turquia onde as antigas divisões se mudaram para outro lado", escreve o Financial Times. "Quase todas as formas de vida da cidade coabitam na Praça Taksim. Há kemalistas (...) ao lado dos seus inimigos nacionalistas curdos (...); sindicalistas ao lado de associações de médicos e académicos, liberais cosmopolitas e alevitas, uma não- reconhecida minoria xiita; anarquistas e gays ao lado de muçulmanos sufis". O que os une? A crítica a um primeiro-ministro que pensa que é o dono do país. A expectativa de uma vida mais livre e melhor. A irritação com as suas "lições de moral" sobre a troca de uma cerveja por um iogurte (pelo menos entre as 10 da noite e as seis da manhã). São uma parte incontornável de uma nova identidade turca assente em valores mais abertos e um poder mais transparente. Não querem derrubar um ditador, mas querem que a democracia funcione para derrubar um líder que já não corresponde aos seus anseios e que se revela demasiado autoritário. "Não é sobre religião, é sobre autoritarismo", escreve a Economist. Os seus protestos pacíficos e irreverentes desmistificaram o líder.

Mas há, no entanto, duas semelhanças entre o que se passa hoje na Turquia e o que passou antes no Cairo ou em Tunes. A imprensa turca é cinzenta e demasiado reverente. Só que isso deixou de ser uma vantagem para o poder. O Twitter substitui-a muito facilmente. A segunda semelhança é que, em Istambul ou em Teerão, na Tunísia ou no Brasil ou até na própria China, assistimos hoje ao despertar de uma nova classe média, mais educada e mais urbana, convencida de que chegou a sua hora e com enormes expectativas para o seu futuro. É esta a grande mudança que torna muito difícil voltar para trás.

3. A Europa devia tentar evitar transformar os acontecimentos na Turquia em mais um pretexto para lhe virar as costas. Seria um enorme erro. Porque o que se joga em Istambul é o resultado do amadurecimento da democracia turca que Bruxelas sempre incentivou. Mas também porque não pode ficar à margem das profundas mutações regionais desencadeadas pelas revoltas árabes e pela "guerra por procuração" que hoje se trava na Síria entre potências xiitas como o Irão e sunitas como a Arábia Saudita, de consequências imprevisíveis. Essa é a sua vizinhança próxima e a sua responsabilidade. Já perdeu, com as suas hesitações, a sua capacidade de influenciar os acontecimentos internos no bom sentido. Não pode perder aqueles que hoje querem uma normal vida europeia e ocidental, nem distanciar-se de um país aliado que é fulcral para a estabilidade da região. A Turquia está a experimentar também uma prova difícil para a sua política externa de "zero conflitos com os vizinhos". A Síria é um tremendo desafio. Erdogan quis andar demasiado depressa quando se fez o porta-voz daqueles que queriam o derrube do regime, não acautelando uma estratégia combinada com os EUA e a União Europeia, pouco interessados em envolver-se num novo conflito regional. Qualquer estratégia ocidental para lidar com um conflito que se agrava todos os dias e que já colheu quase 100 mil vidas tem de envolver Ancara.

Jornalista. Escreve ao domingo